Léxico: «procedural»

Mais um

«Os procedurals, esse subgénero das séries que parece reproduzir-se como coelhos, estão para ficar no ecossistema televisivo. […] Os procedurals (género que se foca na investigação de um acontecimento — clínico, policial ou judicial) e a audiência mais velha eram tradicionalmente as armas e alvos do canal [CBS]» («É sempre bom saber que os bons continuam a ganhar», Joana Amaral Cardoso, Público/P2, 12.05.2009, p. 9). Em inglês, procedural é um adjectivo e não significa mais do que «procedimental; por procedimento». O Merriam-Webster Online Dictionary regista a locução police procedural, dizendo ter sido registada na língua inglesa pela primeira vez em 1967 e significando «a mystery story written from the point of view of the police investigating the crime».

Explicar estrangeirismos

Toma!

«Curioso é o facto de no rol dos produtos mais consumidos pelas famílias cocooning (encasulamento) constarem os preservativos masculinos e femininos» («Famílias poupadas», Ana Fonseca, Notícias Sábado, 9.05.2009, p. 8). As explicações são para quem sabe ou para quem não sabe? Pergunta parva, hã? Então também a explicação é parva. Cara Ana Fonseca, deveria ter escrito «encasulamento, ou preferência por uma vida caseira», por exemplo.

«Tigres Tâmiles», de novo

Parabéns

Pode ter sido por distracção, mas no jornal Público escrevem Tigres Tâmiles. Ora leiam: «Os Tigres Tâmiles falaram de um cenário em que tinham morrido “mais de dois mil civis inocentes durante o fim-de-semana, e culpam o Governo por ter disparado contras as pessoas que o movimento tem mantido reféns durante meses, numa tentativa de última hora de tentar obter pressão internacional para uma trégua que evite a derrota» («Banho de sangue confirmado no Nordeste do Sri Lanka», Público, 12.05.2009, p. 12). Tirando a «tentativa de última hora de tentar obter», está quase perfeito.

Actualização a 15.05.2009

Afinal, parece que não é distracção: «Mais de dois mil civis conseguiram fugir aos combates entre o Exército e os Tigres Tâmiles, em curso numa estreita faixa arenosa, na costa do Nordeste do Sri Lanka» («Dois mil passam lago para fugir à guerra», Público, 15.05.2009, p. 20).

Aportuguesamento: «xerpa»

Porque não?

«À cabeça do grupo, Garcia desfia os segredos que o fizeram conquistar uma mão-cheia dos mais altos cumes dos Himalaias, de como prefere treinar-se entre os xerpas, o povo da montanha» («Nos Himalaias com João Garcia», Tiago Salazar, Notícias Sábado, 9.05.2009, p. 19). O Dicionário Houaiss regista este aportuguesamento de sherpa. E a propósito da sequência sh, que não existe em português, lembrei-me de outra palavra que se tem repetido por estes dias: Shoa ou Shoah, palavra que em iídiche significa «catástrofe». É, como se sabe, a palavra usada pelos judeus para se referirem ao Holocausto, pois este termo tem um significado literal que pode ser ofensivo para eles. Na imprensa portuguesa, vê-se também muito a grafia Shoá. Depois do acento agudo, só falta mesmo o x: Xoá.

O uso do apóstrofo


A propósito…



      Numa edição da semana passada do Diário do Minho, que já aqui passou pelo Assim Mesmo, li que se realizou na Universidade do Minho, nos dias 9 e 10 do corrente, a 6.ª edição do Congresso Internacional de Optometria e Ciências da Visão (CIOCV). O artigo, que não está assinado, assegura que «todo o programa do CIOCV’09 está pensado para proporcionar ao optometrista clínico mais e melhores competências para dar resposta aos desafios que se lhe colocam», convicção que não nos interessa. Mas quanto a «CIOCV’09»? Esta moda de usar o apóstrofo para suprimir metade da data ter-se-á tornado notória, entre nós, com a Exposição Mundial de Lisboa de 1998. Questionou-se então a adequação do uso deste sinal diacrítico para este fim e onde deveria ficar e se deveria haver espaçamento (Expo’ 98, Expo ‘98, Expo ‘ 98 ou Expo’98). Como se pode ver na imagem, oficialmente, grafou-se Expo’98. Há, é verdade, abreviação numérica como há abreviação vocabular. Até há uns anos, era relativamente vulgar ler-se e sobretudo ouvir-se referir datas omitindo a casa dos milhares. Alguém nascido em 1939, por exemplo, dizia que nascera em «939» (e pronunciava «nove, trinta e nove»). Na indicação das décadas, «década de 80», também há, de alguma maneira, abreviação. E, em qualquer dos casos, nunca se usa apóstrofo. Pela mesma ordem de ideias, creio que também se não deve usar nestes casos. Logo, eu escreveria CIOCV 09.


