A moda dos «clusters»

No fundo, um grupinho

      «Fontes das construtoras Alstrom, Bombardier e CAF, bem como de empresas ligadas ao cluster da indústria de alta velocidade — contactadas pelo PÚBLICO durante o congresso da União Internacional dos Transportes Públicos (UITP), que se realizou esta semana em Viena (Áustria) — foram unânimes em afirmar que não será possível ter comboios prontos a circular em 2013, mesmo que o Governo lançasse hoje mesmo o concurso público para a aquisição de material circulante» («Portugal sem comboios TGV para arrancar com a linha Lisboa-Madrid em 2013», Carlos Cipriano, Público, 12.06.2009, p. 22). Ainda ontem a ministra da Saúde, Ana Jorge, falava em clusters: «Logo que as situações de gripe, o número de casos começa a aumentar, e o facto de ter aparecido numa escola um grupinho, que no fundo nós chamamos um cluster, de ter acontecido ali, essas podem, se não tomarmos as tais medidas de contenção, transmitir às outras pessoas.» É uma frase demasiado ziguezagueante, não é? O problema, porém, é o uso desnecessário do estrangeirismo. Ainda assim, a ministra teve o cuidado de explicar do que se tratava. O jornalista, pelo contrário, limitou-se a usar o termo sem ter os mesmos cuidados.
      No que respeita à indústria, e segundo Michael E. Porter (Competição, On competition, Estratégias Competitivas Essenciais. Rio de Janeiro: Campus, 1999, p. 211), um aglomerado ou cluster «é um agrupamento geograficamente concentrado de empresas inter-relacionadas e instituições correlatas numa determinada área, vinculadas por elementos comuns e complementares».

Verbo «colocar»

É assim mesmo

      «Um dos juízes de Braga que condenou o ucraniano, alegando sentir-se afectado na sua imagem profissional, colocou-lhe um processo judicial» («Aumentam arguidos estrangeiros, sobem despesas de tradução nos tribunais», Paula Torres de Carvalho, Público, 12.06.2009, p. 11). Nada mais errado. Senhora jornalista, deixe lá o verbo colocar em paz! Escreva: «moveu-lhe um processo judicial», «interpôs um processo judicial». Este uso anómalo do verbo colocar revela uma pobreza lexical subfranciscana, indigna de um jornalista.

Ortografia: «abstemia»

Propugnáculo

      «Estabelecimentos coloridos e muitas vezes icónicos, que conseguiram sobreviver a guerras civis, à severa abstémia vitoriana e a histórias de estarem assombrados, estão crescentemente a render-se às forças do mercado moderno, aos impostos mais elevados e à mudança de estilos de vida» («Os ingleses podem viver sem os “pubs”?», Henry Chu, Pública, 21.09.2009, p. 34). Não foi o pobre Henry Chu, que só saberá inglês e umas palavritas de mandarim, que assim escreveu, mas a tradutora portuguesa (Rita Veiga/Dito e Certo). Chu escreveu: «Colorful and often iconic establishments that managed to survive civil wars, frowning Victorian teetotalism and tales of being haunted are increasingly buckling under to modern market forces, higher taxes and lifestyle changes» («English villagers try to save struggling pubs», Los Angeles Times, 9.06.2009). Há abstémios e abstémias — mas todos propugnam a abstemia. Mas sei que há dicionários — hic, hic! — que registam a grafia abstémia.

Topónimo: Pedralvas


Apressados

      Já aqui disse que da janela da minha sala vejo Monsanto. Alguns jornalistas de aviário dizem que é «o Monsanto». Agora, com o caso das cinco crianças do externato de Lisboa que contraíram gripe A, ouve-se com grande frequência, na rádio e na televisão, que o colégio se situa na Pedralva. Aqui em Benfica são as Pedralvas, e só jornalistas desleixados não verificam o que escrevem. Tomou o nome da antiga Quinta das Pedralvas, doada pela proprietária no início da década de 1970 à Câmara Municipal de Lisboa com a condição de os terrenos serem utilizados para habitação e fins sociais. A habitação está à vista, quanto aos fins sociais, só se forem as hortas arrasadas pelas retroescavadoras para construírem a CRIL.
      Curiosamente, são dois casos de topónimos compostos por aglutinação: monte + santo e pedra + alvas, respectivamente. Em Minas Gerais, no Brasil, é que há um município chamado Pedralva. Até 1941, chamava-se Pedra Branca de Santa Catarina, pois na serra que divide este município do de Natércia abundam pedras muito brancas.

