«País das Pampas»

Em pleno processo

      «Na despedida, o mago, agora seleccionador do país das pampas, foi entrevistado pelo Benfica TV» («Diego diz que Di María marcou golo à Maradona», Bruno Pires, Diário de Notícias/DN Sport, 16.01.2009, p. 4). Já uma vez pude assistir ao raciocínio de um revisor, graças ao facto de ele, sentindo-se observado, ir falando em voz alta, que se deparou com a locução País das Pampas. Que não podia ser com maiúsculas, começou por dizer. Depois consultou o termo «pampa» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Encontrou o que era de esperar: «designação dada à estepe de gramíneas, que se estende pela vasta e uniforme planície de terra amarela da Argentina, de que ocupa a parte média, e que constitui zona de boas pastagens, em parte já agricultada». Só pode ser com minúsculas, concluiu, ufanoso e equivocado. País das Pampas é um prosónimo, conceito que já aqui expliquei três vezes, e por isso grafa-se com maiúsculas iniciais.

Sobre «oleão»

Podia ser

Em Junho de 2004, descobriram-se quase por acaso sepulturas colectivas no edifício da Academia das Ciências, instalada desde 1836 no Convento de Nossa Senhora de Jesus, da Ordem Terceira de S. Francisco. O estudo do achado feito até hoje permite afirmar que naquela época se recorreu ao canibalismo. Nos restos, até uma beata apareceu: «Botões de osso, fragmentos de vestuário da época, uma beata de cigarro de enrolar e até uma vértebra de cobra-rateira, capaz de crescer até dois metros de comprimento, foram encontrados nas sepulturas colectivas» («Testemunhos», texto de apoio ao texto «O sismo de 1755 contado pelos ossos das vítimas», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 29). Este texto podia ser sobre estes erros: «Mas uma improvável soma de coincidências ditou que o primeiro ossoário conhecido de vítimas do terramoto surgisse na Academia de Ciências […].» Mas não. É certo que se escreve ossário ou ossuário*, mas chamou-me a atenção a beata. Recentemente, alguém me perguntou aqui como se devia grafar o termo que designa o recipiente para conter óleo alimentar para reciclagem: óleão ou oleão? Uns dias depois, vi este texto: «As beatas à porta do café do bairro são a sua preocupação recente. “Deviam criar o beatão pois as pessoas fumam na rua e sujam tudo”» («Tutor encarregado de manter o bairro limpo», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 15.02.2009, p. 56). A criatividade linguística apoia-se aqui em termos semelhantes, como pilhão e vidrão, por exemplo, já registados nos dicionários gerais da língua. O primeiro a surgir foi vidrão e logo por analogia se construiu um paradigma de unidades linguísticas parafraseáveis por «recipiente de recolha de n para reciclagem», como beatão, embalão, livrão, metalão, oleão, papelão, rolhão… Ao oleão também se dá o nome quase impronunciável de ecoóleo.

* «
Eu tenho visto a pedra, desprendida/Da montanha, levar meia floresta/Na carreira — e não há-de esse granito/Colossal, que é o Povo, despregado/Por mãos do tempo, com trabalho imenso,/Ao rolar no declive da história/Esmagar, ao correr, os troncos secos/E o mirrado ossuário do passado?» («Secol’ si rinnuova», Odes Modernas, Antero de Quental).
«A presença de jazigos e um “columbarium” (conjunto de ossuários) atesta o uso da inumação e da incineração» (Guia Bíblico e Cultural da Terra Santa, João Duarte Lourenço. Revisão de Maria José Rodrigues. Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, 2008, p. 126).

Actualização em 7.08.2009

«Os óleos alimentares usados para cozinhar vão passar a ser colocados no oleão, uma espécie de ecoponto que as autarquias terão de disponibilizar na via pública» («Óleo de fritar doméstico terá de ser posto no oleão», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 6.08.2009, p. 16).

MBA, “master”, mestrado

MBA, LL.M, blá-blá-blá...


      «Natalie, que completou recentemente um bacharelato em Estudos da Mulher, pretende agora iniciar um master em Casamento e Terapia Familiar, segundo o site Daily Beast» («Virgindade de Natalie já vale três milhões», Patrícias Viegas, Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 27). Na Universidade Aberta e na Universidade Nova de Lisboa há mestrados em Estudos sobre as Mulheres. Já quanto ao master… Qual ao certo a diferença entre master e mestrado? O primeiro é um vocábulo inglês e o segundo, português, isso é certíssimo. Ou seja, fosse a estudante portuguesa, Natália, e o que ela seria era titular de um mestrado em Casamento e Terapia Familiar. E quanto a MBA e mestrado? Bem, o MBA (master business admnistration) tem características próprias e um cariz muito mais prático e aplicado, ao contrário da maioria dos mestrados, que são essencialmente teóricos, mas, sobretudo — sobretudo, repito — é um nome de fantasia, pois o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior nunca usa a sigla MBA ou o seu desdobramento, master business admnistration. Trata-se, isso sim, de um curso de pós-graduação, não conferente de um título académico, como previnem algumas instituições de ensino superior. Ao lado do MBA para áreas como Gestão de Empresas, há também os LLM (ou LL.M) para a área jurídica, sigla do latim legum magister, mestre em Leis.

