Léxico contrastivo: «pidão»

Pides e pidões


      «Ágeis, travessos e com cara de pidões, os micos viraram febre na cidade. Basta estar próximo a um aglomerado de árvores que rapidamente é possível escutar os assobios dos primatas. Mas, apesar do jeitinho doce, que rouba sorrisos e afeto de crianças e adultos, os animais estão deixando especialistas da área preocupados. O Rio testemunha uma proliferação desses macaquinhos e o desequilíbrio ambiental já é uma realidade na cidade» («Micos, a diversão que está virando problema», Janaína Linhares, Jornal do Brasil, 21.3.2008, p. A15). Quanto a micos, deixei que os leitores percebessem o que é — mas pidões? Mais: «com cara de pidões»? Na rua dos meus pais morava um pide, um agente da PIDE. Por muito que me custe admiti-lo, não tinha uma cara patibular, antes uma cara aparvalhada. Dizia-se que, além do que se lhe pedia, uns tabefes, umas torturas, também tinha violado uma rapariga quando estava de serviço num posto fronteiriço. Teve de fugir no 25 de Abril, mas uns tempos depois já tinha um emprego. Um prémio pelo zelo. Mas sim, não me esqueço: pidão. É aquele que pede muito.

Acordo Ortográfico

É um argumento

«O ministro da Cultura disse ontem que o Acordo Ortográfico é uma “necessidade para a expansão da língua Portuguesa”, sustentando no Parlamento que as reformas anteriores “não destruíram a criatividade e a liberdade de escrita”. José António Pinto Ribeiro respondia a perguntas dos deputados da Comissão de Ética, Sociedade e Cultura sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa alcançado em 1991 e ratificado pelo Brasil, Cabo Verde e São Tomé» («‘É uma necessidade para a expansão da língua Portuguesa’», Global/JN, 20.3.2008, p. 6).

«Soundbite»

Língua mordida


      É quase uma praga. Toda a gente agora quer usar a palavra soundbite numa frase qualquer. «São famosas as metáforas de Lula da Silva. Frases jocosas, lapsos, gafes. Ou simplesmente metáforas. Desde a celebérrima “só nos falta encontrar o ‘ponto G’ da discussão” até ao “estuda, meu filho, se não ainda vai virar Presidente”, Lula demonstra ter tendência para o sound byte, conscientemente ou não» («Aforismos», Nuno Amaral, Sexta, 14.3.2008, p. 11). Mas — pergunto-me e pergunto aos leitores — isso não é, ao mesmo tempo, uma mordidela no inglês e no português? É que nos dicionários de língua inglesa só vejo registado, como substantivo, «sound bite» ou «soundbite». Luís Paixão Martins, no seu blogue Lugares Comuns, define-a: «Chamei “mordidelas silenciosas” à secção de citações deste blogue em jeito de trocadilho com a palavra “soundbite”. Como o blogue é por natureza silencioso, aqui os “bites” não produzem som. “Soundbite” é uma palavra relativamente antiga que tem a ver com a rádio. Quer dizer, literalmente, mordidela (ou dentada) sonora e designa uma frase curta e com impacto retirada do contexto. “Houston, we have a problem”, da missão Apolo XIII, é um “soundbite” ainda hoje frequentemente repetido. No mundo actual, quase tudo anda à volta dos bits e dos bytes, mas “soundbite” não…»
      No portal da American Bar Association (que vale a pena explorar, sobretudo nesta secção), encontro esta definição: «Soundbite: A short but complete and emphatic statement that is most likely to be incorporated into a news broadcast.»

Ortografia: «Lhasa» ou «Lassa»?

Costumes lassos

A capital do Tibete é Lhasa ou Lassa? E o que estabelece o novo Acordo Ortográfico sobre a matéria? Ambas as formas se podem encontrar na imprensa portuguesa. Dois exemplos: «Perante estas declarações, o primeiro-ministro chinês não só acusou o Nobel da Paz de potenciar os confrontos em Lhasa, como ainda referiu que o propósito seria “evitar a realização dos Jogos Olímpicos de Pequim”» («Dalai Lama pode abdicar contra violência no Tibete», Margarida Caseiro, Meia Hora, 18.3.2008, p. 6). «Há quase duas décadas que Lassa, a capital do Tibete, não assistia a protestos com a dimensão dos verificados esta semana» («Protestos antichineses põem Lassa a ferro e fogo», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 15.3.2008, p. 15).
Por uma vez, a redacção é inteligente: «Recomenda-se que os topónimos/topônimos de línguas estrangeiras se substituam, tanto quanto possível, por formas vernáculas, quando estas sejam antigas e ainda vivas em português ou quando entrem, ou possam entrar, no uso corrente» (artigo 6.º da Base I). Abre-se a porta não apenas à tradição (e nem toda a tradição, lembrem-se, é respeitável), mas à adaptação consensualmente aceite. Assim, a tradição pode começar todos os dias. Prefiro a grafia Lassa.

