Sobre «desprender-se»

E este?


      «Mas de todo o seu ser desprendia-se algo forte e impetuoso, algo audacioso e apaixonado» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1975, p. 58). E este desprender-se, isto é, lançar de si, emanar, exalar, não é, sem tirar nem pôr, o espanhol desprenderse? Echar de sí algo... E, contudo, talvez bem português.

[Post 4049]

Verbo haver

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Corta!


      José Manuel Rosendo entrevistou (numa cafetaria?!) o filósofo José Gil para a Antena 1. Eis um excerto mais antigramatical: «Quer dizer, a questão é de tal ordem, que nós vamos começar um mau ano 2011, com uma recessão que todos anunciam, depois haverão uma estagnação, haverão um aumento mínimo do crescimento económico, estagnante, e não se vê o fim. É sem fim à vista.» O mais intrigante (bem sei que se trata da oralidade) é que, mesmo que o verbo permitisse, nesta acepção, o seu uso no plural, o sujeito, neste caso, não o pedia.

[Post 4048]

Ortografia: «bioartificial»

Muito certo

      «Medicina Investigadores espanhóis apresentaram na terça-feira em Madrid um processo de criação de órgãos ditos bioartificiais a partir de células-mãe do doente, limitando assim para este último possíveis riscos de rejeição» («Células-mãe podem ser empregues na recriação de órgãos», Diário de Notícias, 4.11.2010, p. 27). Perfeito: bioartificiais está correcto. Bioastronáutica, bioastronomia, biolectricidade, bioengenharia, bioética, etc.

[Post 4047]

Ortografia: «grafitado»

Quase, quase


      «A sua mãe, a ama Luísa Carvalho — conhecida na zona como “tia Luísa” — deu explicações à progenitora da criança, mas a partir desse dia o “descanso acabou”. O prédio onde funciona a creche, na sobreloja, foi graffitado com palavras obscenas e cartazes colados em todo o lado. “Estou a ser linchado na praça pública”, diz» («Abuso de menor aconteceu “durante uma brincadeira”», Roberto Dores, Diário de Notícias, 4.11.2010, p. 21). Muito bem: está duplicada, ao menos isso, a consoante certa — mas não seria melhor grafitado?

[Post 4046]

Sobre «costa»

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É mesmo


      Que «costeiro» é relativo à costa sabemos todos nós e os dicionários ajudam-nos a confirmá-lo. Contudo, só no Dicionário Houaiss e no Aulete Digital ficamos a saber que costa também é, por extensão de sentido, a área que fica à margem de rio, lagoa, etc.

[Post 4045]

«De moto próprio»

Mote de ‘mot’


      Do editorial do Diário de Notícias de hoje: «Neste quadro, o que se tornou evidente ontem foi que o futuro político deste Governo está nas mãos de Teixeira dos Santos e da sua capacidade de atingir os objectivos a que se propôs, não só este ano, mas nos primeiros meses de 2011. Não foi só a oposição a dizê-lo, mesmo que o PSD o tenha deixado particularmente claro, afirmando que não haverá um terceiro acordo com Sócrates. Foi mesmo o primeiro-ministro quem resolveu, por mote próprio, assumir este Orçamento como integralmente seu, esperando colher sozinho os seus frutos» («Seis meses decisivos», Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 8).
      Em português, é de (ou por) moto próprio. Em latim, donde provém, é motu proprio — sem preposição! Ao contrário de outros, e também tenho o meu latinzinho, não me rala nada que se use a locução aportuguesada, e seria mesmo estulto, salvo melhor opinião, o contrário. De moto próprio significa espontaneamente; por iniciativa própria; por sua conta; sem conselho ou constrangimento alheio. (Agradeço ao leitor R. A. por me ter chamado a atenção para este erro.)

[Post 4044]

Sobre Coromandel

Sempre os Ingleses


      «Ou porque os chinas senhorearam muitas partes da Índia e as conquistaram nos tempos antigos, de que hoje em dia há algumas memórias, como na costa de Choromandel, que é na contracosta do reino de Narsinga, da banda donde chamamos São Tomé, por ali estar a casa fundada pelo apóstolo e as relíquias de seu corpo» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, pp. 79-80). Pois, agora dizemos Coromandel, mas veja-se o que escreve Rui Manuel Loureiro em nota de rodapé: «Embora mais tarde, por via inglesa, se tenha vulgarizado o topónimo Coromandel, quase todos os autores portugueses quinhentistas se referem a Choromandel, termo que restitui mais fielmente o original tamil Choromandala, a “terra dos Cholas”» (idem, ibidem, p. 79).

[Post 4043]

Arcaísmo: «tamalavez»

Perdeu-se


      Ledo, por mor de, quiçá, samicas, soer... entre outros arcaísmos fonéticos, morfológicos e sintácticos vão sendo usados, e mesmo registados em alguns dicionários, mas vejam este: «Sustentam-nos com arroz cozido envolto em uma gema de ovo, tamalavez sobre o seco, que se fiquem enganando, parecendo-lhe[s] bichinhos» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 145). Este advérbio já não aparece em nenhum dicionário. Vale por «algum tanto, alguma coisa, de algum modo». Em «A Visita das Fontes», Apólogo Dialogal Terceiro, de D. Francisco Manuel de Melo, também se lê este advérbio.

[Post 4042]

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