O que se escreve por aí

Venham cá ver


      «Após vender o seu antigo palacete na Malveira da Serra, onde residiu nos últimos cinco anos, Alexandra Lencastre escolheu mudar-se para o Estoril, perto da Quinta da Marinha, onde já viveu anteriormente e onde continua a ter muitos amigos» («Alexandra Lencastre. Decide voltar a viver na zona do Estoril», Correio da Manhã, 9.04.2026, p. 35). 

      Então o Correio da Manhã, tão abelhudo, que parece saber sempre, não apenas o que aconteceu, como todos os jornais, mas até o que vai acontecer, como nenhum outro, agora afirma que a Quinta da Marinha é perto do Estoril? Ora bem: numa linha que acompanhe a costa, o Estoril está no ponto A e a Quinta da Marinha no ponto C, sendo que eu vivo no ponto B. Ora, para nordeste, pela costa, a cerca de 3,8 km, tenho o centro do Estoril; a noroeste, a cerca de 2,7 km, tenho a Quinta da Marinha. Perto? Mais: a Malveira da Serra está mais perto da Quinta da Marinha do que o Estoril.

[Texto 22 785]

Léxico: «brutos»

Porque é para leigos


      Segundo episódio de Na Sombra. On y retourne. César Casalonga e Le Major, os colaboradores mais próximos de Francœur, ficaram a saber que Benjamin Pinguet estava na lista do Club Haussmann, onde a candidatura festejou a vitória nas primárias, pelo que se dirigiram para a sala de audiovisuais da sede de candidatura para pedir as imagens: «Vous avez les rushs de la fête de la primaire? On peut les voir?» Nas legendas, estava assim: «Têm os brutos da festa das primárias? Podemos vê-los?» Assim, quase ninguém percebeu; se o tradutor/legendador, Karim Vieira Mesmoudi, optasse por «imagens em bruto»/«imagens não editadas», quase toda a gente compreenderia. Uma diferença mínima, e dá nisto: quase todos ou quase ninguém. Claro que «brutos», termo da gíria, está correcto, mas não era ali o seu lugar. 

      Assim, porque a Porto Editora não o regista, proponho ➜ brutos AUDIOVISUAL registos originais de imagem e som captados durante uma filmagem, ainda não montados nem editados; material em estado bruto, sem selecção nem tratamento posterior.

[Texto 22 784]

Léxico: «corrilório»

Correria, tropel de pessoas


      «Assim pôde aproveitar-se duma brecha e despedir no meio do corrilório de povo que acudia “ao matadouro”» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 356).

      Se não acolhermos nos dicionários estes termos, dentro de pouco ninguém conseguirá ler com total proveito estes autores. E temos de nos apressar.

[Texto 22 783]

Definição: «glúten»

Mais claro e informativo


      Há um aspecto da máxima importância omitido na definição de «glúten»: quanto mais cozido o pão estiver, menos glúten terá. Essa e outras melhorias levam-me a propor ➜ glúten mistura viscosa de proteínas de reserva (gliadina e glutenina) presente no endosperma de certos cereais, como o trigo, a cevada e o centeio, que forma uma rede proteica responsável pela elasticidade, coesão e retenção de gases nas massas panificáveis, determinando a sua textura; a sua proporção e estado influenciam o grau de firmeza ou maciez do pão, sofrendo desnaturação e degradação estrutural durante a cozedura; a ingestão pode provocar reacções adversas em indivíduos com intolerância ou doença celíaca.

[Texto 22 782]

Vejam se não erram também

Sô Josino sabia


      «Durante muitos anos, uma das principais ocupações daquele advogado aposentado [Josino Ismar de Conti Pereira] era ler os jornais à procura de erros. “Onde já se viu escrever ‘zona rural da cidade de...’? Cidade é a parte urbana do município, o certo é ‘zona rural do município’!”, esbravejava Ismar cada vez que encontrava um de seus erros prediletos. Outra diversão era ler dicionários aleatoriamente —o seu preferido era do professor Pasquale Cipro Neto, cuja coluna, quando publicada nesta Folha, era recortada e guardada cuidadosamente» («Escreveu em jornais do interior de SP por 65 anos», Fábio Grellet, Folha de S. Paulo, 17.05.2025, p. A42).

