Léxico: cantautor

As palavras dos outros

      De vez em quando, vão-se insinuando por entre as linhas umas palavrinhas que não são nossas. «Cantautor», que eu conheço há muitos anos, quando comecei a ouvir música espanhola de Joaquín Sabina e outros, é uma delas. Já a tinha lido no Público, recentemente. «Em Setembro há o regresso do cantautor da depressão esquecida numa rumba parola. JP Simões vem com menos veneno, uma lucidez rara e sambas mais pessoais que patriotas» (Público/Y, 26.05.2006, João Bonifácio, p. 39). E agora no Diário de Notícias: «Espectáculo inédito nas serenas noites da Vila Malaspina, entre colinas de recorte suave, foi o de cerca duma dúzia de carabinieri, dispostos aos pares, no exterior e no interior do pátio de acesso livre, antes e durante a actuação da banda israelita do famoso cantautor Hanan Yovel, que se acompanha à guitarra acústica, sendo também acompanhado pela voz da filha, Shira Yovel, e por outros três instrumentistas, na guitarra eléctrica, nas teclas e na percussão» («A guerra a ecoar entre músicas do mundo na Toscânia [sic]», Elisabete França, 6.08.2006, p. 38).
      Talvez nos faça falta, pois expressa um conceito complexo como nenhuma palavra portuguesa equivalente.

«Cantautor, ra. m. y f. Cantante, por lo común solista, que suele ser autor de sus propias composiciones, en las que prevalece sobre la música un mensaje de intención crítica o poética» (Diccionario de la Real Academia Española).

Uso das aspas

Ser ou não ser

      «Na época trabalha por sua conta e risco, intermediando negócios e actuando no mercado de capitais, por vezes como testa-de-ferro de terceiros» («Jorge de Brito. O empresário que Marcelo apoiou», Cristina Ferreira, Público, 3.08.2006, p. 35). Afinal, Jorge de Brito foi mesmo testa-de-ferro ou não? Se foi, as aspas estão a mais; se não foi, estão as aspas e a palavra: a jornalista deveria então escolher o termo que julgava adequado. É pecha comum entre os jornalistas, esta de usar as aspas em situações que as não requerem.

Elemento ciber-

Língua prò galheiro

      Há já uns meses, alertei aqui para o facto de o nome de determinada coluna de um jornal ter hífen a ligar o elemento ciber e a palavra seguinte, que começava por vogal. Argumentei então que era incorrecto e aduzi o exemplo, abundantemente encontrado na imprensa e não só, do vocábulo «ciberespaço». Pouco depois — e não quero ver aqui uma relação de causa-efeito, pois sou modesto e ninguém me paga o que faço —, a coluna aparecia com o nome correcto. Ao exemplo de hoje aplica-se a mesma argumentação, pelo que vou poupar palavras.
      «A ciber-instalação que os Daft Punk levaram ao palco TMN representou o melhor e mais invulgar concerto desta edição do Festival Sudoeste», «Sudoeste dançou enquanto exclamava “Olhó robô!”», Nuno Galopim, Tiago Pereira e Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 7.08.2006, p. 28.
      Já que estou com o lápis vermelho em riste, deixem-me dizer que aquele «olhó» está errado, pois há ali uma contracção: «olha o robô». Logo, «olhò».

Oralidade: elisões e confusões

Escreva isso, por favor

— Vai ali à Repartição de Finanças e pergunta p’la tu’ ti’ Lena. Ouve bem: só a ela é que deves entregar este sobrescrito. Percebeste?
Foi. Perguntou. Não entregou.
— Então, ela estava lá?
— Ninguém conhece lá nenhuma Tutilena.
— Imbecil lobotomizado!

