Aprendizagem

De pequenino


      «Mas há um outro desafio, o da passagem da perspectiva do utilizador para a do criador, do produtor de nova informação. Só assim poderá haver utilidade social e valor acrescentado. A informação, por si só, não passa de uma matéria-prima. Acrescentar-lhe valor implica processá-la e torná-la socialmente reconhecida. Como lá chegar através da educação? Começando, desde os primeiros anos de escolaridade, com as coisas mais simples: a leitura, análise e interpretação de textos, por exemplo, ou da prática de análise de fontes históricas, das operações mais simples de raciocínio lógico associados aos primeiros exercícios de estatística ou ao hábito de medida, registo, leitura e interpretação de observações de fenómenos quotidianos (temperatura do ar, humidade, tensão arterial, entre tantos outros exemplos possíveis)» (Difícil É Educá-los, David Justino. Revisão de Helder Guégués. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010, pp. 96–97). O ensaio deste ex-ministro da Educação (2002–2004) pode comprar-se por 3,15 euros em qualquer loja Pingo Doce, por exemplo. E vale a pena lê-lo.


[Post 4017]

Acordo Ortográfico

EspeCtador


      A crónica de Rui Tavares na edição de hoje do Público anda quase toda à volta das novas regras ortográficas: «Escrever é agora para mim um exercício de ouvido. O cérebro procura lembrar-se de como a língua pronuncia aquela palavra, tenta ouvi-la dentro da cabeça, para depois a poder escrever. Eu digo aquele “c” em espectador e aquele “p” em conceptual? Se sim, escrevo-o [o autor escreveu antes ambas as palavras com a consoante muda]. Se não, omito-o. “Nocturno” tornou-se “noturno” por um “c” que na pronúncia se extinguiu há muito tempo atrás. Se tenho saudades de “nocturno”? Sim. Mas gosto já de “noturno”. Nocturno é soturno; noturno é sensual; e gosto mais ainda de “noiturno”, uma palavra que talvez nunca tenha existido, nem sei se existirá um dia» («Noturno», Rui Tavares, Público, 27.10.2010, p. 39). O cronista, acossado por um jornal antiacordo, lamenta-se: «O PÚBLICO decidiu acrescentar mais uma linha ao final destas crónicas. Já viram o tamanho daquele penduricalho? Tem lá a minha vocação, a profissão, o cargo, como lá cheguei, em que condições, a ortografia que uso e porquê. Uff. Cada vez mais coisas, como os contratos de letra miudinha. Um dia crescerá, crescerá, e eu próprio desaparecerei.» Eis o penduricalho: «Historiador. Deputado independente ao Parlamento Europeu pelo BE (http://twitter.com/ruitavares); a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico.» A ortografia que usa está lá, já o porquê não o descortino.

[Post 4016]

«Tempo recorde»

Pecha hodierna


      «Foi um apoio “inequívoco” declarado em tempo-recorde. Mal terminou a cerimónia de anúncio da recandidatura de Cavaco Silva a Belém, a Comissão Permanente do PSD declarou o seu apoio ao ex-primeiro-ministro para um segundo mandato» («PSD deu apoio em tempo-recorde», Nuno Simas com agência Lusa, Público, 27.10.2010, p. 3). Claro que já aqui abordei esta questão, mas ainda não chegou ao conhecimento dos jornalistas e dos copidesques do Público. «Recorde» também é adjectivo, esqueçam o maldito hífen.

[Post 4015]

Infinitivo substantivado

Conventos e mosteiros


      A substantivação dos infinitivos é uma marca da nossa língua que alguns ignorantes evitam e corrigem(!). «Verdade é que comummente o comer da Índia, que é arroz, se come em pilões pilado, ainda depois que não tem casca, mas as bocas têm-nas todos como a demais gente do mundo» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 104). E este, especificamente, não será mais usado no Alentejo? Bem, Fr. Gaspar da Cruz «terá nascido em Évora, em ano que não se consegue apurar, e também em data incerta foi admitido no convento de Azeitão da Ordem dos Pregadores» (idem, ibidem, p. 12). Mas as fontes que consultei afirmam que se trata de mosteiro: Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade de Azeitão.

[Post 4014]

Sobre «Foão»

Impõe-se a pergunta


      Até onde foi a «modernização do texto»? Não chegou aqui: «Quando alguma pessoa se quer mudar de uma casa e rua para outra, ou quer ir para outra terra a viver, tangem uma bacia pela rua com um pregão que diz que ‘Foão se vai daquela rua, se há alguma pessoa a que[m] deva alguma coisa que venha a ele antes que se vá, para que não perca o seu.’» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 202). Na época em que Fr. Gaspar da Cruz escrevia, era assim que se dizia o que hoje em dia dizemos «Fulano». Autores coevos também grafavam «Fuão» e «Fulão». O étimo é, segundo Miguel Nimer (Influências Orientais na Língua Portuguesa. São Paulo: Edusp, 2.ª ed., 2005, p. 73) o árabe clássico fulān. (Como saberão, o Acordo Ortográfico de 1990 também veio meter aqui o bedelho, mandando grafar com minúscula inicial «fulano», «sicrano» e «beltrano», deixando, assim, de se distinguir entre substantivo comum e substituto de antropónimo, como na citação de Fr. Gaspar da Cruz.)

[Post 4013]

Ortografia: «bainha»

Tais como


      Por exemplo, neste caso: Fr. Gaspar da Cruz escreve que «há alguns chinas que criam unhas muito compridas, de meio palmo até palmo, as quais trazem muito limpas, e estas unhas lhe[s] servem em lugar dos paus para comer». Rui Manuel Loureiro anota: «Muitos chineses cultos e abastados deixavam crescer as unhas, que eram protegidas por baínhas de prata, como sinal evidente de que não necessitavam de exercer ofício manual. Contudo, a interpretação de Fr. Gaspar parece algo fantasista, tanto mais que não encontra abonação documental na época» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 166). A obra não teve revisor (a propósito, hoje comemora-se em Espanha o Día del Corrector), e por isso ninguém sabia que as palavras graves cujo i tónico não forma ditongo com a vogal anterior e seguido de nh não levam acento.

[Post 4012]

«Competitividade/competição»

Acham?


      Rute Moreira, licenciada em Matemáticas Aplicadas, concebeu um novo projecto pedagógico, «Tabuada». Em entrevista à Antena 1, ontem, falou num «espírito de competitividade saudável». É uma confusão comum. Competitividade é a qualidade de competitivo; competição é a disputa entre adversários pelo mesmo lugar, resultado, prémio ou vantagem. Ainda acham que é «espírito de competitividade»?

[Post 4011]

Sobre «campa»

Era assim


      «Quase todas as cidades estão fundadas ao longo de rios. Nos rios que não são muito altos e impetuosos têm estas cidades para serviço pelo rio pontes de pedra mui nobres e mui bem lavradas, e não vão os pegões feitos em arcos se não depois de bem fundos e postos em boa altura. São cingidos uns com outros por cima de mui grandes e mui grossas campas» (Tratado das Coisas da China, Fr. Gaspar da Cruz. Introdução, modernização do texto e notas de Rui Manuel Loureiro. Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 124). Embora, actualmente, os dicionários apenas registem que campa é a laje sepulcral e, por extensão de sentido, a própria sepultura, a verdade é que no tempo do nosso dominicano Fr. Gaspar da Cruz, no século XVI, campas eram simplesmente lajes, e, em nota, Rui Manuel Loureiro dá conta do significado.


[Post 4010]

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