Léxico: «sete mares»

País de navegadores...


      Bem sabemos que os mares são mais de cinquenta, mas a expressão que nos acompanha há séculos é outra: sete mares. Nunca designou um conjunto fixo, variou conforme as épocas e as geografias: para os Gregos antigos, incluía, entre outros, o Mediterrâneo, o Adriático, o mar Negro e o mar Vermelho; noutras tradições, podia abranger sequências de águas do golfo Pérsico ao mar da China Meridional. Hoje, porém, a expressão vale sobretudo como forma de dizer «todos os mares» ou mesmo «o mundo inteiro», como em «navegar pelos sete mares». Ora, esta expressão tem de constar de todos os dicionários, pelo que proponho ➜ sete mares conjunto dos mares do mundo; totalidade dos oceanos, sem referência a um número real ou fixo de mares; por extensão, o mundo inteiro, especialmente em expressões como «navegar pelos sete mares».

[Texto 22 809]

Léxico: «tecido técnico»

Na Decathlon, por exemplo


      Aqui a bracelete do meu Citizen Eco-Drive é de tecido técnico, caqui. Ora, de vez em quando encontro isto, e nos dicionários, nada, pelo que proponho ➜ tecido técnico tecido concebido para desempenhar funções específicas, além do uso estético ou de vestuário corrente; caracteriza-se por propriedades como resistência, respirabilidade, impermeabilidade, elasticidade ou secagem rápida, obtidas por tratamento, estrutura ou combinação de fibras, geralmente sintéticas ou mistas.

[Texto 22 808]

Definição: «bistrô»

Isso é poucochinho, pá


      «O bistrot está a desaparecer em França. Dos 200 mil que existiam em 1968, restam uns 30 mil, dizia o Figaro no ano passado. Hoje, quase dois terços das 35 mil comunas do país já não têm esse café-restaurante para servir habitantes e viajantes. E isso está a afectar a tradicional forma de vida das comunidades rurais. Como referia o diário, uma cidade, vila ou aldeia sem bistrot é um lugarejo sem coração. Ou sem alma» («Alma de bistrot», António Rodrigues, Público, 10.04.2026, p. 23). 

      Em boa hora António Rodrigues se lembrou de publicar um texto sobre o assunto. Como deves imaginar, Porto Editora, pode dizer-se muito mais do que «pequeno restaurante» para definir este tipo de estabelecimento, e é o que faço propondo ➜ bistrô pequeno estabelecimento de restauração, de origem francesa, geralmente de carácter informal e ambiente familiar, onde se servem refeições simples e bebidas, frequentemente a preços acessíveis; por extensão, espaço de convívio quotidiano e de sociabilidade local, associado à vida comunitária, sobretudo em meios urbanos ou rurais de pequena escala. 

      Quanto à etimologia, vem do francês bistrot, de origem obscura; segundo hipótese tradicional, não comprovada, poderá relacionar-se com o russo bystro (быстро), advérbio que significa «depressa».

[Texto 22 807]

Definição: «húngaro/magiar»

É o mínimo


      A nossa melhor homenagem ao povo húngaro e a Péter Magyar, que escorraçou Orbán do poder, é definirmos decentemente «húngaro/magiar» na acepção da língua. Assim, proponho ➜ húngaro/magiar LINGUÍSTICA língua urálica do grupo fino-úgrico, de tipo aglutinante, caracterizada por harmonia vocálica, uso extensivo de sufixos e por um sistema desenvolvido de casos, sem género gramatical e com ordem de palavras relativamente livre, falada sobretudo na Hungria e por comunidades húngaras na Europa Central (Roménia, Eslováquia, Sérvia e Ucrânia), com cerca de 13 a 15 milhões de falantes.

[Texto 22 806]

Definição: «olho do furacão»

Com olhos de ver


      Na SIC Notícias, no sábado, o comentador Duarte Costa, especialista em alterações climáticas, explicou, até com recursos a gráficos, quadros, mapas, a diferença de cuidados entre o Governo português perante o comboio de tempestades, e sobretudo a Kristin, e o Governo neozelandês. Bem, mas foi aqui que nascemos e temos de aguentar. Num dos mapas, aparecia um olho do furacão, que a Porto Editora acolhe, mas que pode estar melhor, já que 1. omite um traço definidor essencial: a relativa acalmia dos ventos no interior do olho, que o distingue claramente das regiões circundantes; 2. não menciona o contraste estrutural com a parede do olho, zona onde se concentram os ventos mais intensos e a maior actividade convectiva; 3. inclui um elemento acessório como se fosse definidor, o diâmetro (30 a 70 km), quando este é altamente variável e não integra a essência do conceito; 4. não refere uma característica típica, ainda que não absoluta: a presença frequente de céu limpo ou pouco nublado no interior do olho; 5. formulação pouco precisa em «tendencialmente circular», que acrescenta pouco valor descritivo e não compensa a ausência de traços mais relevantes; 6. limita-se a uma descrição geométrica e barométrica, sem captar a dinâmica atmosférica fundamental do fenómeno (subsistência do ar e consequente estabilidade relativa).