[Texto 22 781]

Definição: «salmão-do-atlântico»

Para perderem o norte


      «Seules 23 des 349 espèces de poissons migrateurs menacées font l’objet de strictes protections dans le cadre de la CMS. Il s’agit notamment de poissons-chats (Mékong, Amazone), de l’anguille européenne et de 19 espèces d’esturgeons – trois autres pourraient être prochainement ajoutés à la liste, dont l’esturgeon de la Baltique, en danger critique d’extinction. Le saumon d’Atlantique pourrait lui aussi bénéficier d’une protection de la CMS si ses populations ne parvenaient pas à rebondir en dépit des efforts de restauration de leurs routes migratoires, notamment en Irlande, France, Grande-Bretagne, Espagne et Portugal» («Près de 350 espèces sous surveillance», Denis Delbecq, Le Temps, 8.04.2026, p. 3). 

      Calha bem sabermos ler. Porto Editora, afinemos (para não ficarmos meramente por corrigir os dois «nortes» minúsculos) a definição, até para explicitar que é uma espécie migradora (sim, eu sei o que significa «anódromo»*), assim ➜ salmão-do-atlântico ICTIOLOGIA (Salmo salar) espécie de peixe anádromo e migradora da família Salmonídeos, distribuída pelo Atlântico Norte, que sobe os rios para desovar, ocorrendo em Portugal em alguns rios do Norte; apresenta corpo alongado, podendo atingir cerca de 1,5 m de comprimento, com pequena barbatana adiposa entre as barbatanas dorsal e caudal e manchas escuras na parte superior do corpo; carne rosada, muito apreciada comercialmente.

[Texto 22 780]


* É que «migrador» é um termo geral, ao passo que «anádromo» designa especificamente as espécies que vivem no mar e sobem os rios para se reproduzir, pelo que não há redundância entre ambos.


Etimologia: «região»

Para dizer um pouco mais


      «Certains élus voudraient que l’Alsace redevienne une région autonome. Le mot vient du verbe latin regere, qui signifie diriger» («Région», Étienne de Montety, Le Figaro, 8.04.2026, p. 33). 

      O mesmo é dizer que os dicionários, ao indicarem que «região» vem do latim regiōne-, «idem», pouco adiantam. Assim, proponho ➜ do latim regio, -onis, «direcção, linha traçada, território delimitado», e este de regere, «dirigir, governar; traçar em linha recta».

[Texto 22 779]

Léxico: «kernel | núcleo»

O sistema foi-se abaixo


      Na terça-feira, vi na RTP2 o primeiro episódio da série francesa Na Sombra (Dans L’Ombre), de Pierre Schoeller e Guillaume Senez. A primeira cena passa-se no 1.º de Dezembro de 2024 e decorre numa sala de guerra (aparece mesmo uma folha colada na porta: «War room»), onde uma equipa de informáticos e assessores acompanha o escrutínio para as primárias do Partido Conservador. Às tantas, o sistema vai-se abaixo. «On perd le kernel.» «Estamos sem kernel», diz um dos informáticos. E o termo inglês até aparece em itálico nas legendas, extraordinário. Infelizmente, apesar de ser um termo comum no campo da informática, não o vamos encontrar nos nossos dicionários. Não está na Infopédia, por exemplo. Encontramos lá, isso sim, o termo sinónimo português núcleo, muito menos usado: «INFORMÁTICA componente básico de um sistema operativo, que assegura a interacção desse sistema com outros programas e com o hardware do dispositivo». Só que «componente básico» é vago e pode induzir em erro: parece sugerir uma peça essencial do hardware (como o processador ou a memória), quando na verdade se trata da camada central de gestão do sistema operativo. 

      Assim, sugiro, com a recomendável remissão mútua, ➜ kernel/núcleo INFORMÁTICA parte central do sistema operativo que gere os recursos do sistema (memória, processos, dispositivos) e assegura a comunicação entre o hardware e o software

      Voltando às legendas, o tradutor/legendador, Karim Vieira Mesmoudi, devia ter optado por «núcleo» ou, até melhor: «O sistema foi-se abaixo.» Fidelidade como princípio absoluto, só nas relações conjugais e outras que tais, não na tradução.

[Texto 22 778]

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