Ortografia: «Álbion»

O acento da pérfida

      Cara Maria Luísa: há-de ser porque o termo já vem dos Romanos, e por isso sem acento, e um espanhol, Augustin Louis Marie de Ximénèz, que lhe acrescentou o qualificativo «pérfida», escreveu com outro acento. Em português, porém, só pode ser Álbion, esdrúxulo como outros vocábulos terminados em -ion: astérion, córion, obélion... (Sim, porque terminados em -on temos também vocábulos graves.) Por isso a vacilação Albion, Albión, Álbion.
[Post 4590]

Gentílico: «laurentino»

Agora Maputo

      Relativo a Maputo: maputense. E relativo a Lourenço Marques? Temos dois: lourenço-marquino e laurentino. Parece que este foi forjado por Humberto Avelar, professor do Liceu 5 de Outubro, agora Escola Secundária Josina Machel. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista o gentílico «laurentino».

[Post 4589]


Tradução: «accent»

Pronúncia peculiar

      «— Agradeço-lhe sinceramente, minha senhora — disse com um acento estrangeiro» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 19). «Passaram dois homens, que falavam com o peculiar sotaque dos naturais daquela região. Um deles era o que tinha informado Filipe acerca dos texugos. Cumprimentou-o, acenando com um braço» (idem, ibidem, p. 77). No primeiro caso, lemos no original «foreign accent»; no segundo, «broad accent of the countryside».
      Já tenho lido e ouvido a prevenção de que se não deve traduzir o inglês accent por «acento». Contudo, se é apenas para evitar que pareça má tradução, não é de seguir. Accent é «acento» e é «sotaque», e «acento» é «sotaque».

[Post 4588]


Como se escreve nos jornais

Ciudad cuna

      «Os primeiros disparos da maior intervenção internacional militar no mundo árabe desde a invasão do Iraque foram feitos por aviões franceses e destruíram tanques líbios na região de Bengasi, cidade-berço da rebelião contra o regime de Muammar Khadafi. Horas depois, navios e submarinos de guerra norte-americanos e britânicos disparavam 110 mísseis Tomahawk contra “20 alvos”, incluindo defesas aéreas e centros de comunicação, todos ao longo da costa» («Começou a Odisseia para derrotar Khadafi», Sofia Lorena, Público, 20.03.2011, p. 3).
      Decerto que haverá mais de uma opinião sobre o assunto, mas, para mim, aquela «cidade-berço» é algo completamente tolo e escusado.

[Post 4587]

«Se não/senão»

Os maiores e os menores

      Ora digam-me lá quem sabe escrever.
      «Quando o regimento mudou, e os deputados (da oposição, claro) adquiriram alguma iniciativa, Sócrates adoptou a regra de não responder às perguntas que não lhe convinham (dezenas, se não centenas delas). Quanto à populaça, como se sabe, nem se deu ao trabalho de revelar o estado do país, nem de explicar o que andava a fazer» («Agarrado ao poder?», Vasco Pulido Valente, Público, 19.03.2011, p. 48).
«Se a previsão não falhar, virão aí algumas dezenas, senão centenas de milhares de portugueses — os franceses de torna-viagem» (Os Apontamentos: Crónicas Políticas, José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 1998, p. 24).
«Os totalmente convertidos que se baptizaram e fizeram cristãos, não só se contaram a milhares, senão a milhões» (Sermões, P. António Vieira. Lisboa: Lello & Irmão, 1959, p. 391).


[Post 4586]

Dize, faze, traze...

Então, gramatize-se!

      «— João! Vê se consegues arranjar carne — um bom pedaço dela — e traze-ma cá!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 188).
      «Se o uso natural insiste no diz, guardem os gramáticos o dize para a ênfase ou para o... artificialismo. Gramatize-se definitivamente o “diz lá isso”, e não se esqueçam os filólogos de que já no latim a forma dic era vivedoira ao par de dice. O precedente exemplo do latim mostra ser caturrice anacrónica o rigor de só admitir o janota do dize. E quanto ao faz, ao lado de faze, e traz, ao par de traze, requeiro a mesma hospitalidade. O latim também aqui nos ensina a ser razoáveis (fac, face, trac, trace)» (Vasco Botelho de Amaral, Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 366)


[Post 4585]

«À última (da) hora»

É partícula de realce

      A propósito das expressões à última hora e à própria hora, escreveu Vasco Botelho de Amaral no Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português (Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 236): «Não resta dúvida que estas formas (sem da) são mais correctas, porém menos correntes. Inclusivamente os que prezam a gramática deixam fugir a dição preposicionada.» Terminava, contudo, afirmando que «quanto à sua correcção ou incorrecção, não se aflijam os gramáticos, não se impacientem os curiosos, nem se precipitem os indisciplinados: — o uso é soberano senhor que vai fazendo e desfazendo leis».

[Post 4584]



Falsos plurais

Dá-me o meu binóculo

      «— E ali está o caminho por onde nós viemos... a estrada — disse João. — Onde está o meu binóculo? Dá-mo, Dina. Ena! Com ele avisto milhas e milhas. Vejo como a estrada corre e serpenteia... o trânsito que passa por ela... os automóveis parecem aqueles brinquedos que nós tivemos. Filipe, dá uma vista de olhos com o binóculo» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, pp. 59-60).
      Já aqui falámos de outros falsos plurais. Este é o mais comum. É raríssimo ler ou ouvir no singular.

[Post 4583]

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