Personagem

Mentes criminosas

Entrando na mente do criminoso… Então, se percebo, cara Luísa Pinto, essas criaturas aceitam escrever a personagem se a personagem é do sexo feminino. Se se tratar de uma pessoa do sexo masculino, de um cocheiro, por exemplo, já não aceitam que seja outra coisa a não ser o personagem. É isso? Até tremo, de tanto riso. (Mas também, oh diabo, 12.38, pode ser da fome.)

Revisão

Entendam-se

A propósito de Diário de Notícias. Neste jornal ainda andam em negociações para saber se devem escrever «blog» ou «blogue». Escreviam ontem: «Saramago iniciou participação em ‘blog’» (Diário de Notícias, 16.09.2008, p. 48). Há dois anos, contudo, optavam por escrever: «Em carta ao executivo, os subscritores, aos quais se associam também a Associação Lisboa Verde e o blogue Sétima Colina, apelam a que o perfil romântico ainda relativamente intocado do Príncipe Real seja mantido e que, a ser dado um uso hoteleiro ao Palacete Ribeiro da Cunha, dentro do conceito de unidade de charme, ele se desenvolva num modelo polinucleado» («Contestada a conversão em hotel de palacete do Príncipe Real», Maria João Pinto, 31.05.2006, p. 38). E não foi apenas uma vez, pois: «A deliberação está já a ser alvo de críticas. No blogue Dizpositivo, o juiz Paulo Ramos de Faria (o mesmo que exigiu o estudo sobre as férias ao ministro da Justiça) equipara esta situação à dos deputados, em relação a quem, em tempos, se ponderou também a obrigatoriedade de apresentarem relatório das suas missões no estrangeiro» («CSM vigia deslocações dos juízes ao estrangeiro», Inês David Bastos, 31.05.2006, p. 48).
Como noutros jornais, o problema decorre ou da falta de diálogo entre os revisores ou da ausência de directivas das chefias. No caso, compreendia muito mais facilmente se tivessem começado por escrever «blog» e agora tivessem optado por «blogue».

Discurso político

Português político


      João Miguel Tavares analisou, no Diário de Notícias de ontem, o discurso de rentrée de Manuela Ferreira Leite na Universidade de Verão do PSD. Eis um excerto do artigo: «Infelizmente, o discurso padece logo de uma doença grave: está escrito com os pés. Não sei se é por os speech writers estarem de férias ou por as eleições americanas aumentarem a exigência, a verdade é que estive para enviar uma mensagem a Ferreira Leite com o meu número de telemóvel. Eu não percebo muito de política, mas acho que podia contribuir modestamente para lhe endireitar o português» («Manuela Ferreira Leite e o ‘copyright’ de 2006», João Miguel Tavares, Diário de Notícias, 16.09.2008, p. 9).
      O jornalista exemplifica depois com vários lugares-comuns e algumas expressões ambíguas, nada (e ele próprio o escreve) que destoe do discurso político a que estamos habituados. Infelizmente. Ora, se é verdade que é preciso saber ler um texto (e eu que já fui speech writer, para usar a expressão inglesa, bem sei que alguns políticos não sabem fazer as pausas, as inflexões de voz requeridas, não sabem dar a ênfase que ideámos para o texto), a verdade é que no caso temos acesso ao próprio texto, e é a qualidade deste que está longe de ser boa. E quem quer governar o País, os Portugueses, deve começar por governar o discurso.

Verbo haver


Alma Mater?

No institucionalíssimo sítio da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, podemos ler o seguinte: «1) Avaliação Contínua — um mínimo de 75% de presenças Avaliação Contínua está disponível para turmas com 25 alunos ou menos. Haverão vários testes nas aulas e trabalhos de casa. É obrigatório o estudo do livro da gramática do curso, que será testado regularmente. Os alunos devem manter uma Ficha Pessoal de Vocabulário, avaliado oportunamente. Cada aluno fará um pequeno trabalho escrita [sic], a pesquisa, apresentação e discussão do qual fazem parte da avaliação oral.»
O destaque é meu, ao menos isso. Não haverá ali uma cabeça minimamente pensante que veja a enormidade e a corrija? Ou este é também o fado de Coimbra?

