Definição: «ficção científica»

Desde 1926


      Li um interessante artigo numa revista italiana sobre a fantascienza, palavra criada por Giorgio Monicelli em 1952 para designar aquilo a que chamamos ficção científica. Tanto quanto sei, trata-se de um caso único: enquanto quase todas as outras línguas adoptaram, com pequenas adaptações, a expressão inglesa science fiction, o italiano criou um termo próprio. A leitura levou-me — acho que conseguiram adivinhar — a reler a definição de «ficção científica» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «género cujo enredo é baseado em conhecimentos científicos actuais, lidando essencialmente com o impacto da ciência, real ou imaginada, sobre a sociedade ou as pessoas». Parece-me uma definição demasiado restritiva. Desde logo, porque exige que a ficção científica se baseie em «conhecimentos científicos actuais», quando muitas das obras mais apreciadas do género assentam precisamente em ciência hipotética ou especulativa. Depois, porque reduz a ficção científica ao impacto da ciência sobre as pessoas e a sociedade, deixando de fora narrativas centradas na exploração, na descoberta ou na aventura. Finalmente, não explicita um dos traços distintivos do género: a especulação racional, que o diferencia da fantasia. 
      Proponho, por isso, a seguinte redacção: ficção científica LITERATURA, CINEMA, TELEVISÃO género de ficção baseado na extrapolação racional de conhecimentos científicos ou tecnológicos, reais ou imaginários, ou na formulação de hipóteses apresentadas como cientificamente plausíveis, explorando as suas consequências para os indivíduos, a sociedade ou o Universo.

[Texto 23 281]

Um obituário como tantos outros

Não fora a hipocrisia, seriam a maioria


      No dia 24 de Junho, li no jornal El País, assinado por Caludi Pérez, um obituário — de página inteira! — de Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal entre 1987 e 2006, completamente demolidor. Só o título já nos permitia prever o teor: «El pésimo legado del ‘Maestro’ Greenspan». Se aquela ideia absurda de que um obituário tem de ser ou costuma ser elogioso não tivesse caído antes, seria desta vez. Não foi preciso.

[Texto 23 280]

Definição: «draisiana/dresina»

Omitem o principal


      Apetecia-me falar das bloomers, mas, já que não é palavra nossa, mais prometedor é analisar a definição de «draisiana» num dos nossos dicionários. Diz a Porto Editora: «veículo inventado por Karl Drais (1785-1851), precursor da bicicleta». O problema é que isto não chega a ser uma definição: é uma nota histórica. Um dicionário não deve limitar-se a dizer quem inventou uma coisa ou qual foi o seu papel na História. Deve, antes de mais, explicar o que ela é. E, neste caso, fica por responder quase tudo. A draisiana tinha duas rodas? Tinha guiador? Tinha pedais? Tinha travões? Como se movia? 
      A resposta é simples e proponho-a como definição ➠ draisiana/dresina veículo de duas rodas do mesmo tamanho, provido de guiador, sem pedais nem travões, movido pelos impulsos alternados dos pés sobre o solo, inventado por Karl Drais em 1817. 
      Retiraria também a referência a «precursor da bicicleta». Em rigor, a draisiana não é um precursor: é o primeiro modelo da bicicleta, ao qual foram sendo acrescentados, ao longo do século XIX, os pedais, a transmissão por corrente, os travões e outras inovações. Não anuncia a bicicleta; é a bicicleta na sua forma inicial. Já agora, convém que a variante «dresina» receba a mesma definição. Entretanto, em pleno século XXI, e já depois de a minha filha ter aprendido no modelo de bicicleta que todos conhecemos, a draisiana regressou. Não é agora raro ver crianças de dois ou três anos a deslocarem-se, com espantosa desenvoltura, em pequenas bicicletas de madeira sem pedais, hoje conhecidas pelo nome inglês balance bikes, decerto cunhado por algum industrial inventivo, mas desprovido de cultura histórica. Karl Drais reconhecê-las-ia de imediato. Afinal, mais de dois séculos depois, a sua invenção continua a ensinar gerações de crianças a equilibrar-se sobre duas rodas.

[Texto 23 279]


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P. S.: Para não ficarem augados, uma palavra sobre as bloomers e a sua inventora. Na verdade, Amelia Jenks Bloomer (1818-1894), escritora, sufragista e defensora dos direitos das mulheres, não as inventou: promoveu-as com tanto entusiasmo, que o seu apelido acabou por lhes dar nome. As bloomers eram umas calças largas, franzidas nos tornozelos, usadas sob uma saia mais curta do que a moda consentia. Faziam parte de um movimento de reforma do vestuário feminino, que procurava libertar as mulheres das pesadas saias e dos espartilhos, permitindo-lhes caminhar, trabalhar e mover-se com muito maior liberdade. Só mais tarde se tornariam inseparáveis da imagem das primeiras ciclistas.


