Definição de «casamento»

Só eles


      «Os dicionários da Porto Editora já não fazem qualquer referência a homem ou mulher na definição de casamento, que descrevem como um “contrato civil celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família em conjunto”. Os dicionários do grupo Leya, nomeadamente os da Texto Editores, “já estarão adaptados na próxima edição”, disse fonte do grupo» («Cada escola decide como vai explicar casamento ‘gay’», Pedro Sousa Tavares e Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 19.5.2010, p. 14).
      Só dicionários de pouca qualidade como o Houaiss continuarão a definir casamento como a «união voluntária de um homem e uma mulher, nas condições sancionadas pelo direito, de modo que se estabeleça uma família legítima», o que relevará inevitavelmente da própria mentalidade retrógrada dos Brasileiros...
      Tanto por onde melhorarem, tantas lacunas e más definições e contradições, mas os dicionários gostam de estar na crista da onda nestes aspectos.

[Post 3493]

«Torácico»/«toráxico»

Nova anatomia


      «Os outros dois casos eram de rotina: uma broncoscopia de diagnóstico na sequência da inalação de um amendoim e a inserção de um dreno toráxico para eliminar um abcesso» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 103).
      E se os médicos apenas souberem fazer drenos torácicos? O doente morre? Já aqui vimos a questão.

[Post 3492]

Tradução: «hall»

Prefiro o de saída


      Já aqui falei do meu ódio de estimação pelo anglicismo hall. Felizmente, vimo-lo no mesmo texto, alguns tradutores optam por traduzi-lo por «vestíbulo» ou «átrio». Esqueci-me então de referir algo ainda mais odioso: dizer e escrever «hall de entrada». Apetece perguntar onde está o de saída. Vejam agora esta infeliz sequência: «Vernon, que partia do princípio de que George estava a representar o papel de grande senhor da imprensa a convocar o seu director, absteve-se de pedir desculpa ou sequer de responder e seguiu o seu anfitrião através de um átrio bem iluminado até à sala de estar» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998. p. 60). «Enquanto a água aquecia, atravessou o estreito hall de entrada do apartamento, que dava acesso ao seu escritório, e arrumou a pasta, fazendo uma pausa a fim de deitar mais uma olhadela às suas notas» (idem, ibidem, pp. 103-4). «Lá em baixo, no átrio de entrada, deteve-se junto da porta da rua com a mão na fechadura, preparando-se para a abrir e correr até ao carro» (idem, ibidem, p. 107). «Enquanto atravessava, em passo apressado, o vestíbulo de mármore preto e amarelo-claro, viu Dibben à espera junto do elevador» (idem, ibidem, p. 116). Fosgluten talvez faça bem a isto.
      «Hall: sala de entrada de casa, andar ou edifício, geralmente com portas que comunicam com outras divisões; átrio, vestíbulo» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

[Post 3491]

Tradução: «injunction»

Ainda assim


      Vernon, director do jornal The Judge, recebeu uma injunction para não publicar fotografias comprometedoras de um político. «Era precisamente o tipo de história que atraía Clive, mas este não mostrou curiosidade pelas fotografias e pela injunção e parecia não estar a ouvir com muita atenção» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 57).
      Sim, literalmente, injunction pode traduzir-se por «injunção». Em todo o caso — e apesar de só nos últimos tempos se ter tornado uma figura legal conhecida, mormente devido à tentativa de impedir que o semanário Sol publicasse escutas obtidas do processo «Face Oculta» —, o tradutor devia ter optado por «providência cautelar».

[Post 3490]

«Deixar-se de fitas»

Películas no século XVII


      Quando apareceu a expressão «deixar-se de fitas»? Terá sido ao mesmo tempo de «fazer fitas». Sim, mas quando? Bem, só poderá ter sido depois do advento do cinema, pois «fita» é, em ambos os casos, sinónimo de «filme». «Fita», nesta acepção, regista o Dicionário Houaiss, é uma extensão de sentido e significa «acção ou dito que visa iludir, enganar ou impressionar; manha, fingimento».
      Agora imagine, se o salto não for violento, D. Teodósio de Bragança (1634–1653), filho de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão, dizer à irmã Joana (1635–1653): «— Deixa-te de fitas, Joana. O peixe foi ter com a família dele.» Os meninos estavam a brincar junto de um tanque de pedra no Paço de Vila Viçosa, e o primogénito tinha acabado de lançar para a água um peixinho vermelho que antes apanhara para dar à irmã. A ama das crianças — a séculos de aparecer o Facebook, a moçoila pouco mais tinha com que se entreter — conversava com um moço de cavalariça. É um anacronismo, claro que sim, só estranho é que ninguém tenha pensado no caso. E um anacronismo é grave, mata a obra? Se estamos perante um romance histórico, fere-a. Na ficha técnica (Catarina de Bragança, Isabel Stilwell. Lisboa: A Esfera dos Livros, 5.ª ed., 2008), vejo que a pesquisa histórica esteve a cargo de Joana Troni e a revisão de texto a cargo de Eurico Monchique e Alexandra Pereira.