Acepções

Isso mesmo e o contrário

      «Nerved on coffee», diz-se em inglês. «Enervado pelo café.» É interessante como o português tem palavras com determinado significado e, ao mesmo tempo, o oposto. Enervado é o que tem nervos e o que não tem (abatido/excitado). Arrendar tanto significa dar como tomar de arrendamento. Se eu escrever «a Margarida vai arrendar um apartamento na Graça», o meu interlocutor não saberá, se não houver um contexto mais lato, explícito ou implícito, se a Margarida vai ser inquilina ou se é a senhoria (o feudalismo a espreitar numa palavra). Nem eu vos direi, que sou discreto.

Léxico: «ulva»

Imagem: http://greciantiga.org/img/
Serendipidade

      Não são só desgostos: ontem aprendi uma nova palavra. Ulva, conheciam? No templo de Éfeso, os capitéis, da ordem jónica, tinham uma faixa ornada com ulvas, elemento vegetalista. Este o contexto em que me surgiu o vocábulo. Mais interessante: Oliveira do Hospital chamou-se, antigamente, Ulvária, porque no local existia um terreno alagadiço em que abundavam as ulvas, plantas que se dão bem nestes ambientes. De Ulvária passou, ao que parece, para Ulveira e, por deturpação, para Oliveira. Do Hospital, está mesmo a ver-se, por causa de uma Comenda da Ordem dos Hospitalários de S. João de Jerusalém, também conhecida por Ordem de Malta. Em 1120, a rainha D. Teresa fez doação desta vila aos cavaleiros da referida ordem.

Alcunhas

O outro nome

      Os alentejanos são muito propensos a encontrar alcunhas para aqueles que lhes são próximos. Algumas alcunhas (do árabe كنية) transformaram-se até, com o tempo, em apelidos, o que mostra bem a sua eficácia. Há mesmo alguns estudos e teses de doutoramento — ah, pois claro — que têm como objecto as alcunhas. Vem isto a propósito da entrevista que o presidente do Brasil, Lula da Silva, deu ao Expresso (Única, 5.08.2006, pp. 56-64), na qual lembra que quando era sindicalista lhe perguntaram se era comunista, ao que respondeu: «Não. Sou torneiro-mecânico.»
      Na Aldeia Amarela, havia um indivíduo cuja alcunha era o comunista de Inverno. Segundo Francisco Martins Ramos (Alcunhas Alentejanas, Estudo Etnográfico, Associação de Defesa dos Interesses de Monsaraz, 1990, p. 86), trata-se de uma «designação outorgada com grande perspicácia a um homem que mudava de posição política conforme o ciclo agrícola lhe era benéfico ou não». Não é genial?

Léxico: «palimpsesto»

Como uma cebola

      «Este livro é conhecido como o Palimpsesto de Arquimedes, por conter vários textos deste autor escondidos sob várias camadas, correspondentes a várias utilizações de um mesmo pergaminho — uma prática comum na antiguidade [sic]» («Reveladas versões inéditas de tratados de Arquimedes em palimpsesto do século XIII», Ana Margarida Santos, Público, 4.08.2006, p. 29).
      Nas palavras chãs mas significativas de algumas pessoas a quem perguntei o que entenderam desta definição de palimpsesto, «não apanhei nada». Culpa delas ou da jornalista? Eu diria que desta última. Vejamos a definição do Dicionário da Academia: «Manuscrito em pergaminho cuja escrita primitiva foi apagada, através da raspagem dos caracteres ou descoloração por meios químicos, para se lhe sobrepor novos escritos. Na Idade Média, a escassez e o elevado preço do pergaminho tornaram comum o uso dos palimpsestos. Um dos processos utilizados para avivar a escrita descolorida dos palimpsestos são os raios ultravioletas.» Contribuem para a pouca clareza da definição o uso dos vocábulos «escondidos» e «camadas», que remetem, ainda que não deliberadamente, para algo que o palimpsesto não é, e o facto — e isto foi expressamente referido pelas pessoas a quem pedi que lessem e interpretassem o texto — de o vocábulo «palimpsesto» não ser utilizado como substantivo comum, mas integrado num título ou designação.
      Já que são tão dados a estudos, porque não vão para a rua e põem as pessoas a ler e a interpretar estes e outros textos? Experimentem.

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