Como se escreve por aí

Conta-me histórias


      «A regra até já foi invocada após Miguel Almirón, jogador do Paraguai, ter colocado a mão á [sic] frente da boca enquanto falava com um jogador da Turquia no final da semana passada. O árbitro assistente de vídeo (VAR) interviu para apresentar o cartão vermelho» («Fotografia de Bellingham a tapar a boca em jogo do Mundial levanta dúvidas sobre nova regra da FIFA», Nascer do Sol, 26.06.2026, 12h58). 
       Não sabemos é o nome do artista, e por isso jamais poderemos dizer que o romance tal ou o livro de poesia tal é deste plumitivo que hoje, em 2026, não sabe nem quer saber como se conjuga o verbo «intervir». Já tenho apanhado obras assim, mas alguém replica que o autor «sabe contar uma história». É o que parece interessar.

[Texto 23 278]

Léxico: «mesa anatómica»

Para juntar às outras


      «A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro deu mais um passo na preparação do arranque do Mestrado Integrado em Medicina, previsto para o ano letivo 2026/2027, com a aquisição de duas mesas anatómicas digitais de última geração» («Mesas anatómicas», Correio da Manhã, 25.06.2026, p. 30).
      Claro que não sabem o que é, e eu também não sabia. Por isso, proponho ➠ mesa anatómica MEDICINA, ENSINO equipamento didáctico constituído por uma mesa com ecrã táctil horizontal de grandes dimensões, destinado ao estudo da anatomia humana mediante a visualização e dissecação virtual de modelos tridimensionais do corpo, permitindo observar, isolar e manipular digitalmente órgãos, tecidos e outras estruturas anatómicas.

[Texto 23 277]

Definição: «falbo»

Sim, italiano


      Encontrei-a numa cartela de um museu: falbo. É uma bonita palavra, mas não a temos, não é nossa. Non è nostra. Provém do germânico falwa, provavelmente através do provençal falb, e diz-se de um objecto ou da pelagem de um animal, tipicamente um cavalo, mas não só, de cor amarelo-escura, tendente ao ruivo. Contudo, aparece, ora pois, nos nossos dicionários bilingues. E não bem definida. No Dicionário Italiano-Português da Porto Editora, lê-se que falbo significa «amarelo-torrado» e, tratando-se de cavalos, «alazão». A definição simplifica demasiado o significado da palavra. Os dicionários italianos explicam que falbo designa, em sentido próprio, a cor da pelagem de certos animais, não apenas de cavalos. Aliás, o Grande Dizionario Hoepli cita um passo de Gabriele D’Annunzio em que se fala de «i miei cani bianchi e falbi» («os meus cães brancos e fulvos»). Quanto a «alazão», embora possa aproximar-se em determinados contextos, não corresponde exactamente ao significado de falbo, que remete antes para a ideia de «fulvo», isto é, de uma tonalidade amarelo-escura ou dourada. Uma palavra bonita, de etimologia antiga, que merecia melhor sorte nos nossos dicionários bilingues de italiano.

[Texto 23 276]

Léxico: «tensor | subconjunto»

Anatomia, matemática...


      «O primeiro vagão começou a ganhar forma nas metalomecânicas Metric Argument (Vila Nova da Barquinha) e JPReis (Mealhada), com um exigente processo de soldadura dos subconjuntos. Mas a sua montagem (que inclui os engates, tensores e sistema de freios) já foi feita no Entroncamento, onde, de resto, a Medway espera iniciar a construção de oficinas próprias para esse efeito (as actuais funcionam num espaço alugado à CP)» («Depois do comboio nasce o vagão português pela mão da Medway», Carlos Cipriano, Público, 25.06.2026, p. 39). 
      Acepção de «tensor» que não vejo nos nossos dicionários, isto quando está plenamente estabelecida. Já a tenho visto referida, por exemplo, em relação a pontes móveis. Assim, proponho ➠ tensor MECÂNICA peça estrutural destinada a trabalhar à tracção, transmitindo ou regulando esforços mecânicos entre diferentes componentes de uma máquina, veículo ou outra estrutura.

[Texto 23 275]

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P. S.: Viste bem, Porto Editora: também te falta este ➠ subconjunto ENGENHARIA, INDÚSTRIA conjunto de peças ou componentes montados entre si, destinado a ser posteriormente integrado num conjunto maior ou no produto final.


Léxico: «alucinação | alucinar»

E do verbo, nada


      «For all their remarkable capabilities, these systems sometimes make things up. We call this hallucination. Ordinarily, a hallucination means to see or hear something that is not there. In artificial intelligence (AI), a model hallucinates when it produces an answer that sounds plausible but is factually wrong. It may invent a citation, misstate a number, fabricate a legal case, or attribute a quote to the wrong person» («The strange link between AI hallucination and creativity», Viraj Kulkarni, The Hindu, 24.06.2026, p. II). 
      Já o tens, Porto Editora, mas não reflecte bem a realidade das coisas, pelo que sugiro ➠ alucinação INFORMÁTICA geração, por um sistema de inteligência artificial, de informação aparentemente plausível mas incorrecta, inventada ou sem correspondência com a realidade. 
      E, seja como for, nenhum dicionário acolhe a respectiva acepção no verbo, pelo que também proponho ➠ alucinar INFORMÁTICA produzir, um sistema de inteligência artificial, informação aparentemente plausível mas factualmente incorrecta ou inexistente.

[Texto 23 274]

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