Sobre «varrasco»

Lexicografia e zootecnia


      «Quase metade dos porcos nascidos em Portugal são filhos de varrascos (machos para reprodução) do “maior centro” de inseminação em suínos do País, instalado em Santiago do Cacém, que produz “350 mil doses anuais” para inseminar as fêmeas» («Metade dos porcos nacionais foi criada através da inseminação artificial», Diário de Notícias, 31.5.2010, p. 14).
      Quando consultamos o respectivo verbete no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o primeiro obstáculo, comum a todos os dicionários que consultei, é tratar-se de um verbete cego, um verbete remissivo: remete para «varrão». O segundo obstáculo, para muitos leitores, é a definição obrigar a consultar outro verbete: «Porco inteiro para reprodução.» O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por seu lado, tem uma definição clara: «porco não castrado próprio para a reprodução, varrasco». E o Dicionário Houaiss, finalmente: «porco escolhido para ser o reprodutor e, por isso, poupado de sofrer castração; barrão, varrasco».

[Post 3561]

Verbos trocados

Colocar, meter, pôr...


      Ainda hoje o leitor Fernando Ferreira deixava o seguinte comentário a um texto meu sobre a espúria substituição do verbo pôr pelo verbo meter: «Sobre o uso indevido do verbo “meter”, aqui vai mais um exemplo, publicado hoje (7/6/2010) na edição on-line do jornal Expresso: “A tentativa serviu para gerar um movimento a favor do casamento de pessoas do mesmo sexo: “Graças a Deus, correu bem, porque metemos toda a gente a mexer”, conta, orgulhosa.”» Um exemplo, este ilustrativo da troca do verbo pôr pelo verbo colocar, do Diário de Notícias: «Para combater a obesidade infantil e mudar mentalidades, o Hospital de São João e a Faculdade de Desporto do Porto (FADEUP) têm em vigor, desde 1998, um projecto que procura colocar pais e crianças a praticar exercício físico» («São João e Faculdade de Desporto “colocam as crianças a mexer”», Helder Robalo, Diário de Notícias, 31.5.2010, p. 14). O jornalista cita no título, mas não no segmento atrás, alguém, que identifica. Devia, porém, ter corrigido, expungindo o modismo.

[Post 3560]

Nome de doenças

É assim


      Já aqui referi várias vezes o erro que consiste em grafar com maiúscula inicial o nome de doenças. Há jornais mais atreitos, como o Correio da Manhã, mas tenho-o visto em todo o tipo de texto. Há também, contudo, exemplos correctos: «Há apenas 11 centros de reabilitação respiratória para as mais de cem mil pessoas que sofrem de doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) em Portugal, alertou a Associação Respira, que apela ao alargamento destes serviços a mais unidades hospitalares» («Centros de reabilitação são insuficientes», Diário de Notícias, 31.5.2010, p. 13).

[Post 3559]

Léxico: «sobrevida»

Se encontrarem o verbete...


      ... devolvam-no, pois, estranhamente, nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa o registam. «À semelhança deste grupo específico [doentes com cancro do pulmão], também os restantes doentes têm visto a sua expectativa de vida aumentar. “A sobrevida dos doentes com cancro do pulmão tem vindo a aumentar não só em quantidade como em qualidade”, refere o oncologista António Araújo» («Remédio permite viver o dobro com cancro», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 31.5.2010, p. 13).
      Encontramos o vocábulo, com três acepções, no Dicionário Houaiss: «prolongamento da vida além de certo limite; prolongamento da existência além da morte, vida futura; lembrança que permanece da vida de alguém, de algum acontecimento etc.»

