Acordo Ortográfico

Efectivamente


      Nunca sabemos muito bem (e quem lá trabalha também não) se os cronistas do Público estão a seguir as novas regras ortográficas se não. Quer dizer, os que o fazem. A crónica de Rui Tavares deu um sinal: «Durante o Verão, Pedro Passos Coelho começou a parecer-se com o tipo que ganhou o Euromilhões mas não teve tempo para levantar o prémio» («Outonal», Rui Tavares, Público, 13.10.2010, p. 36). «Pronto», pensei, «já desistiu.» Não, não: mais lá para o meio saiu um «diretas», um «diretamente», «efetivamente». Não seria mais sensato apreender bem as novas regras e só depois aplicá-las?

[Post 3969]

Ignorância

E está esgotado


      A Editorial do Ministério da Educação (sim, existe) publicou um livrinho, A Bandeira e o Hino — Símbolos de Portugal, da autoria de Ana Maria Marques e Isabel Alçada, e a publicidade assegura que «é um instrumento de trabalho educativo que permite ficar a conhecer os símbolos de Portugal». Conhecer, sim, mas mal: o músico e editor José Sacramento viu que essa partitura está errada, pelo que se deu ao trabalho de a copiar e fazer um ficheiro áudio do que lá está escrito. É o novo hino. Uma coisa é certa: é muito menos belicoso. Até nos remete para as paisagens oxigenadas do Nepal.

[Post 3968]

«Vice», palavra plena

Tarefa terminada


      Não insisto mais, parece que já aprenderam: «A procuradora-geral adjunta Isabel São Marcos aceitou substituir Pinto Monteiro durante a sua ausência por motivos de doença, atendendo à inexistência de um vice-procurador para dirigir a procuradoria. Mas não deverá ser o nome daquela magistrada que Pinto Monteiro vai apresentar ao Conselho Superior do Ministério Público (CSMP) para ocupar definitivamente o lugar de vice» («Substituta de Pinto Monteiro não deverá ser nova vice», Paula Torres de Carvalho, Público, 13.10.2010, p. 12).

[Post 3967]

Recursos

Para que saibam


      Não queria pompear os meus vastíssimos conhecimentos do que se faz em relação ao estudo e divulgação da língua portuguesa — mas tem de ser, para vosso bem. Ainda aqui não falei do Consultório Linguístico da Antena 1, com a participação de Aníbal Pedra, da Sociedade da Língua Portuguesa, que vale a pena ouvir.

[Post 3966]

Lacunas

O que faz cachimbos


      Na última página do Jornal de Notícias de ontem podia ler-se uma reportagem sobre o único (mas não acredito que seja o único) artesão português, João Reis, a fazer cachimbos. Teve de ir para a Dinamarca aprender com o mestre Kai Nielsen e depois estabelecer-se lá, pois em Portugal não havia equipamento. Chega a produzir 120 cachimbos por ano, que vende a um preço entre 550 e 3000 euros. Tem encomendas para seis meses. Ora bem, como se chama uma pessoa que faz cachimbos? Ahn... Não tem nome. É um artesão. Ao passo que os fumadores são cachimbadores, cachimbistas ou cachimbeiros (mesmo que os dicionários, deficientes, registem tão-somente a primeira). O mundo é injusto.

[Post 3965]

«Cota/quota»

Isto também não é normal


      Quota e cota. Não são vocábulos completamente intermutáveis. Se há quem (nanja eu) prefira pagar as «cotas» do condomínio, seria bom que ninguém quisesse usar «quota» para se referir à diferença de nível entre qualquer ponto e aquele que se toma para referência. Seria, mas com os jornalistas, que até põem o presidente da República a «dissolver» o Governo, tudo é possível: «As pontes foram construídas a uma quota inferior à que se encontra na “Ponte Praça” e os moliceiros e mercantéis que são utilizadores [sic] por privados nos passeios turísticos da ria circulam com as proas serradas como forma de poderem navegar naquele canal urbano» («Pontes de canal vão ser mais altas», Jesus Zing, Jornal de Notícias, 12.10.2010, p. 27). O Dicionário Houaiss, porém, fá-los sinónimos nestas acepções. A tradição, senhores, a tradição manda o contrário. E digo-te mais, Houaiss: não sabes o que é um mercantel.

[Post 3964]

Sobre «líder»

Isto não é normal


      Talvez o leitor ainda não tenha dado por isso, distraído com outras magnas questões, mas a palavra «líder» está a meter o bedelho onde nunca, raios a partam!, foi chamada. Agora já se diz e escreve, imagine-se!, o «líder da Câmara de Sintra», o «líder da PGR», o «líder da AG do Sporting», e expressões quejandas. Só no primeiro caderno do Público de hoje, foi usada 13 vezes. Se considerarmos vocábulos da mesma família, incluindo o verbo, o número ascende quase a três dezenas. Agora só falta ver Miguel Esteves Cardoso a escrever que comprou umas inigualáveis tângeras, clementinas, romãs e castanhas ao líder das bancas do mercado de Colares. Algum hortelão mais vivaço.

[Post 3963]

«Bauxite/bauxita»

Um desastre nunca vem só


      «No desastre ambiental, mais de 700 mil metros cúbicos de uma lama tóxica com óxido de alumínio, composto por bauxita e utilizado no fabrico de alumínio, contaminaram casas, plantações e chegaram ao rio Danúbio» («Presidente da empresa que vazou lamas tóxicas detido», Jornal de Notícias, 12.10.2010, p. 53).
      Desde que isto aconteceu, já li em vários jornais bauxita. Contudo, os dicionários da língua portuguesa publicados em Portugal que consultei só registam bauxite. Bem, se a designação do mineral vem do topónimo Les Baux, uma povoação de Bouches-du-Rhône, França, onde foi descoberto, e se acrescenta o sufixo –ite, frequente em nomes de substâncias naturais ou artificiais, então prefiro bauxite.

[Post 3962]

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