Léxico: «irracionável»

Ai Weiwei

      «Mas numa entrevista por telefone à Reuters, o artista diz-se pessimista quanto ao êxito do recurso. “Todo o procedimento, até agora, todos os passos, foram ilegais e irracionáveis”, afirmou já depois do pagamento. “Não recebemos nenhuma explica- ção, por isso é muito difícil para nós esperar que o nosso pedido para uma revisão administrativa obtenha uma resposta razoável.”» («Ai Weiwei paga 930 mil euros para contestar crime fiscal», Público, 16.11.2011, p. 22).
      «The whole procedure, up till today, every step has been illegal and unreasonable», lê-se no texto da Reuters. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «irracionável» significa que não tem fundamento, irracional. Para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e o velho Morais não atesta nada de muito diferente, contudo, irracionável é apenas o que é contrário à boa razão; desarrazoado; insensato, louco.
[Texto 681]

Como se fala na rádio

A lenda do Pátio da Morte

      «Mas D. Lopo não tinha morrido ainda, e reunindo todas as forças que ainda possuía, ergueu-se a custo do chão e, com a espada, deferiu um golpe mortal a D. Alvim» (Mafalda Lopes da Costa, Histórias Assim Mesmo, 15.11.2011).
      Foi muita generosidade ter deferido, concedido um golpe mortal ao adversário, embora D. Alvim até preferisse, aposto, que o golpe fosse diferido. Está aqui o embrião de um exército invencível: Pedro Lomba a bramir o estandarte e Mafalda Lopes da Costa a deferir golpes.
[Texto 680]

Sobre «coevo»

E depois?

      Uma professora de História quis saber se podia usar o termo «coevo» (que, contudo, disse ser um «arcaísmo») numa construção como «estas pedras tumulares são coevas dos reis da nossa primeira dinastia». Quis saber — mas tinha as suas ideias. «Vendo bem», concluiu, «não, porque misturamos coisas com pessoas. Melhor será usar “contemporâneo”.» E depois?
      «Dominando sobre esses mesmos campos e olivais, coevos de tantas gerações anteriores, etc.», leio nas memórias de Luz Soriano. Está bem, Luz Soriano não é a melhor autoridade. Cá está: Alexandre Herculano nos Opúsculos: «Alli sempre os nossos bispos foram tidos em grande consideração: eram membros do tribunal de mathematica, um dos seis tribunaes coevos com a fundação da monarchia, empregados em altas commissões, etc.»
[Texto 679]

Tradução

Mito ou verdade?

      «Milhares de pessoas em traje de gala enchem cada um dos muitos clubes de Atenas. Os parques de estacionamento estão repletos de Porches [sic] e dentro dos recintos há empresários, financeiros, políticos. No fundo, segundo um taxista que espera à porta de um destes clubes, a actividade de todos eles é a mesma: lamoya. A palavra é intraduzível. Significa algo entre a economia paralela, negócios ilegais, criminalidade pura e uma atitude de promíscuo e arrogante desprezo perante os poderes públicos» («“O Governo grego dá grandes golpadas, nós damos pequenas”», Paulo Moura, Público, 13.11.2011, p. 14).
      Intraduzível, Paulo Moura? Veja lá, o nosso léxico não é assim tão pobre. Os anglo-saxónicos parece que não têm dúvidas em traduzir lamogio (λαμογιο) por «vigarista». E acresce que λαμόγια, ao que parece, tem origem no espanhol. Não ajudará a fazer luz?
[Texto 678]

«Revisora editorial»

Acontece que

      «Acontece que a revisora editorial do romance, a professora Teresa Toldy, fez no PÚBLICO declarações que não posso ignorar. Tenho o maior apreço pela professora Toldy, uma teóloga reputada que, com o seu olho clínico, muito me ajudou a afinar o romance. Mas temos um ponto de divergência relativamente a um conjunto de textos do Novo Testamento que eu considero fraudulentos e ela não» («Uma fraude é uma fraude, no século IV ou no século XXI», José Rodrigues dos Santos, Público, 13.11.2011, p. 52).
      Será que a Professora Teresa Toldy é mesmo revisora editorial? O que é um revisor editorial? Ou será antes revisora técnica? Por vezes, parece que o adjectivo que se lhe segue serve somente, ad cautelam, para distinguir de revisor da CP... Questões a debater.

[Texto 677]

Tradução: «high five»

Bate aí!

      E por ler agora aqui no Público a palavra agur [«adeus» em basco], lembrei-me de uma tradução do inglês. As personagens — que, é verdade, não eram dois compadres alentejanos — acabavam a despedir-se com «o high-five». Espremidos os miolos, não saiu nada português.
[Texto 676]

«Veronil»?

Estival, veraniço

      «O Outono estava veronil, com todas as consequências sociais benéficas do calor – da abundância de boa disposição, no foro psíquico, à boa exibição da abundância, em termos corporais. Ninguém, por isso, quis sentar-se no andar de baixo do autocarro turístico, cujo pavimento superior se encontrava atafulhado de visitantes» («Dedo em riste», Ricardo Garcia, Público, 13.11.2011, p. 43).
      Não é o povo que faz a língua? Ora cá está um elemento do povo — tanto que até viaja no 44 da Carris — a inventar uma palavra. Ah, não foi ele... Bem, mas já no começo de Outubro a tinha usado, quer mesmo divulgá-la.
[Texto 675]

Ortografia: «neoplatónico»

Nem em inglês é diferente

      «É um facto que alguns teólogos defendem que era comum na tradição filosófica da Antiguidade os discípulos de um filósofo escreverem textos e atribuí-los ao seu mestre. Mas, em defesa dessa tese, esses teólogos só conseguem dar um exemplo fundamentado, um texto do filósofo neo-platónico Iamblichus, que escreveu sobre os discípulos de Pitágoras: “É uma bela circunstância que eles remetem tudo para Pitágoras, dando aos trabalhos o nome dele”» («Uma fraude é uma fraude, no século IV ou no século XXI», José Rodrigues dos Santos, Público, 13.11.2011, p. 52).
[Texto 674]

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