Léxico: «navalha do tipo “borboleta”»

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No fio da navalha



      «O caso está em apreciação no Tribunal da Relação de Lisboa (TRL). Na primeira instância, Bruno foi condenado, entre outros crimes, por detenção de arma proibida. Uma navalha tipo “borboleta” que lhe foi apreendida» («Tamanho da lâmina de uma navalha conta», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 26.12.2008, p. 11).
      A discordância em casos semelhantes centra-se no facto de o Ministério Público entender que esta arma tem disfarce, ou seja, um mecanismo, borboleta, que permite a ocultação da lâmina no seu corpo, de modo a não ser reconhecida por terceiros como arma branca quando está fechada, à semelhança da navalha de ponta-e-mola, ao passo que a defesa nega que a borboleta configure um disfarce. Há também quem entenda que não se trata de uma navalha, mas sim de uma faca.

«Conta-quilómetros» e «celerímetro»


Mas então?...


      «Fonte próxima do processo disse ao DN que o ponteiro do conta-quilómetros estava partido, devido à violência da colisão, admitindo as autoridades que o carro circulasse a uma velocidade perto dos 240, o que ajuda a explicar que a viatura entrasse desgovernada na berma da estrada onde andou ao longo de cem metros e se tivesse partido ao meio, antes de se incendiar, ficando irreconhecível» («Condutor ia a 220 km/hora mas não tinha álcool», Robert Dores, Diário de Notícias, 6.01.2009, p. 21). Não é raro os falantes confundirem conta-quilómetros com celerímetro, mas lamentável que um jornalista o faça. Isto pensava eu, até ter lido no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Conta-quilómetros nome masculino 2 números aparelho que indica a velocidade e o número de quilómetros percorridos por um veículo (De contar+quilómetro).» Mas afinal o instrumento que serve para determinar a velocidade de um veículo não é o celerímetro (speedometer em inglês)? Não se tratará de mais uma cedência dos dicionaristas aos erros do senso comum?

Léxico: «mazute»

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Grandes distraídos…


«O Governo ucraniano deu ontem indicações para que o gás natural comece a ser substituído pelo mazout (óleo) no aquecimento» («Leste da Europa a tremer de frio sem o gás russo», Susana Salvador, Diário de Notícias, 7.01.2009, p. 25). Muito interessante — mas a palavra já corre por aí aportuguesada: mazute. É uma palavra russa, mas ter-nos-á chegado através do francês mazout. É um produto petrolífero líquido, de cor negra e de aspecto viscoso, resíduo da destilação fraccionada do petróleo bruto.

«Escalamento» e «escalonamento»

Assim não sobem




      «O outro jovem que com ele seguia e que acabou detido, Michel Mendes, tinha 19 anos e igualmente um vasto currículo criminal — já tinha sido detido em Março por furto no interior de um automóvel, e, em Abril, por furto em residência por escalonamento» («Família garante que o jovem não tinha armas», Licínio Lima, Diário de Notícias, 7.01.2009, p. 23). Era de toda a conveniência que os jornalistas de vez em quando consultassem um dicionário da língua portuguesa. Escalonamento é a disposição em degraus, a distribuição por níveis, graduação ou a organização segundo um dado critério, agrupamento. Escalamento, por sua vez, é o acto ou efeito de subir ou trepar, escalada. Entre os próprios verbos, escalar e escalonar, também já tenho visto grandes confusões. Claro que, tratando-se muitas vezes de gangues, bem podem operar por escalonamento…

Conjunção subordinativa final

A golpes de gládio


      Na obra que citei no texto anterior, escreve Fernando Cabral Martins: «O primeiro verso saiu na 1.ª edição, lição que é recebida na edição crítica de José Augusto Seabra, assim: “Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça”. Segundo a mesma edição crítica, este “porque” teria uma “função de conjunção final” (28). O facto é que só pode ter essa função se tiver a forma disjunta “por que”. Isto mesmo leu David Mourão-Ferreira, que escreve o verso desse modo — aqui seguido. No espólio, há um dactiloscrito (121-2) em que o verso tem esta mesma forma» (pp. 98-99). Celso Cunha e Lindley Cintra não sancionam a crítica do autor, pois entre as conjunções e as locuções conjuncionais subordinativas finais enumeram: para que, a fim de que, porque (Nova Gramática do Português Contemporâneo. 3.ª ed., 1986, p. 582). Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa. 37.ª ed. Rio de Janeiro, 2002, p. 328) diz precisamente o mesmo.


Apóstrofo

Apóstrofo inútil


      E, a propósito de apóstrofo, um poema da Mensagem, de Fernando Pessoa, tem por título «Nunálvares Pereira». Pelo menos numa edição que aqui tenho, da Assírio & Alvim (Lisboa, 3.ª ed., 2002), da responsabilidade de Fernando Cabral Martins, que, em nota final, esclarece: «O título do único poema aqui incluído é transcrito sem modificação pela edição crítica [Mensagem. Poemas Esotéricos, edição coordenada por José Augusto Seabra. Madrid, Colecção Archivos, CSIC, 1993], mas sofre na edição de David Mourão-Ferreira uma alteração de “Nunalvares» para “Nun’Álvares”[,] o que parece consistir apenas numa actualização ortográfica. No entanto, a grafia do nome tem uma dupla tradição, que remonta às primeiras edições impressas da Crónica do Condestável, no século XVI: ou com os dois nomes separados (por exemplo, “Nuno Alvarez”) ou juntos (por exemplo, “Nunalvrez”). Em Herculano, o nome é escrito também dos dois modos, “Nunalvares” e “Nuno Alvares”, nas primeiras edições de Lendas e Narrativas e de O Monge de Cister, por exemplo. Talvez tenha sido em Herculano que Pessoa leu esta possibilidade de grafia do nome — que torna a utilização do apóstrofo inútil» (pp. 99-100).

«Portfólio», «portefólio»


Um ezinho mais…

«Assim, até 28 deste mês, os candidatos podem inscrever-se através do site www.olhares.com/concursos/fhm e enviar o seu portfólio, que poderá incluir entre sete e 15 fotografias, todas subordinadas ao tema da moda e glamour» («Olhares.pt procura quem fotografe capa da ‘FHM’», Paula Brito, Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 54). Um pouco mais de sol — eu era brasa… Não, não é isso. Um ezinho mais, e parecia português de lei. Na notícia acima, do pouco cuidadoso diário económico Oje, é portefólio que se usou.

Neologismo «referenciação»

Talvez faça falta

«Agora, com os critérios de Bolonha, as teses são significativamente encurtadas, seguindo uma filosofia mais anglo-saxónica, privilegiando-se mais a inovação do que a referenciação bibliográfica» («Teses de doutoramento à venda por 50 mil euros», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 5). O neologismo referenciação até pode não estar ainda registado em todos os dicionários, mais ei-lo aí, assim como o primo, georreferenciação. De qualquer modo, o verbo referenciar está dicionarizado e é usado. Como se usa a locução referência bibliográfica (série de indicações que possibilitam a identificação de um livro, texto, artigo, etc.), tratou-se de inventar uma forma de referir o acto de fazer essa referência. Nasceu assim — por influência do inglês referral, como alguns sugerem? — o termo referenciação.

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