Definição: «baobá»

Milenária e não o dizemos?


      «Tsitakakantsa, estimated to be 1,000 to 1,500 years old and one of the largest baobabs in Madagascar, appears to have entered a final phase in which it will buckle, collapse and eventually disintegrate. It could take months, maybe longer. Eventually, only a patch of stained earth — like a shadow in the soil — will remain» («As a sacred tree dies, a village loses a spiritual anchor»,  Jonathan Wolfe, The New York Times, 27-28.06.2026, p. 13).
      É tão vulgar esta longevidade dos baobás, que deve ficar na definição, assim ➠ baobá BOTÂNICA (Adansonia digitata) árvore de muito grande porte, da família das Malváceas, originária da África tropical, de tronco muito grosso (podendo ultrapassar 10 metros de diâmetro), capaz de armazenar grandes quantidades de água, folhas digitadas, flores grandes, brancas, e frutos capsulares, de polpa ácida, usada na alimentação; pode viver mais de mil anos; adansónia, cabaceira, calabaceira, embondeiro, imbondeiro, imputeiro, melambeira, micondó.

[Texto 23 265]

Léxico: «respiração agónica»

Eu quero saber


      «Relatos da equipa do Centro Médico Mercy Gilbert, revelaram que a criança apresentava respiração agónica — ou gasping, como é conhecido internacionalmente — um reflexo involuntário que pode acontecer momentos antes da morte» («Bebé de um ano e meio encontrado vivo em morgue nos EUA», Rádio Renascença, 7.07.2026, 17h10).
      Que é isto ➠ respiração agónica MEDICINA padrão respiratório anormal, caracterizado por movimentos respiratórios lentos, irregulares e ofegantes, ineficazes para assegurar uma ventilação adequada, que ocorre geralmente durante a paragem cardíaca ou noutras situações de hipoxia cerebral grave, constituindo um sinal de emergência médica.

[Texto 23 264]

Definição: «angstrom/angström»

Já não serve para os nossos dias


      «IBM asegura que ha conseguido bajar del nanómetro en la tecnología de semiconductores, medida que se ha utilizado siempre como baremo para hablar de la eficiencia y avances de los nuevos procesadores. Así, IBM ha desarrollado una arquitectura de transistores apilados verticalmente que la compañía denomina “nanostack” y que sitúa su nodo en los siete angstroms (0,7 nm). Según sus responsables, este avance en la industria supone un aumento de rendimiento de hasta el 50%, una mejora de eficiencia energética de hasta el 70% y un avance de alrededor del 40% en la densidad y el escalado de la memoria SRAM en comparación con la tecnología de 2 nm» («No diga procesador, diga angstroms», Arantxa Herranz, La Razón, 26.06.2026, p. 66).
      Então, vejamos a definição de «angstrom/angström» no dicionário da Porto Editora: «FÍSICA unidade de comprimento, de símbolo Å, usada normalmente para exprimir o comprimento de onda das radiações luminosas ou das partículas subatómicas, equivalente a um décimo milionésimo de milímetro (actualmente define-se o comprimento do angström, dizendo que o comprimento de onda da risca vermelha do cádmio, medido no ar seco, a 15° C, à pressão atmosférica de 760 mm de mercúrio e com aceleração da gravidade de 980,67 cm/s², é exactamente de 6438,4696 angströms)». 
      É, pode afirmar-se, uma definição somente com interesse histórico. Durante décadas, o angström foi usado sobretudo em espectroscopia e cristalografia para exprimir comprimentos de onda e distâncias entre átomos. Hoje, porém, o símbolo Å reapareceu no vocabulário corrente da tecnologia dos semicondutores: fabricantes como a IBM, Intel e Samsung passaram a designar os seus processos de fabrico como «18 Å», «14 Å», «10 Å», «7 Å», etc., em vez de continuarem a falar apenas em nanómetros. Embora essas designações sejam em grande parte nomes comerciais e não correspondam exactamente a dimensões físicas de 18, 14 ou 7 angströms, o facto é que o angström voltou a ser uma unidade muito presente na imprensa tecnológica. Sendo assim, como omite as utilizações hoje mais comuns, tais como a expressão de distâncias atómicas e moleculares; como nada diz sobre aplicações actuais em cristalografia, biologia estrutural ou nanotecnologia; como não menciona sequer a equivalência com 0,1 nm, que é hoje a comparação mais intuitiva, já não nos serve.
      Assim, uma definição que reúna os usos que aparecem de forma consistente nas fontes de maior autoridade, elimine a longa digressão histórica e reflicta o emprego científico actual sem cair em excessos enciclopédicos, e, ao mesmo tempo, evitando restringir a unidade aos comprimentos de onda, como ainda fazem alguns dicionários mais antigos, dirá algo como isto ➠ angstrom/angström FÍSICA unidade de comprimento, de símbolo Å, equivalente a 10⁻¹⁰ m (0,1 nm), usada sobretudo para exprimir dimensões atómicas e moleculares, distâncias interatómicas em estruturas cristalinas e comprimentos de onda da radiação electromagnética.
      Uma etimologia mais esclarecedora diria que vem ➠ de Angström, apelido do físico sueco Anders Jonas Ångström (1814-1874), em homenagem ao qual foi atribuída a designação desta unidade.