[Post 3558]

Selecção vocabular

Buracos


      «Tenho visto», escreve-me o leitor Fernando Ferreira, «cada vez com maior frequência, a palavra “cratera” ser usada em vez de “buraco”. Um exemplo recente é este: “Uma cratera gigante está a chamar as atenções para a cidade da Guatemala. O buraco gigante surgiu após a passagem da tempestade tropical Agatha, a primeira da estação ciclónica.” Gostaria de saber se o Helder considera apropriado o uso desta palavra no contexto citado.»
      No texto integral, é usado mais o termo «buraco» do que «cratera», mas este é usado no título, julgo que para denotar mais dramatismo. A imprensa anglo-saxónica limita-se a descrevê-lo como um hole, no máximo huge hole ou sinkhole. Quanto à propriedade do uso do vocábulo, porque é essa a pergunta do leitor. Bem, tirando o sentido do próprio étimo, cratera começou por ser somente a abertura por onde saem as matérias expelidas pelos vulcões em actividade. Por extensão de sentido, é também a «abertura no solo produzida pelo rebentamento de um projéctil, bomba ou carga explosiva» (como regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas não o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Nenhum destes dois dicionários regista, porém, a acepção «grande buraco», usada no artigo do Expresso, que apenas vejo no Dicionário Houaiss. No contexto, eu evitaria usá-la.
      De resto, a capital da Guatemala é Cidade da Guatemala e não cidade da Guatemala.

[Post 3557]

Selecção vocabular

Juge de paix et greffier


      «Aconteceu em plena audiência de um Julgado de Paz em Bruxelas. Um homem entrou na sala e sentou-se, aparentemente calmo. Quando a audiência estava a terminar, aproximou-se do oficial de justiça e agrediu-o com um objecto contundente, matando-o. Depois, sacou de uma arma e disparou mortalmente contra a juíza, Isabelle Brandon, pondo-se em fuga» («Matou juíza a tiro durante audiência», Sabrina Hassanali, Correio da Manhã, 4.06.2010, p. 39).
      Para quê as maiúsculas se o tribunal está indeterminado? E se fosse outro tribunal? O Jornal de Notícias titulou: «Assassino assistiu à audiência antes de matar juíza num tribunal belga». Este jornal também não usa a locução «oficial de justiça», mas «funcionário judicial». Se consultarmos um dicionário francês, greffier, a palavra usada na imprensa de língua francesa, é traduzido por «escrivão». (Contudo, só na carreira judicial é que vamos encontrar as categorias de escrivão auxiliar, escrivão-adjunto e escrivão de direito, e os julgados de paz são tribunais extrajudiciais.) Ora, a correspondência com os julgados de paz portugueses não é perfeita, pois os nossos não têm quadro de pessoal. Assim, não há nem oficiais nem funcionários judiciais.

[Post 3556]

Sobre «flotilha»

No mar


      «Bulent Yildrim, um dos organizadores da flotilha, admitiu que alguns militares foram desarmados, mas diz que as armas foram lançadas ao mar» («“Comemos uma vez em três dias”», F. J. Gonçalves, Correio da Manhã, 4.6.2010, p. 38).
      A acepção do vocábulo flotilha aqui usada — pequena frota — é, de longe, a menos frequente em português, o que me leva a crer na influência do vocábulo espanhol flotilla, até porque a bordo havia espanhóis e um jornalista venezuelano. É curioso ver como a imprensa internacional de língua inglesa também usou o termo flotilla, embora muito menos do que fleet (aid fleet, escrevem muitos jornais). Em espanhol, flotilla tem somente uma acepção: frota composta de pequenas embarcações.

[Post 3555]

Léxico: «mesoscala»

Verbete não encontrado


      «— Mas — disse Harvey — não pretendo ampliar o meu trabalho pessoal. Eu sou apenas uma pequena peça. Lido apenas com eventos de mesoscala; estou sobretudo especializado em casos de ventos locais» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 24).
      Nenhum dos dicionários gerais da língua regista «mesoscala». Segundo o Dicionário de Meteorologia do Centro Estadual de Meteorologia da Bahia (CEMBA), é a escala de fenómenos meteorológicos que variam em tamanho de alguns quilómetros até 100 km, aproximadamente, o que inclui as rajadas de vento, especialidade do psicótico Harvey. Este dicionário grafa *meso-escala, mas só vejo duas variantes correctas: mesoscala e mesoescala. O antepositivo mes(o)- nunca se liga por hífen ao elemento seguinte. Em inglês é mesoscale.

[Post 3554]

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