«A braços com»

Digam-lhe

      «O quinto maior sismo de que há memória na Terra, com uma magnitude de 8,9 graus na escala de Richter, seguido de um tsunami devastador, na sexta-feira, deixou o Japão também a braço com uma crise nuclear, principalmente na central de Fukushima 1,250 quilómetros a norte de Tóquio» («Crise nuclear no Japão não deverá ser igual ao acidente de Tchernobil», Teresa Firmino, Público, 15.03.2011, p. 4).
      Pois é, mas a locução é a braços com, ou seja, em confronto com, envolvido com. De uma maneira geral, os jornalistas não prezam tanto a língua que se dêem ao trabalho de consultar dicionários.

[Post 4566]

Tradução: «exciting»

Heavens!

      «It all sounded very exciting. They went round the ship, thrilled with everything» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 16). «Tudo parecia emocionante. Andaram por todo o barco, encantados com tudo» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 20).
      Se fosse agora traduzido, era inescapável: «exciting» seria «excitante». Na televisão, em todos os canais infantis, ouço constantemente a interjeição «Céus!». E há anos que não se assente de outra forma que não dizendo «certo». Há quem ache tudo isto normal, sobretudo assistentes universitários.

[Post 4565]

Modismos

Se me provarem que

      Já em 1969: «— Oh, o João fica contente logo que visiona qualquer coisa que lhe proporcione pássaros — comentou Maria da Luz a rir. — Ao pensar em Filipe, com a sua loucura por toda a espécie de bichos, e em João, com a sua paixão por pássaros, sinto-me contente por nós, raparigas, não termos paixões por qualquer outra coisa. Tia Lia, que belo plano o seu! Quando partimos?» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, 14).
      Já andou aí pelo ar este modismo de «visionar» em vez de «ver». Não, é claro, na acepção de entrever com dificuldade, pressentir, avaliar (também para esta temos sinónimos melhores), mas no sentido de examinar (um filme, diapositivo, etc.) num aparelho óptico. E o que diz o original? Isto, tão-somente: «‘Jack’s happy so long as he’s somewhere that will provide him with birds’, said Lucy-Ann with a laugh. ‘What with Philip whit his craze for all kinds of creatures, and Jack with his passion for birds, it’s a good thing we two girls haven’t got crazes for anything as well. Aunt Allie, it’s a wizard plan of yours. When do we go?’» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 9).

[Post 4564]

Tradução: «earwig»

Hum...

      «What about those earwigs you had once — that escaped out of the silly cage you made for them? Ugh! And that stag beetle that did tricks? And that—» (The Ship of Adventure, Enid Blyton. Macmillan Children’s Books, 2007, p. 4). Como teria sido traduzido aquele earwigs para português? Vamos ver. «— E aqueles fura-olhos que tiveste uma vez e fugiram da porcaria daquela gaiola que fizeste para eles? Ui! E aquele escaravelho que fazia habilidades? E aquele...» (A Aventura no Barco, Enid Blyton. Tradução de Maria Helena Mendes. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, pp. 10-11).
      Só queria chegar a isto: fico quase sempre de pé atrás, como revisor e como leitor, quando nas traduções aparecem nomes comuns de animais e de plantas. Earwig será mesmo fura-olhos? Este é o nome comum das libélulas. O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora regista como tradução de earwig «bicha-cadela». O Michaelis dá como equivalentes «forfícula» e «lacrainha», e comprovo no Dicionário Houaiss que «bicha-cadela» é a designação equivalente em Portugal para «lacrainha».

[Post 4563]

«Tsunami/maremoto»

Falha do Marquês de Pombal

      É digno dos tempos que se vivem, com a tecnologia de que se dispõe: no sábado, estranhava aqui que os dicionários, com excepção do Houaiss, não registassem o substantivo «camuflado». Hoje, segunda-feira, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa passou a acolhê-lo. Como adjectivo: «Mil. Diz-se de ou fardamento que pode ser usado para camuflagem em operações militares.» Como substantivo: «Peça de vestuário, geralmente em tons de verde e castanho, semelhante a esse fardamento militar.»
      Bem, mas não vim aqui ufanar-me de nada. Queria apenas reflectir sobre a necessidade de se usar «tsunami» em vez de «maremoto». «A zona de maior risco sísmico para Portugal está localizada a sul de Sagres, na denominada Falha do Marquês de Pombal, justamente porque foi ali que ocorreu o sismo de 1755, seguido de um maremoto, que hoje todos designamos como tsunami» (Gualter Ribeiro, Portugal em Directo, 14.03.2011). Tanto quanto pude pesquisar, ora se afirma categoricamente que são conceitos diferentes, ora que são sinónimos. D’Silvas Filho, que sugeriu a forma «sunâmi» (!), ouviu certa vez um sismólogo explicar (só não revelou o nome) a diferença entre tsunami e maremoto.

 [Post 4562]


TCIC: Ticão

Superjuiz no Ticão

      «Direcção-Geral ainda não terá pago um complemento ao magistrado por acumular o ‘ticão’ [Tribunal Central de Instrução Criminal] com a jurisdição militar» («Juiz sem parte do ordenado», C. R. L., Diário de Notícias, 14.03.2011, p. 28).
      De uma tiçoada precisava o jornalista (e de duas o revisor): então só por ser grande, um aumentativo, deixa de ser nome próprio? Ticão escrevem, e escrevem bem, a revista Sábado e o i. Quando os meus olhos pousaram na palavra, pensei que tivesse caído a cedilha ao pedaço de lenha ou de carvão aceso ou meio queimado. Invulgar, aqui, é somente a adjunção do sufixo de sentido aumentativo a um acrónimo.


[Post 4561]

O brasileirismo «virar»

Era só o que faltava

      Já aqui tinha dado conta deste facto: alguns jornalistas portugueses já não passam sem esta acepção brasileira do verbo «virar»: «Danny, Derrick, Albert e Carlos. Estes quatro homens não têm casa, nem um computador portátil... mas têm um perfil na rede social Twitter. Estão habituados a ser ignorados nas ruas de Nova Iorque, onde vivem, mas agora viraram estrelas da Internet, com milhares de pessoas a seguirem os seus passos no Twitter» («Eles não têm casa... mas têm Twitter!», Nuno Cardoso, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 71).
      Hoje encontrei outro brasileirismo, novo para mim, num excelente romance (não posso revelar, está no prelo) português: particular, no sentido de conversa reservada. Um governante português (um «líder», para todos perceberem) visitou Moçambique e fez questão de ter um particular com certo indivíduo.


[Post 4560]

Género de «Alhambra», de novo

Ora ainda bem

      Pronto, fomos ouvidos: «Álvaro Siza Vieira e o arquitecto Juan Domingo Santos venceram o concurso de ideias para um novo acesso ao Monumento da Alhambra, em Granada, Espanha. A proposta da dupla luso-espanhola, intitulada “Porta Nova”, sobrepôs-se a mais 40, originária de dez países, com vista à reorganização das zonas de bilheteiras e das áreas de espera destinada aos visitantes. O jurí, do Patronato da Alhambra, destacou a “sua relação paisagística com o entorno imediato, assim como a sua adequação aos objectivos do Plano Director da Alhambra”, refere o El Pais» («O encantamento de Siza», Cláudia Melo, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 67).
      (Sobre «entorno», ver aqui.)


[Post 4559]

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