Léxico: «construtibilidade»

Sólido como uma rocha


      No portal de uma empresa de construção de casas modulares, vejo na lista de requisitos «construtibilidade», embora num sentido que não é o habitual. Dado que é um termo bem consolidado na área, proponho ➜ construtibilidade ENGENHARIA CIVIL, ARQUITECTURA qualidade ou grau em que um projecto, solução técnica ou obra pode ser executado de forma eficaz, eficiente e económica nas condições reais de construção; resulta da integração do conhecimento e da experiência construtiva nas fases de concepção, planeamento e execução, visando optimizar custos, prazos e processos e reduzir erros, dificuldades ou necessidade de refazer trabalhos.

[Texto 22 795]

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P. S.: Então se durante anos os nossos jornalistas não acertavam com o nome de Cavaco Silva, iam agora, assim de repente, pronunciar bem o nome Péter Magyar? Ontem, nas televisões portuguesas, ora era «Magiar», como o vocábulo português que designa precisamente o natural ou habitante do país e a língua, ora «Maguiar». Se tivessem ouvidos e soubessem que existe uma coisa chamada Youtube, iam ver que não é de nenhuma dessas maneiras que se pronuncia. (Viszlát, Viktor Orbán!)



Léxico: «papa-lagarta-do-mangue»

Ainda bem que pousou aqui


      «Existem 147 espécies na família dos cuculídeos, que também inclui os papa-léguas. O seu aspecto varia consideravelmente, desde o minúsculo papa-lagarta-do-mangue, com penas azuis com pintas na cauda, que habita as costas do México e das Caraíbas, ao anu-branco, com o seu bico cor-de-laranja e crista punk, que vive na região central e ocidental da América do Sul. Eles preferem habitats com muitas árvores frondosas onde se possam esconder e fundir com a floresta e o mato. Vivem em todos os países, excepto na Antárctica» («Os cucos, uma vasta família de aves», National Geographic Portugal, 8.04.2026, 15h10).

      Aproveitemos, porque está sumariamente definido («ORNITOLOGIA (Coccyzus minor) Ave de bico e patas curtas, da família dos Cuculídeos, ordem dos Cuculiformes»), e apenas no dicionário com o AO90, para propor assim ➜ papa-lagarta-do-mangue ORNITOLOGIA (Coccyzus minor) ave da família dos Cuculídeos, de pequeno porte, com cauda longa e bico fino ligeiramente curvo; apresenta plumagem maioritariamente castanha, com máscara escura, ventre fulvo e anel ocular amarelado ou acinzentado; habita mangais e outras formações florestais densas de regiões tropicais; alimenta-se sobretudo de insectos, em especial lagartas, sendo uma espécie discreta que se mantém geralmente escondida na vegetação.

[Texto 22 794]

Tradução: «permanent»

Encore faut-il savoir écouter


      Terceiro episódio de Na Sombra. Ça commence à chauffer. Já na posse das imagens não editadas (os tais brutos...), César Casalonga e Marylin vêem que Le Major, alguns minutos antes de o sistema informático vir abaixo, segredou qualquer coisa a um dos informáticos. Qualquer coisa não, César leu inequivocamente nos lábios: «Vai agora.» E que informático era esse? O indivíduo que lhes tentara vender os discos rígidos com a prova da fraude. Caligny, que assistia à projecção a um canto da sala, também reconheceu o indivíduo do incidente na ponte. César e Marylin decidem então marcar um jantar com Le Major para o confrontarem. Quando César lhe mostra, no telemóvel, o fotograma em que Le Major aparece a segredar ao ouvido do informático, Le Major deixa-se rir e diz: «Conheço esse tipo de vista. Estava sempre lá, um militante.» «Permanente ou militante?», pergunta Marylin. Isto, claro, nas legendas, mas a tradução está errada e compromete seriamente a compreensão. 
      Ao traduzir desta forma a fala de Marylin, tinham de soar todos os alarmes e levar o tradutor a pensar bem, a voltar atrás. Vamos ao original. Le Major: «Ce type, je le connais sans le connaître. Il était là comme un permanent, un militant.» Ao que Marylin, e com razão, dispara logo: «Un permanent ou un militant?» Ou seja: «Esse tipo, conheço-o de vista. Era funcionário do partido, um militante.» A própria hesitação da personagem autorizava o tradutor a verter assim: «Esse tipo, conheço-o de vista. Era, sei lá, funcionário do partido, militante.» E, claro, a pergunta de Marylin só podia traduzir-se assim: «Funcionário ou militante?» Tudo isto, Karim Vieira Mesmoudi, porque permanent, no contexto, é clarissimamente o «membre d’un parti, d’un syndicat, etc., rémunéré pour se consacrer entièrement à son organisation», como se lê no Larousse ou em qualquer dicionário de francês.
[Texto 22 793]

Definição: «mostrador»

Não só «objectos», Porto Editora


      «Importou alguma vez aos juristas, aos mandões, aos donos desta terra escravizada que órfãos, como este mocinho que, para irrisão do seu olho mirmidónico, havia de representar um dos próceres da casa lusitana, olhassem alguma vez para o mostrador dos padeiros, sem vintém para comprar um pão?» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 212-13).

