«Quinhentoseuristas»?

Que parvos que eles são

      «No apelo que durante semanas correu no Facebook a convocar os “‘quinhentoseuristas’ e outros mal remunerados...” pedia-se que cada pessoa que comparecesse nas manifestações escrevesse numa folha A4 a razão da sua insatisfação, uma proposta, um pedido. Agora, a ideia é entregar a Jaime Gama todas as folhas» («Geração à Rasca pede audiência a Jaime Gama», Andreia Sanches, Público, 16.03.2011, p. 14).
     Em português, o /s/ intervocálico não tem de ser sempre dobrado para soar /ss/? Independentemente da realização fonética, da forma como é articulado (temos outros casos na nossa língua), a grafia tem de incluir dois ss, «quinhentosseurista». O problema, é óbvio, é o primeiro elemento ser um vocábulo sigmático. A palavra terá nascido por influência do vocábulo espanhol (ainda não acolhido pelo DRAE) mileurista. E o que a FUNDÉU recomenda em relação a mileurista faço eu em relação a quinhentosseurista: «Esta nueva palabra debe escribirse siempre en letra redonda y sin entrecomillar.»

[Post 4574]


Nomenclatura científica

Agora também em Angola

      «Em latim, o seu nome científico quer dizer Titã de Angola, a que se juntou o apelido Adamastor, numa referência à figura mitológica de Os Lusíadas, que representava os perigos que os portugueses enfrentaram nas viagens de descoberta pela costa africana. O Angolatitan adamastor, o primeiro dinossauro encontrado em Angola, e até agora único, é hoje descrito numa revista científica brasileira como sendo de um género e uma espécie novos para a ciência» («Primeiro dinossauro de Angola recebe o apelido Adamastor», Teresa Firmino, Público, 16.03.2011, p. 14).
      Em latim, e do mais lídimo e pulcro, senhora jornalista. A nomenclatura científica lá está a entrar na compreensão de todos, depois de tantas cincadas e tantas críticas.

[Post 4573]

«Armar-se em»

O falso adjectivo

      «É difícil ser-se positivo. Numa reportagem muito parva mas esclarecedora no New Yorker datado com o primeiro dia da Primavera (21.3.2011), Dana Goodyear conta a história de dois psicoterapeutas jungianos em Hollywood. Na primeira sessão, Barry Michels pede ao fiel cliente que feche os olhos e se concentre nas coisas que agradece. Se o doente nada disser, Michels, que cobra 360 dólares por sessão, sugere o cão do doente. Aí, o doente concorda que sim, que agradece o cão que tem. De seguida, se o cliente não quiser ir além do cão no rol das coisas pelas quais dá graças, Michels sugere o sol. Responde o relutante paciente (dois adjectivos armados em adjectivo e substantivo): “Sim, o sol, [...] agradeço o sol. Às vezes» («A metade invisível», Miguel Esteves Cardoso, Público, 16.03.2011, p. 39).
      Percebemos por que motivo Miguel Esteves Cardoso afirma que são dois adjectivos — mas temos de lembrar aos leitores que, no caso, «paciente» é substantivo. Por outro lado, e isto é o principal (que nem sempre vem em primeiro lugar), se um está armado em adjectivo, não está armado em nada, pois que armar-se em é expressão idiomática que significa dar-se ares de; fingir-se; mostrar-se diferente do que se é para causar uma impressão favorável. (Esta acepção também não está registada no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, esse queijo suíço armado em dicionário.)

[Post 4572]

Tradução

Que descaramento

      «‘What a nerve Mr Eppy has!’ said Dinah» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 257). «— Mas que sensaboria para o Sr. Eppy! — disse Dina» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 224).
      Sensaboria já foi uma palavra muito usada, já. Na tradução acima, é claro (para mim, que li o texto todo) que não devia ter sido empregada. Embora isso não constitua objecção absoluta, a acepção em que foi usada é informal: circunstância ou incidente desagradável, que causa aborrecimentos; contratempo. E se o trecho se refere ao descaramento, ao atrevimento, à impudicícia do Sr. Eppy?
      Seja como for, algo se aproveita como lição: vejam como a tradutora não escreveu «Mr Eppy», como agora se vê, incompreensivelmente, em muitas traduções.

[Post 4571]


Léxico: «queijo cabreiro»

Regresso às raízes

      «‘Only because you’re so hungry,’ said Jack, giving Kiki some of his. ‘It’s goat-milk cheese, isn’t it, Bill? I say, look at Micky stuffing himself.’» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 227). «— Só porque estás com fome — comentou João, dando algum do seu à Didi. — É queijo cabreiro, não é, Jaime? Olhem para o Micky a devorá-lo» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 199).
      Em vez de queijo de cabra, queijo cabreiro — como ainda se diz e escreve, e bem, por aí.

[Post 4570]

Tradução

Eis a pista

      «João olhou subitamente para ela. Claro, Luzinha, um templo tinha de ter um sino. O templo pode ser um dos pontos-chave, um dos guias que conduzem ao tesouro» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 162).
      Ora cá está uma das embirrações do revisor antibrasileiro, e com quanta razão, desta vez. Não imaginem no original qualquer key point, isso seria nimiamente bélico. O que se lê é «one of the clues». Não é tema novo, aqui: estou farto dos não-sei-quê-chave. E, como se vê, já em 1969 alguns tradutores eram dados a estas imperícias.

[Post 4569]


Tradução: «white horses»

Estamos no mar

      «Andros pôs o motor em andamento. O gasolina dirigiu-se para fora do pequeno porto, deixando para trás o Estrela dos Mares, belo, mas silencioso. Em breve se encontraram no mar alto, avançando aos pulos sobre os carneirinhos brancos que se levantavam de vez em quando» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 139).
      No mar, sim, mas por cima: carneirinhos (que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa ignora o que seja) são certo tipo de nuvens. Carneiro é cada uma das pequenas ondas de uma carneirada, que é um conjunto de pequenas ondas espumantes. E em inglês, sabem qual a palavra para «carneiros» naquela acepção? Talvez algum animal, também? Sim: white horses.

[Post 4568]


«Terremoto/terramoto»

Perdulária

      «No Financial Times de sábado, alguém comparava os terramotos no Japão com o de Lisboa, de 1755. A lição era que Lisboa sofreu e pagou muito mais, em pessoas e dinheiro» («As marés pretas», Miguel Esteves Cardoso, Público, 15.03.2011, p. 31).
      O P. António Vieira, que Miguel Esteves Cardoso leu, empregou também terramoto. A 5.ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL — oh vergonha! — esqueceu-se de registar esta variante. Vejam a riqueza da nossa língua: terremoto, terramoto, terromoto, sismo, abalo sísmico, tremor de terra... Sim, excessiva, bastava um. Curiosamente, talvez o último, «tremor de terra», seja tão pouco português como «sismo», pois vem do francês tremblement de terre. Na escrita não sei, mas na oralidade quase de certeza «terramoto» é o mais frequente.

[Post 4567]

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