«Colocar em causa»?

Mais um prego


      «Manuel Alegre publicou ontem no seu site (www.manuelalegre.com) uma cronologia detalhada sobre a forma como cumpriu o serviço militar, com o objectivo de esclarecer dúvidas que têm sido levantadas sobre a matéria. O candidato presidencial diz que não tem nada a esconder, “ao contrário dos cobardes que espalham calúnias a coberto do anonimato”, e vai “agir judicialmente” contra os que colocarem em causa a sua carreira militar» («Alegre processa quem coloca a sua carreira militar em causa», Luciano Alvarez, Público, 12.05.2010, p. 21).
      Quis saber se também o poeta já tinha cedido a esta moda aparvalhada de substituir o verbo pôr pelo verbo colocar, agora omnipresente, mas não, é mesmo inépcia do jornalista.

[Post 3445]

«Farisaísmo» ou «fariseísmo»?

Dá que pensar


      «Quem tem razão», pergunta-me o leitor e também revisor J. J. L., «aqui como noutras situações — os dicionários ou os falantes/escreventes? É que, dos quatro ou cinco dicionários que compulsei, nenhum regista a variante “fariseísmo”, de “fariseu”, e todos pelo contrário apontam “farisaísmo”, de “farisaico” — e eu próprio estaria mais tentado a concordar com a primeira…»
      Bem, o que me parece é que a forma farisaísmo, a única que os dicionários registam, é contra-intuitiva, pois de fariseu nunca a obteríamos. O que acontece é que farisaísmo se obteve a partir da forma radical farisa + ismo. É muito raro ouvir (talvez menos ler) a forma dicionarizada.

[Post 3444]

Tradução: «solicitor-general»

Sai disparate


      «Vários senadores republicanos, que no ano passado elogiaram a escolha de Elena Kagan para solicitor-general (a advogada que litiga no Supremo Tribunal em representação do Governo), já avisaram que este é um processo distinto, uma vez que as nomeações para o Supremo são vitalícias» («Obama escolhe mais uma mulher (que nunca foi juíza) para o Supremo Tribunal dos EUA», Rita Siza, Público, 11.05.2010, p. 23).
      Rita Siza não se atreveu a traduzir solicitor-general, e fez mal. O Diário de Notícias atreveu-se, e também fez mal, pois solicitor-general não é solicitadora-geral mas procuradora-geral, embora não corresponda à nossa figura com a mesma designação, pois é um alto funcionário do Departamento de Justiça norte-americano que representa a Administração no Supremo Tribunal.

[Post 3443]

Pronúncia: «ícone»

«I-cone»?!


      Na emissão de anteontem do programa Câmara Clara, Paula Moura Pinheiro e Mário Pereira, director do Palácio Nacional de Mafra (PNM), pronunciaram de uma forma um pouco estranha a palavra «ícone». Ora ouçam aqui (quase no final do 9.º minuto de gravação). Digam-me depois se é assim que a pronunciam. Vá-se lá saber porquê, as questões de pronúncia abespinham muito mais as pessoas do que as relativas à ortografia e outras. (No Forvo, a pronúncia, por uma falante brasileira, também não me convenceu.)

[Post 3442]

Léxico: «baia»

Xó, quietos!


      Antes, as baias serviam apenas para separar as cavalgaduras nas cavalariças. Agora, por extensão de sentido, esta palavra com origem no quimbundo também significa as grades móveis de protecção que vemos todos os dias nas ruas: «O Terreiro do Paço, em Lisboa, reabriu ontem, depois de no sábado terem sido retiradas as baias (protecções portáteis) que cercavam a praça» («Terreiro do Paço reabriu ontem», Diário de Notícias, 3.5.2010, p. 20). «Depois de a empresa ter retirado as baias de protecção no último sábado, fonte da Sociedade Frente Tejo garantiu à agência Lusa que as obras agora terminadas não tiveram “acréscimo de custos, nem derrapagens”» («Terreiro do Paço reabre sem “derrapagens”», M. C., Metro, 3.5.2010, p. 5).

[Post 3441]

Concílio/consílio

Não para mim


      Cara Luísa Pinto: sempre vi «consílio» e não «concílio», e a explicação é simples: é o vocábulo que Camões usa na estância 20 do Canto I de Os Lusíadas: «Quando os Deuses no Olimpo luminoso,/Onde o governo está da humana gente,/Se juntam em consílio glorioso,/Sobre as cousas futuras do Oriente./Pisando o cristalino Céu fermoso,/Vêm pela Via Láctea juntamente,/Convocados, da parte de Tonante,/Pelo neto gentil do velho Atlante.» Assim, devemos identificar esse episódio como Consílio dos Deuses e não Concílio dos Deuses. Está nos dicionários: consílio é a «assembleia, reunião, comissão, conselho». Concílio sempre se reservou para denominar a reunião de autoridades da Igreja, convocada ou autorizada pelo papa, com o fim de tratar de assuntos relativos à fé, à moral e à disciplina. E, se há dicionários, como o Houaiss, que registam como acepção por extensão de sentido «conselho, assembleia, reunião», devemos evitar referi-la ao episódio da epopeia camoniana. É por isso que lamento que o «livro de apoio didáctico» Para uma Leitura de Os Lusíadas de Luís de Camões, de Silvério Benedito (Queluz de Baixo: Editorial Presença, 4.ª ed., 2008, p. 94), tenha vindo legitimar essa confusão, afirmando «Concílio (ou Consílio) dos deuses no Olimpo».

[Post 3440]

Léxico: «desgravar»

Está mal


      «Este tipo de software [como o Verbatim]», afirmou o jornalista António Granado na emissão de hoje do programa Este Tempo, na Antena 1, «este tipo de desenvolvimentos que estão a ser feitos para que o computador entenda a linguagem humana pode trazer coisas muito interessantes, como, por exemplo, uma questão que, digamos, seria aquilo que todos os jornalistas um dia gostariam que acontecesse, que é, por exemplo, haver algum programa que nos desgravasse as entrevistas.»
      Desgravar, no sentido de passar para escrito uma gravação feita em suporte magnético ou digital, é termo da gíria jornalística que apenas o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista. O jornalista não deveria ter usado o termo. Só António Macedo, já António Granado se tinha ido embora, percebeu isso, tendo explicado o significado.

[Post 3439]

Léxico: «pluma»

Lanças na mão, a pluma ao vento


      «O céu da Itália permanece hoje coberto com a nuvem de cinzas, pelo que as autoridades temem que surjam problemas no tráfego aéreo. “Toda a Itália está apanhada pela pluma”, referiu ontem o meteorologista Emídio Sancho» («Cinzas ameaçam viagem do Papa», J. S., Correio da Manhã, 9.5.2010, p. 8).
      O Eyjafjallajökull — e os jornais começaram a grafar correctamente o nome — continua a preocupar toda a Europa. Não é a primeira vez que leio, relacionada com este mesmo vulcão, a palavra pluma, de que nenhum dicionário regista a acepção aqui usada. Parece-me ser mera tradução do inglês plume: «an elongated and usually open and mobile column or band (as of smoke, exhaust gases, or blowing snow)» (in Merriam-Webster). É isso mesmo: nós não dizemos «coluna»?

[Post 3438]

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