Tradução

Que descaramento

      «‘What a nerve Mr Eppy has!’ said Dinah» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 257). «— Mas que sensaboria para o Sr. Eppy! — disse Dina» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 224).
      Sensaboria já foi uma palavra muito usada, já. Na tradução acima, é claro (para mim, que li o texto todo) que não devia ter sido empregada. Embora isso não constitua objecção absoluta, a acepção em que foi usada é informal: circunstância ou incidente desagradável, que causa aborrecimentos; contratempo. E se o trecho se refere ao descaramento, ao atrevimento, à impudicícia do Sr. Eppy?
      Seja como for, algo se aproveita como lição: vejam como a tradutora não escreveu «Mr Eppy», como agora se vê, incompreensivelmente, em muitas traduções.

[Post 4571]


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2 comentários:

Anónimo disse...

Realmente, que topete!
Ele há palavrinhas a que se guarda um respeito supersticioso — e até internacional: haja vista o «madame» que a Bovary parece que nunca ou raro perdeu nas miríades de traduções em que continua à procura do absoluto e só encontra objectos.
— Montexto

Anónimo disse...

Venâncio, não exageremos em nada, se possível, ou só o estritamente necessário ao estilo.
Há-de-se lembrar daquela do grande Óscar de que não é preciso beber o tonel todo para lhe apreciar o vinho.
De Viegas nunca li nenhum romance; ultimamente leio cada vez menos romances (depois dos russos da grande época quase não há pachorra para romances, salvo para uns poucos muito afins — «the happy few»). De Viegas vou lendo as crónicas, e, se foi ele o autor, como me dizem (e deve ser: a opinião a propósito a Gouvarinho no recente Um Promontório em Moledo é, ou é também, de Viegas), do reaccionário minhoto, então li-lhe também este quase todo. E, já aqui o assentei, considero Os Males da Existência um dos livros mais bem escritos dos últimos tempos, se não o mais bem escrito.
Não é pouco, mas ainda é melhorável. Mais uma vez, a língua requer estudo constante, e os tempos não correm favoráveis à perfeição na escrita. Mas isto são conversas demoradas...
— Mont.

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