[Texto 23 263]


Léxico: «sobrevoltagem | subvoltagem»

Só parcialmente sinónimos


      «Applications such as BAT-BMS exist to allow fleet owners and service technicians to easily diagnose battery problems such as overvoltage or undervoltage. In most vehicles, battery management and diagnostics require physical access to the module and the use of a computer or other device to gather information» («E-rickshaw battery ‘hacks’ and Bluetooth BMS vulnerabilities», Karan Saini, The Hindu, 7.07.2026, p. 11).
      Vejamos: «sobrevoltagem» e «subvoltagem» são parcialmente sinónimos de «sobretensão» e «subtensão», mas, logo por azar, o enfoque do artigo está nos parâmetros do BMS (battery management system, «sistema de gestão da bateria»), nos limiares de disparo, nos estados de erro e nas protecções configuradas no sistema, e não no fenómeno eléctrico em si. Já por aqui se vê a necessidade de acolher estes dois termos. Avançando um pouco mais, comprovamos que apenas «subvoltagem» está num (!) bilingue da Porto Editora. 
      Assim, proponho ➠ sobrevoltagem 1. ELECTRICIDADE condição em que a tensão eléctrica num circuito, equipamento ou sistema excede o valor nominal ou o limite especificado para o seu funcionamento; 2. ELECTRICIDADE sobretensão. | subvoltagem 1. ELECTRICIDADE condição em que a tensão eléctrica num circuito, equipamento ou sistema é inferior ao valor nominal ou ao limite especificado para o seu funcionamento; 2. ELECTRICIDADE subtensão. 

[Texto 23 262]

Definição: «criminologia», de novo

E podíamos ter avançado mais


      A definição do vocábulo criminologia no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora foi recentemente actualizada, como sabem. A definição anterior, além de desactualizada, descrevia a criminologia como um «conjunto complexo de disciplinas médicas, genéticas, psicológicas, sociológicas, que consideram a criminalidade nos seus diversos aspectos» e chegava mesmo a apresentar como segunda acepção «filosofia do direito penal». A nova definição passou a ser: «Ciência que estuda o crime e a criminalidade (as suas causas, os seus efeitos, os meios de prevenção e controlo, etc.).» Poucos dias depois, o El País dedicou uma página inteira precisamente à evolução desta disciplina, sob o título «Criminología, mucho más que huellas y cadáveres». O artigo mostra que a criminologia contemporânea está longe da imagem popular associada às séries policiais: estuda também a vitimologia, a prevenção da criminalidade, a cibercriminalidade, a delinquência ambiental, a corrupção, a análise de dados, a avaliação de riscos e muitos outros domínios. A mesma concepção é defendida pelo Colégio Profissional da Criminologia da Comunidade de Madrid, citado no artigo, que apresenta a criminologia como uma ciência interdisciplinar com competências que vão da prevenção e investigação criminal à protecção das vítimas, à avaliação do risco de reincidência, à reinserção social e à segurança. É, pois, uma boa confirmação de que a reformulação do verbete foi no sentido certo. Um dicionário deve acompanhar a evolução do conhecimento científico, reflectindo o significado actual dos termos e abandonando definições que deixaram de corresponder à realidade da disciplina que pretendem descrever.