[Texto 22 792]

Léxico: «criptógrafo»

E o aparelho?


      Na quarta-feira, na RTP2, vi um magnífico programa (As Cartas Secretas de Maria, Rainha dos Escoceses) sobre três criptoanalistas, especialistas em descodificação que conseguiram finalmente, em 2023, decifrar a correspondência secreta de Maria Stuart, rainha da Escócia (1542-1587). Eram George Lasry, um cientista francês da computação, que coordenou a equipa, o músico neerlandês Norbert Biermann e o astrofísico japonês Satoshi Tomokiyo. É, contudo, o termo mais geral, «criptógrafo», que abrange o que trabalha em criptografia, incluindo concepção, aplicação e análise, que queremos definir melhor, tanto mais que nos nossos dicionários anda amputado de uma acepção, o que fazemos propondo ➜ criptógrafo 1. pessoa especializada em criptografia, que concebe, aplica ou analisa métodos de cifra e de protecção da informação sensível, assegurando a sua confidencialidade, integridade ou autenticidade; 2. aparelho ou sistema que cifra ou decifra mensagens, historicamente mecânico e hoje predominantemente informático.

[Texto 22 791]

Definição: «cisura de Sílvio»

Grande, enorme, imperdoável


      «Tenho uma dúvida: cisura ou cissura?», escreve-me um leitor. E prossegue: «Vou à Infopédia e fico perdido... Num sítio, no Dicionário de Termos Médicos, diz que “cisura” é uma fenda, fissura ou sulco. Mostra mesmo vários exemplos, mas não a de Sílvio. Encontro depois a “cissura” e diz que é uma fenda, mas, ó céus, diz que a de Sílvio também é chamada aqueduto do mesmo! Indo a “aqueduto”, encontro o de Sílvio corretamente definido, embora nos Termos Médicos o Sílvio passe a Sylvius.» 

     Vamos com calma, afinal só temos aqui três erros, ou, vá, dois erros e uma má opção. É verdade que estamos perante dois dicionários, mas da mesma editora, na mesma plataforma. A primeira harmonização devia ser ortográfica: eu esqueceria «Sylvius». (Já basta termos uma Rua Sylvio Ribeiro, de que não guardo boas memórias.) No dicionário geral, redigiria assim a definição ➜ cisura de Sílvio ANATOMIA sulco profundo da superfície lateral de cada hemisfério cerebral que separa o lobo temporal dos lobos frontal e parietal; também designada fissura lateral. 

      Com isto, optaria pela variante «cisura», hoje em dia predominante; corrigia o erro de afirmar que se situa no hemisfério esquerdo, quando é nos dois, e eliminava o grande, enorme, imperdoável erro de a dar como sinónimo de «aqueduto de Sílvio».

[Texto 22 790]

Léxico: «culinarista»

Na calha das prometidas


      «A Mercearia Gadanha entrou para os recomendados do Guia Michelin, ganhou dois sóis da Repsol no ano passado e há três anos, a chef recebeu o prêmio de Cozinha Tradicional Portuguesa Maria de Lurdes Modesto, dado pela Academia Portuguesa de Gastronomia. “Foi muito importante, por todo o respeito que existe em torno desta mulher, que tanto fez pela cozinha portuguesa”, diz [Michele Marques], referindo-se à culinarista, escritora e pesquisadora falecida em 2021» («Chefs brasileiras reforçam festival protagonizado por mulheres da gastronomia», Gisele Rech, Público, 10.04.2026, 8h16).

[Texto 22 789]

Definição: «anti-semitismo»

Uma reformulação necessária


      Honestamente, não vislumbro um só argumento ponderoso para se manterem, como faz a Porto Editora, duas acepções na definição de «anti-semitismo»: «1. ódio, antipatia ou aversão aos Judeus enquanto grupo étnico e religioso; 2. doutrina ou prática que promove hostilidade, perseguição, discriminação, preconceito e/ou violência contra judeus, em virtude da sua identidade étnica e/ou religiosa». Poderia porventura afirmar-se que procede a uma distinção entre plano psicológico e plano ideológico-prático, defendendo-se que «ódio/aversão» (acepção 1) pertence ao domínio das atitudes individuais, ao passo que «doutrina ou prática» (acepção 2) pertence ao domínio das construções colectivas e institucionais. O problema é que essa distinção não é semântica no sentido forte (não são dois significados diferentes), mas apenas duas manifestações do mesmo conceito, e a própria acepção 2 já pressupõe a 1 (não há doutrina anti-semita sem a atitude subjacente). Assim, proponho uma só acepção, como vejo em muitos dicionários, que diga ➜ anti-semitismo SOCIOLOGIA, HISTÓRIA atitude, doutrina ou prática de hostilidade, preconceito, discriminação ou perseguição contra os judeus enquanto grupo étnico e/ou religioso, expressa de forma explícita ou implícita em manifestações discursivas ou materiais, com expressão histórica em diferentes contextos sociais e políticos.

[Texto 22 788]

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