Léxico: «bongo»


O bom sabor da selva

Já tinham visto esta imagem do campeão olímpico Michael Phelps a pôr a boca num tubo de ensaio? Claro que não é um tubo de ensaio, anjinhos. De fóruns de discussão a artigos científicos, portugueses, em todo o lado vejo que se designa por bongo esta espécie de tubo de ensaio utilizado como cachimbo para fumar canábis. É o aportuguesamento do termo inglês bong, que por sua vez pode ter vindo do tailandês baung. É provável que tenham sido os veteranos da Guerra do Vietname a levarem o termo e o objecto para os Estados Unidos, ainda na década de 1960. Automedicação para o stress pós-traumático de guerra, dizem eles.
«O nadador e campeão olímpico norte-americano Michael Phelps apareceu ontem na capa do jornal britânico News of the World a fumar um bongo, ou seja, um cachimbo de água usado para fumar e inalar cannabis» («O bongo», Diário de Notícias, 2.02.2009, p. 7).

Uso do apóstrofo

A métrica do erro


      Freire d’Andrade? Mera adesão à obra de Sttau Monteiro. No entanto, é tão legítimo usar neste caso o apóstrofo como em Victorino D’Almeida. A verdade, porém, é que só o uso do apóstrofo nas ligações de duas formas nominais quando é necessário indicar que na primeira se elimina um o final está previsto no texto dos acordos ortográficos: Nun’Álvares, Pedr’Eanes. Em certos compostos, também se usa este sinal diacrítico para assinalar a eliminação do e da preposição de, em combinação com substantivos como borda-d’água, cobra-d’água, copo-d’água, estrela-d’alva, galinha-d’água, mãe-d’água, pau-d’água, pau-d’alho, pau-d’arco, pau-d’óleo. Recentemente, tudo o que se refere a Barack Obama é notícia, como a escolha da raça do cão para as filhas do presidente dos Estados Unidos da América: «O “melhor amigo” de Sasha e Malia, filhas de Barack Obama, já está escolhido: vai mesmo ser um cão-d’água português» («Cão da Casa Branca descende do canil de Conchita Cintrón», Rui Pedro Antunes, Diário de Notícias, 27.02.2009, p. 32). Os Brasileiros usam (e abusam) muito mais o apóstrofo do que nós, que, todavia, usamos incorrectamente «p’lo» em correspondência de carácter formal, como se tal elisão se justificasse.

Apodos

Hipocrisias

      No drama Felizmente Há Luar, António de Sousa Falcão, amigo do general Gomes Freire d’Andrade, diz a Matilde de Melo, mulher do general: «D. Miguel [Forjaz, do Conselho de Regência] é um cristão de domingo, Matilde» (Porto: Areal Editores, 2003, Acto I, p. 117). O que me fez lembrar a alcunha alentejana comunista de Inverno, de que falei aqui. Trata-se do mesmo: referir, de forma jocosa, a falsa adesão a princípios, a hipocrisia de quem se diz comunista ou cristão apenas para interesse próprio.

Vírgula depois de reticências

Eu faço e você explica

Suponham agora que um autor escrevia esta frase: «Embora tenha sempre compreendido a necessidade da disciplina, foram muitas as vezes em que discuti as ordens..., mas eu não constituía um perigo sério.» Suponham também que o autor implicava, após a revisão do texto, com a vírgula depois das reticências e queria que o revisor justificasse a correcção da mesma. Absurdo, não é? No fundo, o código da escrita não é muito diferente do código da estrada: o que não é proibido é permitido. Consultei a Academia Brasileira de Letras, que me respondeu: «Se a vírgula fizer parte do texto ao final das reticências, deve ser mantida. Nessa frase, deve ser mantida por estar antes da conjunção adversativa mas

Substantivos sigmáticos

E se eles não sabem?...



      «Marguerite, a baronesa de Reuter, a última sobrevivente da família que fundou a agência internacional de notícias Reuters, faleceu ontem, aos 96 anos, num lar de idosos francês na fronteira com o Mónaco. Mecena das artes, Marguerite era viúva de Oliver, quarto barão de Reuter, cujo avô Paul Julius Reuter fundou a agência» («Baronesa de Reuter morre em França», Diário de Notícias, 26.01.2009, p. 56).
      Pode ser gralha, sim, mas quem sabe? O substantivo assinalado é sigmático, isto é, termina em s, como lápis, pires, ténis. Conceito diferente dos pluralia tantum, de que já aqui falei uma vez, que são palavras usadas apenas no plural, como afazeres, algemas, alvíssaras, anais, antolhos, armas (brasão), arras, arredores, avós (antepassados), belas-artes, belas-letras, calças, calendas, cãs, cócegas, confins, costas, endoenças, esponsais, exéquias, férias, fezes, hemorróidas, idos, maiores (antepassados), matinas, núpcias, óculos, olheiras, parabéns, penates, pêsames, primícias, suíças, trevas, vísceras, víveres… Como também há os singularia tantum, palavras usadas apenas no singular, como sucede com as palavras que expressam ciências e artes (arquitectura, pintura), os nomes dos minerais (ouro, prata), o nome de produtos animais ou vegetais (leite, manteiga), o nome das virtudes ou vícios (caridade, malvadez), o nome de substâncias inorgânicas (azoto, oxigénio), os nomes abstractos (brancura, nobreza), alguns colectivos (prole, plebe), etc.


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