[Texto 23 261]

Léxico: «armadilha Malaise»

Sem álcool


      Sim, faltou pôr aqui o letreiro: «Torno subito!» Continuemos. «La méthode a cependant été critiquée et un consensus s’était formé sur le nombre de 6 millions d’espèces dans le monde. Dans la nouvelle étude, les chercheurs ont récolté des insectes dans une réserve tropicale du Costa Rica couverte de forêt humide et sèche, à différentes altitudes. Les invertébrés ont été piégés au moyen de quinze tentes Malaise – toile verticale qui intercepte passivement les insectes volants et les collecte dans un pot contenant de l’alcool – disposées dans un rayon de 100 kilomètres» («La Terre abriterait entre 14 millions et 20 millions d’espèces d’insectes», Delphine Chayet, Le Figaro, 7.07.2026, p. 13). 
      Como já temos «armadilha de queda» no dicionário, proponho armadilha Malaise ZOOLOGIA dispositivo passivo de captura de insectos voadores, constituído por uma estrutura de rede, geralmente em forma de tenda, que intercepta os insectos em voo e os conduz para um recipiente colector onde ficam retidos. 
      O álcool não pode ficar na definição, já que o recipiente colector pode conter etanol (álcool); álcool isopropílico; uma mistura de etanol e glicerina ou de etanol e propilenoglicol; apenas um agente conservante (como o propilenoglicol); ou até estar seco, quando se pretende recolher insectos vivos ou quando os exemplares são retirados com muita frequência. Historicamente, também se usaram cianeto, formalina e outros conservantes, mas hoje são pouco comuns por causa da toxicidade ou dos efeitos sobre os espécimes. A designação vem do apelido do entomólogo sueco René Malaise (1892-1978), que concebeu este tipo de armadilha.

[Texto 23 260]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: Como sabem, malaise significa «mal-estar» em francês. Num universo paralelo, o inventor teria o apelido materno, Söderqvist («ramo do Sul», em sueco), e a armadilha Söderqvist faria a infelicidade das aves, não dos insectos.


Léxico: «epistemicídio»

Porque depois o encontramos


      «Esse giro não se deu graças à boa vontade de psicanalistas brancos e renomados que um dia acordaram e passaram a olhar para os fenômenos específicos com os quais lidamos. Foram os cotistas das universidades que, ao se formarem e escolherem o campo “psi”, trouxeram os temas espinhosos que a academia e as instituições psicanalíticas escamoteavam até então (em lacanês, diríamos que foracluíam). Esses jovens começaram a questionar o epistemicídio (a exclusão de autores/as negros/as e de temas interseccionais), a ausência de análises acessíveis, imprescindíveis para a formação de psicanalistas, as barreiras linguísticas dos diferentes territórios dentro do Brasil para pensar a formação dos analistas, entre outras questões» («É psicanálise, tá ligado?», Vera Iaconelli [directora do Instituto Gerar de Psicanálise], Folha de S. Paulo, 7.07.2026, p. A31). 
      Não é a primeira nem a segunda vez que tropeço nele, pelo que proponho ➠ epistemicídio exclusão, desvalorização ou destruição sistemática dos conhecimentos, saberes ou formas de produção de conhecimento de determinados grupos sociais, culturais ou étnicos, em especial por processos de dominação política, cultural ou ideológica.
      O termo surgiu no âmbito dos estudos pós-coloniais e decoloniais, mas é hoje também usado para designar, como no artigo citado, a exclusão sistemática de autores, perspectivas ou áreas de investigação consideradas marginalizadas.

[Texto 23 259]

Plural dos apelidos

De novo, porque me apetece


      «Era o velho um nobilíssimo descendente dos melhores Sampaios destes reinos» (O Santo da Montanha, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1972, p. 6).
      Já se sabe como os nossos escribas e plumitivos, ainda que assistidos por IA, escrevem isto hoje em dia. Mas então, eles é que sabem.

[Texto 23 258]

Arquivo do blogue