Elipse de «com»

Não se fala mais nisso

      Não há semana em que não veja um original inglês em que aparece uma frase com a estrutura destoutra: «[…] Ethan said, his chin set sharp as an arrowhead.» Tradução invariavelmente encontrável: «[…] disse Ethan, o queixo esticado como a ponta de uma seta.» Cheguei a focar e a increpar aqui esta via única de verter para português esta sintaxe. Aliás, honestamente, até a reputei errada. Estava enganado, mas fiz bem em mostrar aos tradutores que podem e devem variar. Ora cá está o bom Vasco a pontificar (zurzindo, de caminho, o autor da Estilística da Língua Portuguesa): «Têm-se criticado redacções como esta assim — “ela..., os olhos na mãe postos...”. Há quem julgue só correcto — ela..., com os olhos na mãe postos.
      Mostrei, com exemplos clássicos, no referido Dicionário, que a omissão de com anda abonada pelos melhores autores, e não pode considerar-se “viciosa”» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 421).
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6 comentários:

Anónimo disse...

Olavo Bilac usava muitíssimo disso.

Paulo Araujo disse...

Sim, caro Kupo, mas como você bem sabe o Poeta (com P maiúsculo) é um escravo da métrica. Temos no próprio Bilac 'com' e 'como' bem pertos nestes versos:
"E, torturado e só, sobre o penhasco a pique,/
Com os olhos febris furando a escuridão,/
Queda como um fantasma o Infante Dom Henrique..."
Ficaria até mais poético dispensar o 'com' e o 'como', mas a métrica exigiu-os.

Anónimo disse...

1
Exactamente. Aqui é uma questão de medida, mas também de perspicuidade e estilo: como noutros casos, censurável é o abuso, por redundar em galicismo, não o uso.
Na lição de Mário Barreto, que dedicou o capítulo XLI de Através do Dic. e da Gram., Rio de Janeiro, 1986, às «Frases que costumam explicar-se subentendendo-se a preposição»: «Numa língua como a nossa, de transposição livre e senhoril, e que não anda a chouto, o chouto regular do sujeito, verbo e atributo gaulês [a tal ordem directa], a supressão da preposição pode lançar algumas vezes obscuridade sobre o complemento indirecto, confundindo-se com o sujeito, e é para evadir tal perigo que de ordinário se exprime em português a preposição subentendida em correcto francês: “Il mourut faute de secours”, morreu por falta de socorro; “elle s’est retournée, la bouche ouverte”, voltou-se, “de” boca aberta; “un instant après, il tombait, le bras droit fracasse”, momentos depois caía ferido “com” o braço direito fracturado; “le marquis se tenait immobile les yeux baissés”, o marquês mantinha-se imóbil, “com” os olhos baixos; “elle écoutai la respiration régulière du malade qui reposait, les yeux fermés”, escutava a respiração regular do doente, que descansava, “de” olhos fechados; “elle courut vers lui, les yeus brillants, sa bouche et ses joues éclairées du plus joyeux sourire”, correu para ele, “de” olhos brilhantes, “com” as faces e os lábios iluminados pelo mais jubiloso sorriso; “il passait, le front baissé, les yeus pleins de larmes”, ele passava “de” fronte baixa, “com” os olhos cheios de lágrimas; “Suzy l’écoutait le coeur battant”, Susana escutava-o “com” o coração palpitante”.»
Cont.
— Montexto

Anónimo disse...

3
«Se o não sabe ainda, ficará sabendo o leitor que não só em francês, senão também na nossa língua, podemos subentender a preposição “com”, contanto que daí se não causem anfibologias: “Fui dar com ele estendido no soalho, ‘o rosto’ num charco de sangue”, e que se nota ainda a omissão da preposição (“de”) noutros exemplos como estes: “D. Rosa da Silveira tinha vinte e um anos. Era alta, morena, ‘olhos’ grandes e pretos, ‘testa’ espaçosa, ‘nariz’ aquilino, ‘boca’ larga, ‘beiços’ quase austríacos, …” (António Augusto Teixeira de Vasconcelos, “O Prato de Arroz Doce”, p. 13, ed. do Porto, 1862). — “Luís pedia a primeira, que era morena, ‘olhos’ negros e vivos, alta e nervosa, altiva e risonha. Carlos pedia a segunda, que era alva, ‘olhos’ cismadores e estáticos, ‘compleição’ linfática, ‘estatura’ mediana, ‘ar’ melancólico e pudico, um certo quebranto que a poetas daria mais inspirações que a outra.” (Camilo, O Retrato de Ricardina, cap. I, p. 12).
*
Mas, com tanto bárbaro tão precisado da bordoada do discreto e homem de bem, e os nossos Botelho de Amaral e Rodrigues Lapa a escaramuçar entre si! Corta o coração, tanto golpe desviado do verdadeiro alvo. Por alguma coisa porém ficou proverbial aquilo de «grammatici certant…», e nem só os poetas são gente irritável (e, nas suas alturas, irritante).
— Montexto

Venâncio disse...

«Ela..., com os olhos na mãe postos», melhor, «Ela..., os olhos na mãe postos», melhor ainda, «Ela..., olhos na mãe postos».

Esta língua é o nosso orgulho.

Anónimo disse...

Sem dúvida. E onde a criatura foi maior que o criador.
— Montexto

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