Sobre «jornada»

Porque será?


      «Hoje haverá novas manifestações contra o diploma um pouco por toda a França — é a sétima jornada nacional de contestação em dois meses no país» («Parlamento dá luz verde à polémica lei de Sarkozy», Pedro Correia, Diário de Notícias, 28.10.2010, p. 36).
      É impressão minha ou o vocábulo «jornada» apenas se usa neste âmbito e no futebolístico? Parece ter vindo do provençal. Em espanhol, é sinónimo perfeito de dia — e em português também, só que é raríssimo vê-lo usado nesta acepção. No caso, é, como o define o Dicionário Houaiss, o «dia assinalado por algum acontecimento ou circunstância notável».

[Post 4025]

Ortografia: «ascensão»

Dormição


   «Em 1954, quase uma década após o final da guerra, Fujita, já na altura um nome em ascenção no design norte-americano, foi contratado pela Columbia, como substituto precisamente de Alex Steinweiss» («O criador do logotipo para a saga ‘O Padrinho’», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 28.10.2010, p. 53).
      Ascensão, caro Alexandre Elias. O s, neste vocábulo, é etimológico. Há um certo número de factos que precisamos de saber de cor. Este erro já passou por aqui. (Em Maio, celebra-se a Ascensão do Senhor. Em Agosto, as Igrejas orientais celebram a Dormição de Maria, a que corresponde, nas Igrejas latinas, a Solenidade da Assunção de Maria.)

[Post 4024]

Selecção vocabular

Imagem tirada daqui

Coisa das arábias?


      O Diário de Notícias («Elegância oriental na corte inglesa em visita de Estado», Márcia Gurgel, p. 65) diz que Sheikha Mozah Bint Nasser Al-Missned, a terceira mulher do emir do Qatar, foi «condecorada Dama do Império Britânico». Não devia, pergunto, dizer-se «nomeada Dama do Império Britânico»? Ou mesmo «agraciada com o título, etc.»?

[Post 4023]

Ortografia: «franciú»

Não sei se será


      Vi citado em vários sítios o texto de Manuel Maria Carrilho publicado ontem no Diário de Notícias, em que refere que o peso da língua no PIB é de 17 % no caso português. É desse artigo este excerto: «Exemplo que devia ser seguido por todos os responsáveis políticos da CPLP nas suas acções internacionais públicas, cortando com o gesto de submissão política que é andar pelo mundo a falar “portunhol”, “françiú” ou “bad english”, assim acabando por estropiar anos de esforçado trabalho pela afirmação internacional da língua portuguesa» («A missa lusófona», Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias, 28.10.2010, p. 67). Talvez seja gralha, sim, mas nesse caso ninguém deu conta dela. Para um português, saber que antes de i e e não se pode usar cê-cedilha está tão interiorizado como, por exemplo, num espanhol saber que nenhuma palavra da língua de Cervantes tem dois ss.

[Post 4022]

Tradução: «principal»

Nobres e principais


      «Holgó de hacerlo así el asistente, y, de allí a ocho días, acompañado de los más principales de la ciudad, se halló en ellas» — Cervantes. «E todos os principais dos lugares o saíam a receber com grandes festas e honras, concorrendo todos os povos a ver a nova vitória» — Fr. Gaspar da Cruz. Os principais são as pessoas importantes ou influentes de determinada localidade ou país. Principales é quase sempre traduzido por «nobres», mas, como se vê, escusadamente. Faço notar que Cervantes e Fr. Gaspar da Cruz são autores coevos. (O Flip 7 sugere que escreva «é autor coevo», isto porque o segmento depois do ponto de abreviatura em Fr. é lido como uma frase completa...)

[Post 4021]

Léxico: «tribunício»

Nova


      «Este especialista [Carlos Jalali] em sistemas políticos e professor da Universidade de Aveiro explica que “o Presidente da República tem poderes constitucionais vários, entre eles poderes tribunícios”. Ora, segundo o mesmo investigador, “os poderes não podem mudar, mas ele é livre de usar os poderes tribunícios, de fazer intervenções, colocar temas na agenda, influenciar os agentes políticos”» («Politólogos não sabem o que é “magistratura activa”», São José Almeida, Público, 28.10.2010, p. 16).
      Tribunício: referente a tribunado ou a tribuna. É termo que desconhecia.

[Post 4020]

«Sair do armário»

Becas abichana-se


      «Os rumores já vinham de há vários anos e as pistas eram mais do que muitas, mas só agora se começou a falar sem rodeios na provável homossexualidade do Becas, da série televisiva Rua Sésamo. Tudo porque ele fez um comentário no Twitter dizendo que o seu cabelo era semelhante ao da estrela de um outro programa mas mais mo, um termo que em calão quer dizer homossexual. O porta-voz da Rua Sésamo não fez comentários, mas o que se diz por aí — a começar pelo jornal Independent — é que o Becas saiu do armário depois de 31 anos» («Becas saiu do armário ao fim de 31 anos?», «P2»/Público, 27.10.2010, p. 15).
      Só gostaria de saber quantas pessoas percebem, em Portugal, o significado desta expressão de origem norte-americana.

[Post 4019]

«Trabalhar que nem um negro»

Caladinho


      A imprensa francesa pergunta: «Dérapage verbale ou préjugé raciste?» O eco da polémica chegou ao Público: «Foram no mínimo pouco felizes as palavras do empresário Jean-Paul Guerlain que, numa entrevista ao canal público France 2, se queixou de ter “trabalhado como um negro” para desenvolver o último perfume da marca. As declarações levaram à realização de manifestações nas ruas de Paris no fim-de-semana e estão na origem de um abaixo-assinado defendendo o boicote aos produtos de Guerlain. Até a ministra francesa da Economia, Christine Lagarde, veio a público dizer que as palavras do empresário eram “patéticas”. Para serenar os ânimos, Guerlain retractou-se, dizendo que aquilo que tinha dito não reflectia a sua forma de pensar. Uma explicação em que nem todos acreditam, até porque esta não é a primeira vez que aquele que é um dos homens mais ricos de França diz algo polémico. Em 2002, quando confrontado com uma denúncia de trabalho clandestino nas suas plantações na colónia francesa de Mayotte, a sua resposta também gerou grande polémica: “Toda a gente sabe que aqui a mão-de-obra clandestina é um mal endémico.” Não admira portanto que as suas mais recentes declarações tenham sido recebidas com vivas acusações de racismo. Também o grupo LVMH, ao qual Guerlain permanece vinculado como conselheiro de tendências olfactivas, fez questão de se demarcar das afirmações no centro de toda esta polémica, dizendo que sempre condenou energicamente “todas as formas de racismo”» («Boicote. Acusações de racismo abalam Guerlain», «P2»/Público, 27.10.2010, p. 15). Depois dos ciganos, os negros. Claro que é ridículo falar-se de racismo neste caso.

[Post 4018]

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