Léxico: «bocete»


No tecto


      O leitor M. A. pergunta-me como se designa o ornamento, semelhante a uma tacha, que se usa nas intersecções dos artesões (plural de «artesão» na acepção de lavor emoldurado nas abóbadas, tectos, etc.), como os que se vêem na imagem. São bocetes, cujo étimo será o francês bossette. E a propósito, caro leitor, diga e escreva artesoado (guarnecido com artesões) e não artesonado, que é espanholismo escusado.

«Boa-vontade»?

A febre

«O estudo das aves depende da boa-vontade dos 150 voluntários da SPEA, pois “nestes cinco anos não houve qualquer financiamento estatal”» («Ave do ano em risco de extinção por causa da agricultura», Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 12.04.2009, p. 66). Cada vez vejo com mais frequência o uso do hífen nesta expressão.
Esta mania do hífen que se apossou de muitos falantes não tem ainda cobertura nos principais dicionários, que não registam a expressão com hífen. O mais próximo é a forma aglutinada «boavontade» no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, mas foi mais uma das distracções deste dicionarista, pois na entrada do vocábulo «vontade» regista «boa vontade». «Boavontade, s. f. Disposição favorável para qualquer pessoa ou coisa» (p. 363).

Aportuguesamentos

Primeiro estranha-se

      Sim, é verdade: em vez de atelier podemos optar por «estúdio, loja, oficina»; em vez de robot podemos escrever «autómato»; em vez de complot, podemos usar «conspiração». Para capot e tricot, não temos correspondente. Contudo, a generalidade dos falantes prefere usar os empréstimos, ultimamente aportuguesados. Assim, ao lado daqueles, temos ateliê, robô, capô, complô, tricô. O jornal Expresso, que aderiu a estes aportuguesamentos, não vai, porém, mais longe do que o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa. No Expresso não se lê, por exemplo, «balé», aportuguesamento já registado de ballet, como também não se lê «gurmê», aportuguesamento não registado de gourmet. «Casei-me aos 24 anos e durante dez anos só dancei e dei aulas de ballet. […] Há 10 anos não havia lojas gourmet e o galo de Barcelos era piroso» («Defensora da terra», Alexandra Simões de Abreu, revista Única, 14.03.2009, p. 12).

«Provocante» e «provocador»

XXX

Quem é que nunca se pergunta, no momento em que escreve ou lê, se existe alguma diferença entre «provocante» e «provocador»? A consulta dos corpora de português comprovam, e suponho que é esta a ideia partilhada pela maioria dos falantes, um predomínio do uso do adjectivo «provocante» em contextos com uma conotação vagamente sexual ou erótica. Fala-se de requebros, pose, minissaia, decote, andar, sorriso, voz, olhar provocantes. Sempre da mulher. E fala-se de anúncios, filmes, livros, linguagem, títulos provocantes. Mas também se vêem sorrisos e comportamentos provocadores, mostrando-se intermutável. Mas há locuções fixas, como agente provocador. «Provocante», é claro, é só adjectivo. Veja-se esta frase de Fernando Venâncio, um prosador exímio e provoca…: «O livro [Com os Holandeses, publicado agora pela Quetzal] de Rentes (hoje com 14 edições, uma delas de bolso) tinha a tradução impecável do lusitanista August Willemsen e vinha revelar um prosador exímio e provocante» («Um meridional nos Países Baixos», Fernando Venâncio, Actual, 18.04.2009, p. 18).

Léxico: «waterboarding»

Simulações

      «Segundo o diário The Washington Post, a agência elaborou um documento que enviou ao Pentágono no qual as técnicas “duras” de interrogatório, como waterboarding ou simulação de afogamento, são consideradas tortura» («Agência militar norte-americana alertou contra o suo de tortura nos interrogatórios», Isabel Gorjão Santos, Público, 26.04.2009, p. 17). É palavra que está na ordem do dia. Para os jornalistas, parece que «simulação de afogamento» não chega para explicar.
      E já que falei de tortura, no feriado vi uns minutos do programa Praça da Alegria. A propósito da criminalidade juvenil, Jorge Gabriel perguntava aos seus convidados, entre os quais reconheci o médico-legista José Pinto da Costa e a eurodeputada Edite Estrela: «Exige-se outra observância destes casos?» O mesmo Jorge Gabriel que garante no seu sítio pessoal: «Antes de adormecer tenho que viajar para outro universo. Só consigo fazê-lo depois de ler um livro.» Que falta de imaginação…

Conceito de «tarde»

É quando o homem quiser

Diz-se do Natal. Mas há quem julgue que pode dizer o mesmo da tarde. Assiste-se muitas vezes a esta situação: no estúdio, da rádio ou da televisão, um jornalista diz «bom dia», e o repórter responde energicamente «boa tarde». E isto passa-se, digamos, no noticiário das 13 horas. Até já ouvi, em conversa pessoal, um jornalista ignorante explicar como se afere se é de manhã ou de tarde. Dizia esta bestiaga que, se a pessoa já tivesse almoçado, era de tarde… Isto é que é um conceito, ninguém errava. A tarde, deviam todos saber, é o período de tempo que vai do meio-dia ao crepúsculo vespertino.

Léxico: «dálita»

Já contribuí

      «Para muitos dálitas (ex-intocáveis, termo banido pela Constituição), ela [Mayawati] é o símbolo do maan sammaam, ou respeito — respeito que séculos de rígida hierarquização social não fizeram cair sobre os que estão na base da pirâmide» («A Rainha dos Intocáveis está pronta para mais um sismo», Francisca Gorjão Henriques, Público, 26.04.2009, p. 16). Vai-se vendo tanto em traduções como na imprensa. E já aqui tinha dado conta do seu uso.

Sigla TAC

É ver-se

      Digam lá o que disserem, o certo é que, pelo menos nas traduções, o que vou vendo é que se atribui o género feminino à sigla TAC (Tomografia Axial Computadorizada): «Para saber isso, preciso, além dessas ressonâncias magnéticas que trouxe, de uma TAC, para termos uma imagem do crânio assim como da situação do cérebro» (Património, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão tipográfica de Eulália Pyrrait. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª ed., 2008, p. 120). «Levaram-me para me fazerem uma TAC ao cérebro» (O Dia em Que a Minha Vida Mudou, Jill Bolte Taylor. Tradução de Alice Rocha. Lisboa: Editorial Presença, 2008, p. 75).

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