Actualização em 28.3.2008

No Jornal de Notícias grafa-se, respeitando a ortografia vigente, como está registada no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves, Lassa: «Os jornalistas estrangeiros escoltados pelo Governo chinês até Lassa descreveram a capital tibetana como uma cidade tensa, marcada pela violência e onde ainda cheira a fumo quase duas semanas depois dos primeiros protestos anti-China» («Duas semanas depois a capital do Tibete ainda cheira a fumo», Global/Jornal de Notícias, 28.3.2008, p. 11).

«Cava»?

Cella vinaria, com dolia enterrados: http://www.culturacampania.rai.it/

Antes cova

Tirando a de Viriato, a veia, a que se faz com uma enxada e pouco mais, para que precisamos nós da palavra «cava»? Para nada, parece-me. Fora disto, é como espanholismo que a usamos. «Portugal consumiu, em 2005, 800 mil garrafas de cava, o vinho espumante produzido, principalmente na região espanhola da Catalunha, o que representa um crescimento de 35 % face ao ano anterior» («Um espumante que quer ser conhecido», José Manuel Oliveira, Diário de Notícias, 10.6.2006). Isto para dizer que underground cold-store se traduz por «cave» e não por «cava». O espanhol cava vem do latim cava, «cova», «fossa», e, para aquilo que aqui interessa, é, «en palacio, dependencia donde se cuidaba del agua y del vino que bebían las personas reales». Macacos me mordam se isso não é uma adega ou cave. Tanto mais que esse underground cold-store não serve para armazenar vinho, mas outras provisões. Já a 1.ª edição do Dicionário da Academia Francesa, de 1694, definia assim o vocábulo «cave»: «Lieu creux & soûterrain pour mettre du vin & autres provisions.» Para armazenar vinho, era a cella vinaria ou cauea vinaria dos Romanos.

Iliteracia

Acordo? Mas qual acordo?

Hospital Inglês, Campo de Ourique.
Uma recepcionista jovem atende uma chamada. Alguém a marcar uma consulta.
— Sim… Fale devagar…
Do outro lado da linha, soletram um nome.
— Esse, esse, hífen…
Perpassa-lhe uma sombra de dúvida pelo rosto. Pergunta à colega do lado:
— Hífen é ípsilon, não é?...
A colega não tem a certeza, vê-se, mas arrisca:
— É.
Quase em simultâneo, desinstalo-me do meu conforto e digo:
— Não é. É o tracinho, lembra-se?

Tradução: «ticket»

Sim, porquê?

«O candidato esperava ainda que a vitória pusesse definitivamente fim às especulações de que estaria disposto a aceitar a proposta da sua adversária, que nos últimos dias tem repetido a ideia de os dois concorrentes seriam imbatíveis se unissem os seus esforços num único ticket — com o nome de Hillary à frente» («Obama em busca do momentum perdido», Rita Siza, Público, 12.3.2008, p. 19). Por muito diferente que seja de uma lista eleitoral europeia, e especificamente portuguesa, não sei porque se tem de deixar por traduzir o termo ticket.

Léxico contrastivo: «Bagdá»

A terceira via

      «Enquanto o pré-candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, o senador John McCain, chegou a Bagdá em uma visita surpresa, contagens finais de Iowa e Califórnia mostram que o senador pelo Estado de Illinois, Barack Obama, expandiu sua frágil vantagem sobre a rival e senadora pelo Estado de Nova York, Hillary Clinton, em número de delegados que determinarão quem irá receber a nomeação pelo lado democrata» («McCain faz visita surpresa a Bagdá», Jornal do Brasil, 17.3.2008, p. A21). A esmagadora maioria das vezes, preferimos, na escrita, a forma «Bagdad», mas como a pronunciamos? Na verdade, como se estivesse escrito «Bagdá», pois sabemos que uma consoante final pode ser muda, como é o caso — ou sabíamos, porque nos dias que correm a oralidade é completamente descurada no ensino da língua portuguesa. Contudo, talvez fosse de considerar esta terceira via*. Para as novas gerações, que começam agora a aprender a língua, seria a grafia mais lógica.

* Neste aspecto, nada mudará com o novo Acordo Ortográfico. De facto, lê-se no artigo 5.º da Base I: «As consoantes finais grafadas b, c, d, g, e t mantêm-se, quer sejam mudas quer proferidas nas formas onomásticas em que o uso as consagrou, nomeadamente antropónimos/antropônimos e topónimos/topônimos da tradição bíblica: Jacob, Job, Moab, Isaac, David, Gad; Gog, Magog; Bensabat, Josafat. Integram-se também nesta forma: Cid, em que o d é sempre pronunciado; Madrid e Valladolid, em que o d ora é pronunciado, ora não; e Calecut ou Calicut, em que o t se encontra nas mesmas condições. Nada impede, entretanto, que os antropó[ô]nimos em apreço sejam usados sem a consoante final Jó, Davi e Jacó.»

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