      Assim, proponho ➜ olho do furacão METEOROLOGIA região central de um ciclone tropical, aproximadamente circular, caracterizada por pressão atmosférica muito baixa e por condições de relativa calma (ventos fracos e, frequentemente, céu pouco nublado), rodeada pela parede do olho, onde se registam os ventos mais intensos e a maior actividade convectiva.

[Texto 22 805]

Definição: «ralo»

Nem isto...


      Aproveitemos um autor ter recorrido a uma senhora perífrase («uma ponta daquelas que simulam o efeito da chuva») para designar exactamente o que toda a gente, de norte a sul, chama «ralo» para propor, Porto Editora, uma nova definição, já que falas em «tampa», um termo infeliz, porque ali nada se tapa, tampa ou tampona. Assim, proponho ➜ ralo peça perfurada, geralmente metálica ou plástica, que se adapta ao bico do regador e distribui a água em chuveiro, permitindo uma rega uniforme e suave.

[Texto 22 804]

Tradução: «unoaked»

Estava aqui a pensar


      Com que então uma garrafa de Comboio do Vesúvio unoaked… Ainda algum pacato e desprevenido português se atraganta antes mesmo de o levar aos lábios. Vejamos: se unoaked também é, apesar de consolidado, ambíguo em inglês, porque não sugerirmos nós um termo legitimamente português? Em rigor, unoaked não significa sempre «vinho sem qualquer contacto com madeira». Muitas vezes quer apenas dizer «vinho sem marca sensorial de carvalho», excluindo o uso de barrica nova, mas admitindo madeira neutra, contacto breve ou soluções técnicas equivalentes. O termo funciona menos como descrição processual do que como rótulo de estilo, e essa ambiguidade é hoje plenamente aceite no discurso enológico anglo-saxónico. Ora, se toleramos essa elasticidade no inglês, não há razão para exigir ao português uma precisão cirúrgica que o próprio original não tem. A dificuldade não é conceptual, é lexical: o inglês dispõe de um adjectivo curto, transparente e estabilizado; o português refugia-se em perífrases correctas, mas pesadas, como «vinho não estagiado em madeira» ou «vinho sem contacto com carvalho». É aqui que se pode, e talvez se deva, atirar o barro à parede. Desmadeirado é morfologicamente irrepreensível, semanticamente claro e dialoga directamente com um adjectivo já consagrado, amadeirado. Tal como unoaked, pode ser lido tanto em chave técnica como sensorial; tal como unoaked, não resolve todas as subtilezas do processo, mas comunica eficazmente um perfil de vinho. Nenhum termo nasce perfeito nem imune a objecções. Nasce porque alguém o usa, outro o entende e um terceiro já não estranha. Se aceitamos unoaked numa garrafa do Douro, talvez esteja na hora de experimentar também um vinho desmadeirado, ao menos na língua.

[Texto 22 803]

Como se traduz por aí

Não temos cá disso


      Quarto episódio da série Na Sombra. Francœur, apertado por escândalos e suspeitas, propõe a Marie-France Trémeau uma candidatura conjunta, à americana. O Eliseu para ele, para ela o Matignon. Ela, embora replique de imediato que não acredita nestas soluções bicéfalas, não deixa de ponderar ali mesmo. Mas diz também: «Quand tu auras vu ma liste de courses, je ne sais pas si ta proposition sera toujours une si bonne idée.» Nas legendas, estava assim: «Quando tiveres visto a minha “lista de compras”, a tua proposta talvez não tenha sido uma ideia assim tão boa.» E esta «lista de compras» já tinha aparecido noutro episódio. Para um francês, a expressão francesa não é obscura, a sua equivalência literal é que não existe em português. É um caso clássico de assimetria idiomática. 

      Temos de ver que é um filme, em geral o espectador não anda para a frente e para trás para perceber, nem pára para ir consultar um dicionário. Tem de se optar sempre pela formulação mais clara, mais directa. Por isso, eu optaria por uma solução assim: «Quando vires a minha lista de exigências, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» Ou até mais simples: «Quando vires as minhas exigências, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» Ou ainda: «Quando vires as minhas contrapartidas, não sei se a tua proposta continuará a parecer uma tão boa ideia.» É que, para aceitar, ela vai querer os ministérios mais importantes, como o do Interior e o da Justiça, entre outras exigências relacionadas com a linha política.

[Texto 22 802]

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