Acordo Ortográfico

Fecha-se o cerco


      «O presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, quer que o Parlamento aplique o novo Acordo Ortográfico a partir de 1 de Janeiro de 2012. Jaime Gama propõe que se decida que “a Assembleia da República passará a aplicar a ortografia constante do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em todos os seus actos legislativos e não legislativos, bem como nas suas publicações oficiais e instrumentos de comunicação com o exterior”» («Acordo Ortográfico na Ar em 2012», Diário de Notícias, 1.12.2010, p. 12).
      No Assim Mesmo, provavelmente já noutra casa, também se aplicarão as novas regras ortográficas a partir dessa data. Para quem não ficar contente com a notícia, deixo as mesmas palavras noutra ordem. No Assim Mesmo, já noutra casa, provavelmente também se aplicarão as novas regras ortográficas a partir dessa data.

[Post 4147]

Símbolos

Cultura científica moribunda


      «Sem se aperceberem, os peões confiam no barulho que os carros tradicionais fazem para calcular a distância a que os mesmos estão. Principalmente os invisuais e os seus cães-guia. Logo, o barulho é essencial. Quando os veículos eléctricos e híbridos circulam a uma velocidade elevada ouvem-se bem pelos pneus e pela estrada. Mas quando a velocidade ronda os 50 kms a história é diferente e vão ser precisos aparelhos electrónicos nos novos carros que substituam o barulho» («O silêncio nem sempre é de ouro», Emma Forrest, Metro, 30.11.2010, p. 21).
      Este erro já passou por aqui. Como é que uma publicação com revisão apresenta erros tão básicos? Os símbolos não têm plural, cara Catarina Poderoso, revisora do Metro. Outros erros muitos comuns é kilómetro em vez de quilómetro; Kg em vez de kg; gr. em vez de g; mt. em vez de m; etc. Não passa muito pela imprensa, mas noutro tipo de publicações também se vê, por exemplo, sen α em vez de sin α e outras incorrecções.

[Post 4146]

«Pensar»

Camilo e o penso


      Já aqui fizemos o jogo. Então, digam-me lá: qual das duas frases acham que Camilo escreveu — a 1 ou a 2?
      1. «Ele pensava isto pouco mais ou menos; mas não respondeu assim.»
      2. «Ele pensava nisto pouco mais ou menos; mas não respondeu assim.»
      Claro que quem tiver à mão o 2.º volume das Novelas do Minho de Camilo Castelo Branco (estou a usar a edição com fixação do texto e nota preliminar pelo Prof. Dr. Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971) saberá a resposta.

[Post 4145]

Sobre «passagem»

E ele não sabia?


      «Examinei de novo o processo, e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novela em que, por felicidade do leitor e minha, não há filosofia nenhuma, que eu saiba» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 195).
      Na acepção de frase ou trecho de um texto ou obra literária, passagem é ou não é galicismo? Mas Camilo não enjeitou o vocábulo.

[Post 4144]

Cidade Maravilhosa

Fica agora a saber


      «O exército que invadiu o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, foi acompanhado na subida ao morro por um igualmente numeroso batalhão de repórteres seniores demasiado habituados à violência da cidade maravilhosa. Tem sido, no entanto, um grupo de “jornalistas” menores de idade que, a partir do interior da favela, tem conseguido parte dos exclusivos informativos que revela ao Mundo pelo Twitter» («Adolescentes do Complexo do Alemão vencem batalha das notícias no Twitter», Alfredo Leite, Jornal de Notícias, 29.10.2010, p. 3).
      Não, desta vez não é sobre os «repórteres seniores». Alfredo Leite não saberá, mas na redacção alguém deveria saber que os prosónimos se escrevem com maiúscula inicial.

[Post 4143]

Acordo Ortográfico

Todos os outros são falsos?


      «Natural do Porto, Helena da Rocha Pereira, 85 anos, está jubilada mas mantém uma intensa actividade. Trabalha 12 a 14 horas por dia. Ultimamente está empenhada na conclusão do Vocabulário da Língua Portuguesa da Academia de Ciências, o único instrumento que falta para o Acordo Ortográfico entrar definitivamente em vigor. Defensora das alterações à grafia, só reconhece um argumento a quem as contesta: “Compreendo que os escritores estranhem, particularmente os poetas que têm uma ligação muito próxima com a escrita.” Todos os outros são falsos» («No mundo dos clássicos», Paula Gonçalves, «Domingo»/Correio da Manhã, 22.11.2010, p. 44). Nesta entrevista, Maria Helena da Rocha Pereira defende ainda que as alterações são mínimas. «Uma das principais é a “perda das consoantes mudas, que não se ouvem”. Aquelas a que, já no século XVI, o autor da segunda gramática portuguesa tinha chamado ociosas, por achar que “não eram precisas”.»

[Post 4142]

«Casar»

O povo e Camilo


      Então, digam-me lá: qual das duas frases acham que Camilo escreveu — a 1 ou a 2?
      1. «— Não case contra vontade de seu pai... Tenha pena dele, que está tão acabadinho...»;
      2. «— Não se case contra vontade de seu pai... Tenha pena dele, que está tão acabadinho...»
      Claro que quem tiver à mão o 1.º volume das Novelas do Minho de Camilo Castelo Branco, e pode ser a edição que tenho vindo a citar (com fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971), saberá a resposta.

[Post 4141]

Pronúncia: «líderes»

Os nossos queridos lídrs


      Na emissão de ontem do novo programa de informação da RTP2, Hoje, Cecília Carmo disse: «A promessa foi feita por José Luis Zapatero perante os líderes de 37 maiores grupos empresários [sic] espanhóis, entre eles vários bancos que se terão comprometido com o Governo a completar até dia 24 de Dezembro um processo de consolidação financeira.» Adivinharam: é a pronúncia do vocábulo líderes, que para a jornalista é /lídrs/. Aqui sim, o emudecimento é evidente e contrário ao português. O e da última sílaba da palavra líder é aberto — no singular e no plural.
      O Governo, dizia o primeiro-ministro espanhol, comprometeu-se a continuar a fazer as reformas estruturais. A seguir y algo más..., prometeu vagamente. Nas legendas: «A continuar e ainda mais...» Como é timbre dos políticos, fez mais promessas: «A levarllas a la práctica con la máxima celeridad posible.» Na legenda: «A implementá-las, etc.»

[Post 4140]

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