[Post 3489]

Pronúncia: «efémero»

No que tange à pronúncia


      Por vezes, escassas vezes, vejo a rubrica Bom Português, na RTP1. A última emissão que vi era sobre o acento da palavra «efémero». A locutora pronunciou sempre a palavra, fenómeno bem analisado por Fernando Venâncio e quase sempre evitado por outros estudiosos, porque a pronúncia é um tema próximo do tabu, com o e inicial átono a soar como e fechado: ê. Êfémero, disse ela sempre. E se isto um dia vai tudo parar à grafia? Não foi assim fenómeno tão raro a adaptação da grafia à pronúncia. Só um exemplo: irmão, que vem do latim, e depois de vários fenómenos fonéticos, germanu, deveria, por respeito à etimologia, escrever-se «ermão», mas a influência da pronúncia do e átono inicial como i foi decisiva. «Um disparate ênorme», diz o leitor? Veja bem o que diz.

[Post 3488]

Ortografia: «soçobrar»

Soçobrou


      É verdade: o fonema s pode ser representado por várias letras ou combinações de letras (c, ç, s, ss, sc, sç, xc, xs, x). Se não sabemos de cor, temos de usar, não há alternativa, o dicionário. Sobretudo um revisor não pode confiar absolutamente na memória ou na competência do tradutor ou autor. «No que dizia respeito à velha guarda. Os “puristas”, o The Judge iria aguentar-se ou sossobrar pela sua probidade intelectual» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 41). Se se tratasse mesmo da 3.ª edição, era impossível o erro continuar a enodoar o texto. Aliás, numa reedição deveria ser sempre outro revisor a ver a obra.


[Post 3487]

«Radiador/irradiador»

Ouço bem


      «Antes de despir o casaco, pouso a caixa de livros e a minha mochila na grande mesa de carvalho da cozinha, ligo os candeeiros e depois arrasto o irradiador eléctrico do quarto pelo vestíbulo e ligo-o à tomada, vendo as duas barras de metal corarem debilmente (e, parece-me sempre, apologeticamente)» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, pp. 22-23). «Clive entrou em casa e permaneceu na entrada, absorvendo o calor dos radiadores e o silêncio» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 26).
      Radiador ou irradiador? Muitos falantes têm a mesma dúvida. Em 2008, um consulente fez a pergunta ao Ciberdúvidas. O último parágrafo da resposta do consultor A. Tavares Louro é este: «No uso corrente, usamos a palavra radiador para os dispositivos de arrfecimento [sic] dos motores, e a palavra irradiador para os aparelhos de permitem aquecer o ambiente.»
      Reparo muito bem na forma como as pessoas falam, e não é isto que dizem, não senhor. Usam, isso sim, o termo «radiador» para designar os dois dispositivos. Numa actualização não datada, referem que um engenheiro e professor de Física Termodinâmica, Jorge Martins, enviara a seguinte achega: «Radiador (ou irradiador) refere-se à transferência de calor por radiação, um dos três modos que existem (radiação, convecção e condução). Na verdade, os radiadores dos automóveis deveriam chamar-se “convectores”, pois perdem calor por convecção, tal como os “radiadores” domésticos, embora nestes a transferência de calor por radiação possa ser significativa. Já o termo “pavimento radiante” está correcto, pois neste caso o que se pretende é melhorar o conforto térmico pelo controlo da radiação pessoa-envolvente. Por outro lado, não é habitual usar-se o termo “irradiação”, mas sim radiação, pelo que o vocábulo irradiador não se deveria usar.»
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se regista «irradiador», não deixa de acolher estas duas acepções do vocábulo «radiador»: «dispositivo destinado a provocar o resfriamento de motores» e «aparelho electrodoméstico destinado ao aquecimento do ambiente interno de edifícios».

[Post 3486]

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