Ortografia: «Skeeper»

Imagem de Skeeper de pulso


Marca registada



      «Os skeepers são aparelhos que os idosos usam ao pescoço e lhes permite [sic], em caso de se sentirem mal, carregar num botão para pedir ajuda, sendo que o mecanismo faz uma espécie de chamada para determinados números de telefone» («Cavaco dá prémio a obra de Alegre», Diário de Notícias, 9.09.2008, p. 18). A maior parte da imprensa, porém, grafa «Skeepers», e vai no caminho certo. Mais correctamente, é SKeeper, que é uma marca registada. Como aconteceu com algumas outras invenções, a designação comercial pode vir a tornar-se nome comum, e então sim, skeeper.


Galicismo?

Imagem: in Jornal de Negócios, 9.09.2008, p. 2.

Claro está


Se rejeitássemos tudo o que nos veio do francês, do inglês, do espanhol, do italiano, se nos ocorresse essa infeliz ideia, o que nos sobrava? Sim, «bem entendido» parece vir do francês (e se for mera coincidência?), mas está bem formado e não desdoura quem fala português, salvo melhor opinião. Sim, eu sei o que diz Rodrigo de Sá Nogueira. E a Marina sabe que a Academia Brasileira de Letras, para não ir mais longe, embora tenhamos de atravessar o Atlântico, considera que «bem entendido» não vem do francês? Ah, não sabia…
«Ele, que é velho, gosta de se fazer ainda mais velho, acentuando as maleitas, as recordações fugazes e, bem entendido, as deliciosas idiossincrasias oitocentistas» («À moda antiga», Pedro Mexia em recensão à obra Os Males da Existência ― Crónicas de um Reaccionário Minhoto, de António Sousa Homem, Público/Ípsilon, 25.07.2008, p. 35).

Actualização em 24.10.2009

Acabo de ler: «Isso não impediu, como excepção que confirma a regra, que um escritor consagrado como Miguel Torga tivesse sistematicamente (e em Portugal, bem entendido) optado por editar, com sucesso, as suas próprias obras» (O Conhecimento da Literatura. Introdução aos Estudos Literários, Carlos Reis. Coimbra: Almedina, 2.ª ed., 2008, p. 68).

Recursos

Nova ortografia

Da autoria do professor brasileiro Douglas Tufano, a Editora Melhoramentos disponibiliza o Guia Prático da Nova Ortografia, que pode descarregar aqui. Embora mais útil aos Brasileiros, não deixa de nos interessar.

Greve e «lock-out»

Nem agora

Em alguns jornais, a confusão entre motoristas e camionistas, entre greve e paralisação continua a fazer estragos. Até no Jornal Económico, publicação em que, quanto a estas matérias, se devia ter mais cuidado, se lê: «Aquele que foi o principal instigador da greve de camionistas [Silvino Lopes] que no início de Junho lançou o quase-pânico em Portugal não tem dúvidas, o regresso à greve “é normal que aconteça”» («Camionistas admitem voltar à greve», Filipe Paiva Cardoso, Jornal de Negócios, 9.09.2008, p. 40). Ao longo de todo o texto, ora se fala em «greve», ora em «paralisação». Ora em «camionistas», ora em «motoristas». Em que ficamos? Como é que os camionistas — quase sempre identificados como os donos dos camiões e não como os seus condutores —, entidades empregadoras, fazem greve, querem explicar-me? O artigo citado diz ainda que «alguns motoristas envolvidos no protesto decidiram lançar uma nova associação, a Associação Nacional das Transportadoras Portuguesas (ANTP)». O equivalente, digamos, a os revisores lançarem uma associação de editores…
O artigo 605.º do Código do Trabalho proíbe o lock-out, definindo-o como «qualquer decisão unilateral do empregador que se traduza na paralisação total ou parcial da empresa ou na interdição do acesso aos locais de trabalho a alguns ou à totalidade dos trabalhadores e, ainda, na recusa em fornecer trabalho, condições e instrumentos de trabalho que determine ou possa determinar a paralisação de todos ou alguns sectores da empresa ou desde que, em qualquer caso, vise atingir finalidades alheias à normal actividade da empresa».
A obrigação de saber isto impende sobre o jornalista e o editor, não sobre o revisor, naturalmente. Alguém tem de saber. Nem que seja a mulher da limpeza.

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