Ortografia: «calças-tubo»

Ver-se em calças pardas

      «Ele [Pep Guardiola] gosta de usar cabelo curto — aconselhável a quem cedo chegam as “entradas” — calças-tubo e gravata fininha, tudo de cores sóbrias que revelam a paixão pela vida mas sobretudo pela elegância e pelo comedimento» («Hugo Boss, Armani e gravatas fininhas», Leonor Moreira, Notícias Sábado, 6.06.2009, p. 28). É mais provável terem já lido sem hífen, «calças tubo», mas correcto é com hífen. Calças-tubo são as calças justas em baixo. Foi na década de 1960 que o estilista francês, engenheiro civil de formação, André Courrèges (n. 1923) lançou esta moda feminina, o pantalon tube, depois adoptada também pelos homens. O inglês ficou a perder, pois é mais longa a expressão: tube-shaped trousers. E a propósito deste estilista também ter usado o corte em viés (isto é, contra o fio do tecido) nas calças, lembrei-me das calças de ganga com costuras torcidas: «E é o caso da Levi’s Engineered Jeans, um modelo da conhecida marca de calças de ganga com as costuras torcidas (twisted), que se inspirou no estilo suburbano do “Black Label Bicycle Club” (organização internacional de praticantes de saltos e duelos com bicicletas)» («Calças das costuras tortas promovem arte», P. B., Diário de Notícias, 26.05.2009, p. 47).

Concordância

Não ouviu mal, não

      A expressão era human decision making, que o tradutor entendeu traduzir por «tomada de decisões humanas». Faz lembrar a expressão (deturpada diariamente, ainda anteontem a ouvi na Antena 1, por político e jornalistas) «armas de arremesso político». Como analisou com perspicácia Adriana Freire Nogueira no seu A Senhora Sócrates, «arremesso é o determinativo de armas e são elas que indicam o género e o número do eventual adjectivo ou o número do verbo». «Portanto, se haveria de haver uma concordância era com armas e não com arremesso.» Logo, armas de arremesso políticas. Logo, tomada de decisões humana. E, noutra ordem, para ver como está correcto: armas políticas de arremesso e tomada humana de decisões.

«Arrebatar», de novo

O licitador arrebatado

      «“The successful bidder can be proud to know that the 1973 Airbag Chevy Impala appeared on national television and at government hearings, and served as a catalyst for encouraging the mass adoption of airbags that have saved countless lives”» («Bonhams Brings World’s First Production “Airbag” Car to Greenwich in June», in www.bonhams.com). Como é que acham que na imprensa portuguesa se traduziu aquele bidder usando um verbo? Arrebatar, muito bem, já pensam como alguns jornalistas — mal. «“Por outro lado, quem arrebatar este artigo tornar-se-á o proprietário de um veículo que apareceu na televisão e foi o tema de debates governamentais, bem como um dos catalisadores da adopção dos airbags pela generalidade dos produtores automóveis”» («Um automóvel que marcou a história», Luís Filipe Rodrigues, Notícias Sábado, 6.06.2009, p. 70). A tontice está a alastrar.

O elemento «contra-»

É mais UNC

      «Dois agentes da PSP de Lisboa foram presos na última semana pela Unidade Contra-Terrorismo da Judiciária, suspeitos de terem roubado dez quilos de ouro a um empresário, na zona de Queluz, e 230 mil euros em dinheiro, em Braga, a um construtor civil» («PSP presos por roubo de ouro e dinheiro», H. M., Correio da Manhã, 5.07.2009, p. 14). Bem, em francês sim: Réseaux de coordination du contre-terrorisme et d’information sur la santé (RCCIS). Já aqui sugeri mais de uma vez: se a designação é incorrecta, devemos corrigi-la. Neste caso, o elemento de formação de palavras contra- solda-se ao elemento seguinte, como em «contratorpedeiro», por exemplo. Na página da Internet da Polícia Judiciária lá está: «A Unidade Nacional Contra-Terrorismo, designada abreviadamente pela sigla UNCT». E a propósito: raramente vejo bem escrito o advérbio contranatura: ora aparece grafado «contra-natura» (como neste texto de Daniel Oliveira) ora «contra natura». O primeiro, já vimos, é incorrecto; o segundo é puro latim, e, sendo assim, grafe-se em itálico. Contra natura é expressão latina que significa «contra a Natureza». Voltando à PJ, devia ser Unidade de Contraterrorismo ou Unidade contra o Terrorismo, porventura melhor português. E ainda melhor: Unidade de Combate ao Terrorismo.

Actualização em 15.11.2009

      «McChrystal assumiu o comando em 2003, no início da guerra no Iraque, e quando o país entrou numa espiral de violência sectária e atentados a unidade liderou as operações de contraterrorismo, em colaboração com a CIA e outras agências de informação» («McChrystal, o guerreiro furtivo que quer ganhar o Afeganistão», Ana Fonseca Pereira, Público, 15.11.2009, p. 18).

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