Linguagem

Falecido mas não morto

      Humberto Werneck finge falar da prima Solange, mas é de si próprio que fala na crónica do Estadão do dia 6: «A prima — não é impossível que você se lembre dessa ave rara cujos cabelos não se tornam quebradiços, e sim “bifurcam nas extremidades” — frequenta o léxico como você e eu vamos a um brechó, no caso um brechó verbal. Nada a faz mais feliz do que topar no dicionário com alguma esquisitice que imediatamente possa recolher, livrar do pó e botar em uso, de preferência um hápax — palavra ou expressão que tenha aparecido apenas uma vez nos registros da língua. Exemplo de hápax? Vou perguntar à Solange, depois lhe digo. Talvez amaxofobia, que vem a ser, diz o Houaiss, o “medo mórbido de se encontrar ou viajar em qualquer veículo”. Ou alpondra — “cada uma das pedras que formam, de uma margem à outra de um rio, um caminho que pode ser percorrido a pé”. Literalmente, o caminho das pedras. Adivinha quem me ensinou tudo isso?» («Solange e seu brechó verbal», C10).
      Hápax, aqui em Portugal, só se for «brechó». O vocábulo parece provir de Belchior (estas derivações fonéticas do bom povo enternecem) nome do comerciante que abriu no Rio de Janeiro a primeira casa de compra e venda de roupas e objectos usados. Por derivação imprópria, passou depois a designar o negociante de roupas e objectos usados, mas também o proprietário de sebo (mais um brasileirismo para designar a livraria onde se compram e vendem livros usados). Por metonímia, é o próprio estabelecimento. Werneck continua dizendo que a prima Solange, ou seja, ele, «do alto de sua torrinha de marfim linguística, dispara sobre os predadores do idioma alguma pérola do professor Napoleão Mendes de Almeida, xiita-mor do vernáculo. Como seu mestre, “falecido, mas não morto”, a prima acredita que “a língua portuguesa no Brasil vem, desde o passamento de Ruy Barbosa, sendo tratada com incúria cada vez maior”». Faz lembrar o dito de Raquel de Queiroz, a primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras: «Somos imortais, mas não somos imorríveis».

[Post 4598]

«De debaixo», de novo

Para ficar bem assente

      Já aqui vimos esta questão. A repetição serve somente para mostrar que, sempre que é usado um verbo de movimento, pelo menos a dúvida não deixa de aflorar a mente de quem escreve: «“Tirar de baixo” ou “tirar de debaixo”?» E nada disto é novo.
      «Pegou nela e pôs-se a embalá-la, cantarolando na sua linguagem. A Didi retirou a cabeça de debaixo da asa e olhou para o macaco. Quando o viu a embalar a garrafa, ficou cheia de ciúmes e zangada» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 67-68). «— Onde está o barco? — disse João, olhando em volta. Não o viram. Só quando retiraram o Micky de debaixo da cama e que encontraram o barco. Ele não o tinha estragado. Apanhou três valentes acoites e a Didi três palmadas no bico» (idem, ibidem, p. 68). «Um ruído suspendeu-lhe de repente os pensamentos. Pousou o cachimbo e levantou-se, uma figura silenciosa, mesmo junto da coluna quebrada. Escutou. O ruído vinha de debaixo do chão, tinha a certeza» (idem, ibidem, pp. 201-2). «À noite, o Estrela dos Mares voltou a partir. Nem Jaime nem qualquer dos pequenos ouviu as máquinas começarem a trabalhar. A Didi acordou, retirou a cabeça de debaixo da asa e voltou a encolher-se» (idem, ibidem, p. 226).
[Post 4597]

Sobre «sereia»

