Tensão no Parlamento

E na gramática

      José Rodrigues dos Santos no Telejornal de ontem: «Lígia, notas, Lígia, não se se me estás a ouvir, notas alguma relutância por parte da autoridade que está a fazer a segurança do Parlamento e também da polícia de choque em actuar por se tratarem de colegas de profissão?» Por quem é, José Rodrigues dos Santos, reveja-me lá esses conhecimentos de gramática.
[Texto 3565]

Ortografia: «pobre diabo»

Sim, mas no Brasil

      «Ainda por cima, as trapalhadas da investigação do assassinato — a direcção e a quantidade de tiros (dois, três, quatro, oito), a prisão de Oswald, um pobre-diabo a roçar o louco obsessivo, e a expeditiva liquidação de Oswald por um dono de um cabaré com ligações à Máfia — permitiam especulações sem fim e ajudavam a refulgir a nossa virtude democrática» («Símbolos», Vasco Pulido Valente, Público, 22.11.2013, p. 60).
      «Pobre-diabo», «pobres-diabos» é como se escreve no Brasil. O nosso pobre diabo, o indivíduo sem importância, tolo, não tem hífen.
[Texto 3564]

Léxico: «frésia»

Não a conhecem

      «Os gladíolos, as frésias e as dálias estavam ainda aprisionadas nos botões verdes, à espera de se abrirem, enquanto as begónias e as camélias terminavam o seu ciclo de florescimento» (Lição de Tango, Sveva Casati Modignani. Tradução de Regina Valente. Alfragide: Edições Asa, 2011, 3.ª ed., p. 213).
      Anda por aí há muito tempo nos livros, não apenas desde 2011, mas poucos são os dicionários que a conhecem.
[Texto 3563]

Tradução: «café littéraire»

Les gens de lettres

      Vivem em França, e por isso não fica mal terem um café littéraire, com estantes repletas de livros. Contudo, o conceito que eu tinha de café literário (como o tradutor verteu) era precisamente o que se lê no Trésor: «Café où se réunissent les gens de lettres». Ou seja, pode não ter sequer um livro, mas apenas um exemplar do Record ou do jornal preferido dos taxistas num canto do balcão. Traduzimos ainda assim por «café literário»? Não é ambíguo?
[Texto 3562]

Sobre «pulseira electrónica»

Tornozeleira eletrônica

      «Os mais mediáticos são os casos de José Oliveira Costa (ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Cavaco Silva), considerado o rosto da burla que lesou o Estado em quase 4 mil milhões de euros, e o de Duarte Lima (ex-líder parlamentar do PSD). Os dois integram um grupo de nove pessoas que, no âmbito das averiguações ao BPN/SLN, estiveram (alguns ainda estão) na cadeia e encontram-se, agora, em prisão preventiva com pulseira electrónica» («Supervisor impõe multa de 400 mil euros aos antigos donos do BPN», Cristina Ferreira, Público, 2.11.2013, p. 16).
      Não vimos nós quando os guardas prisionais tiraram a pulseira electrónica a George Wright, que estava em prisão domiciliária? Espera lá. Não era à volta de um pulso, mas à volta de um tornozelo. Ainda assim, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista: «pulseira electrónica: pulseira com um transmissor que possibilita detectar à distância e de forma permanente a localização da pessoa em cujo tornozelo foi aplicada». No Brasil, já encontraram a solução: «A PF (Polícia Federal) já adiantou que o parlamentar não terá escolta 24 horas em casa e deverá usar tornozeleira eletrônica» («Genoino deverá usar tornozeleira, diz PF», Metro Brasília, 21.11.2013, p. 3).
[Texto 3561]

Léxico: «estromboliano»

Ou ilhas Eólias

      «Segundo Erik Klemetti, geofísico da Universidade de Denison (EUA), citado pelo site noticioso Nature World News, esta mais recente erupção aconteceu na nova cratera sudeste do vulcão e foi classificada como sendo [sic] “estromboliana” — isto é, uma erupção de relativamente baixa intensidade (a palavra deriva do nome de um outro vulcão, situado na ilha de Stromboli, ao largo da Sicília)» («Última erupção do Etna: um autêntico fogo-de-artifício», Ana Gerschenfeld, Público, 21.11.2013, p. 33).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-a (e não fui eu que lá a pus): «que se refere ao vulcão Estrômboli, nas ilhas Líparas (Lipari), italianas, no mar Tirreno; do mesmo tipo eruptivo do vulcão Estrômboli».
      Líparas não conhecia; em Xavier Fernandes tinha lido ilhas Lipárias, que é também como se lê na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e é o que me ficou na mente. Isto dos dicionários... Ainda ontem um escritor me dizia: «Como é possível que no “Grande” e volumoso dicionário da Porto Editora falte “descaso”?» O que é curioso é que Cândido de Figueiredo o abona com uma citação de Filinto, embora não saiba o que significa: «inoportunidade?» É, ou foi, muito mais usado no Brasil.

[Texto 3560]

«Os Obamas e os Clintons»

Há quem aprenda

      «Os Obamas e os Clintons, os casais políticos mais poderosos da América, foram juntos ao cemitério de Arlington, em Washington, prestar homenagem ao Presidente John Fitzgerald Kennedy (JFK), morto a 22 de Novembro de 1963. [...] E ao mesmo tempo, a cerimónia em que Obamas e Clintons surgem juntos a homenagear Kennedy oferece a Hillary Clinton o que parece ser uma legitimidade de herdeira, num momento em que a especulação sobre a sua possível candidatura à presidência em 2006 está nos píncaros» («Dois Presidentes homenagearam Kennedy e... nomearam uma herdeira», Clara Barata, Público, 21.11.2013, p. 31).
[Texto 3559]

O dicionário da Academia das Ciências

Não é o único a dizê-lo

      «O fenómeno começou com a adopção de programas sem pés nem cabeça e perfeitamente desajustados nos seus conteúdos literários (preteridos em favor de relatórios, de reportagens e de coisas assim...), prosseguiu com essa iniciativa infeliz que foi o dicionário da Academia das Ciências (que deveria ter sido retirado da circulação no próprio dia do seu lançamento), agravou-se com a monstruosidade da TLEBS (que confunde insensatamente a investigação universitária e científica da língua com o seu ensino no primário e no secundário) e oxalá não se tenha tornado irreversível com os professores formados na convergência letal dessas sinistras metodologias. Serão eles capazes de se adaptar aos novos programas em tempo útil?» («Ainda o ensino do Português», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 20.1.2013, p. 54).
[Texto 3558]

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