Não o ser lendário

      «Subitamente a sereia do barco apitou muito alto por duas vezes» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 20).
      Eis outro termo que, nesta acepção, está a cair em desuso, se não caiu já. Sereia. Ora vejam o que se passa com o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Regista esta acepção, sim, mas de uma forma muito ínvia. Não será, decerto, a segunda acepção: «Física aparelho acústico usado para determinar a frequência de um som.» Passemos ao verbete de «sirene», a variante mais usada: «instrumento que produz um sinal sonoro de alarme ou de chamada», como primeira acepção, e «sereia», como segunda. Todavia, esta «sereia» só pode ser o tal aparelho acústico usado para determinar a frequência de um som. De «sirene» não há, como devia, nenhuma remissão para «sirena», mas fomos consultar o verbete desta variante. «Sirena» não tem definição, apenas uma remissão → sereia. Agora pergunto: quem tem a desfaçatez de afirmar que isto está bem feito?
[Post 4596]

Sobre «desafio»

Desafiante

      «— E ela vai sempre aos desafios da escola e farta-se de gritar, não é, João? — interpôs-se Maria da Luz» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 45).
      Qualquer jornalista da secção de desporto sabe que deve usar de vários sinónimos para «jogo» como forma de evitar repetições. Jogo, encontro, partida e desafio são os principais. A verdade, porém, é que a palavra «desafio», nesta acepção, está a ser pouco usada actualmente.
[Post 4595]

Tradução: «gangway»

Todos a bordo

      «— Anda por aí — informou Filipe. — Creio que em breve estaremos a navegar. Repara, estão a retirar as pontes. Vamos já partir!» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 21). «Os garotos riram-se ao ver um rapaz alto e desengonçado subir a prancha» (idem, ibidem, p. 42).
      Tanto num caso como no outro, no original foi empregada a mesma palavra: gangway. Aliás, até já vi este termo ser traduzido de outra forma: escada do costado (como se lê em A História do Mundo em 10 Capítulos e ½, Julian Barnes. Tradução de José Vieira de Lima. Lisboa: Quetzal, 1990). Agora a questão é: são sinónimas estas três formas, ponte, prancha e escada do costado, de traduzir o vocábulo inglês? Paulo Araujo, o nosso homem da Marinha, poderá dar uma achega. E podemos complicar se indagarmos da forma de traduzir as expressões inglesas quarter ladder ou stern ladder.
[Post 4594]

Tradução: «er»

Em português, sff

      «‘Er — who won at deck tennis?’ he said feebly» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 75). Hoje em dia, não é raro os tradutores deixarem por traduzir — como se interjeccionássemos assim! — esta interjeição inglesa que expressa hesitação. Há quarenta anos, não era assim: «— Aa... quem ganhou o ténis? — perguntou ele com voz sem timbre» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 70). Aa¹ não está dicionarizada como interjeição, ao contrário, por exemplo, de ahn, que também serve para revelar hesitação.

[Post 4593]


¹ Mas temos o substantivo (!) aa, que designa uma espécie de lava máfica (ferromagnesiana e de cor escura), de superfície áspera, desigual, com fragmentos irregulares, vocábulo porventura só conhecido de geólogos e cruzadistas.


«Mogataz/mogataces»

Substantivo masculino plural?

      Boa questão, caro C. L., mas, tanto quanto sei, em português o vocábulo só está dicionarizado no plural, mogataces. José Pedro Machado redigiu assim o verbete: «Soldados indígenas de cavalaria, que constituíam guarnição dos antigos presídios espanhóis, no Norte de África.» Em espanhol, contudo, regista-se o uso do singular, mogataz. A meu ver, pode usar-se legitimamente o singular.

[Post 4592]

Léxico: «mauriciano»

Outra lacuna

      Consultamos o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, e só encontramos «mauritano». É mais uma lacuna de quase todos os dicionários: a designação dada ao habitante ou natural da ilha Maurícia (ou Maurícias ou Maurício) não tem aqui acolhimento. É mauriciano, claro, mas também já vi ser usado «maurício».

[Post 4591]

Arquivo do blogue