Actualização em 30.05.2009

      Afinal encontrei um exemplo em contrário: numa nota de António Sérgio às Odes Modernas de Antero de Quental: «Por via de regra, os liberais de todos os países da Europa interessaram-se pela causa da independência da Polónia, por ocasião das revoltas de 1830 e ’63» (Odes Modernas, Antero de Quental. Edição fac-símile da edição organizada, prefaciada e anotada por António Sérgio [1943], Sá da Costa Editora, 2009, p. 173). «Os radicais prepararam durante alguns anos um novo movimento insurreccional, que veio a rebentar em ’63» (p. 174).



Auxiliar «haver»

Último reduto

      Os falantes têm uma ideia mais ou menos clara de que o modelo mais utilizado na língua portuguesa para a formação de tempos compostos é ter + particípio passado e que o modelo haver + particípio passado tem um acentuado recorte literário e formal, sendo a diferença meramente estilística. Mais ainda, alguns saberão que este último modelo é muito usado na variante brasileira da língua. Contudo, nas traduções, por motivos que não são imediatamente claros, encontramos o último reduto, defendido por tradutores e revisores, desta construção. Numa obra que estou a ler, De Bom a Excelente, de Jim Collins (com tradução de Paulo Tiago Bento e revisão de Ayala Monteiro. 4.ª ed. Lisboa: Casa das Letras, 2008), são inúmeros os exemplos desta construção: «Smith, o advogado de modos suaves da empresa, não tinha muita certeza de que o conselho de administração houvesse feito a escolha certa — e essa dúvida foi reforçada no momento em que um dos directores falou com ele à parte e lhe lembrou que lhe faltavam algumas das qualificações necessárias à posição» (p. 39). «Voltámos a insistir, sublinhando que havíamos seleccionado as empresas bom para óptimo a partir de um desempenho que ultrapassava a média do sector» (p. 61). «Afinal, não havíamos encontrado provas de que as empresas bom para óptimo tivessem sido abençoadas com mais sorte (ou, no caso, com mais azar) do que as empresas de comparação» (p. 62). «Começámos então a reparar no padrão simétrico que apresentavam os executivos das empresas de comparação: eles atribuíam grande parte da culpa à sorte, lamentando-se frequentemente das circunstâncias que haviam encontrado» (p. 62). «Olhando para a evidência empírica, notámos que alguns dos líderes do nosso estudo haviam passado por experiências de vida significativas que talvez tenham iniciado ou estimulado o processo de maturação» (p. 66)…

Acordo Ortográfico

Equívocos lamentáveis

O escritor brasileiro Luiz Carlos Amorim esteve uns dias em Portugal e, já no Brasil, de Florianópolis, escreveu ao Diário de Notícias uma carta cheia de equívocos. Um excerto: «O que me chamou [a] atenção foi a não adesão dos portugueses, ainda, ao Acordo Ortográfico. A começar pela fala cotidiana, passando pela televisão e até nos jornais» («Acordo Ortográfico: reforma contestada», Luiz Carlos Amorim, Diário de Notícias, 11.05.2009, p. 7). Como é que um escritor pode estar tão desinformado e dizer tais tontices? Bem, não sei, e lamentável é que um jornal dito de referência deixe os seus leitores desnorteados com textos assim.
Que mudanças na fala — isto é, no discurso oral — esperava o escritor vir aqui encontrar? Talvez que andássemos todos a articular pernóstica e metodicamente os cc e os pp — para os podermos conservar na escrita! Como Fernando Venâncio escreveu no Aspirina B: «Se vamos passar a escrever só (mas também sempre) os «c» e os «p» que pronunciarmos, há uma forma muito simples de conservá-los: é passarmos a pronunciá-los sempre.
Até hoje, nunca pronunciei «espeCtadores», ou «caraCterística», como ouço tanta gente fazer. Pareceu-me parvoíce. Ah, como eu estava enganado!» («óPtimo, não é?», 26.01.2009). Por outro lado, valha-me Deus!, o escritor não se deu conta de que o Acordo Ortográfico ainda não entrou em vigor em Portugal?

«Bigle», «blogue»…

Dos cães e dos blogues     


      No centro da vida e obra de Charles Darwin, de quem se comemora este ano o bicentenário do nascimento, está o HMS Beagle (a que alguns alunos, já li, chamam caravela…). Ora nós temos a palavra «bigle». Na verdade, é um empréstimo linguístico do inglês beagle. Designa um galgo pequeno, utilizado na caça de coelhos e lebres. A adaptação fonética e gráfica seguida é comum a muitos outros empréstimos. É assim que a adaptação do neologismo e estrangeirismo blog é, muito naturalmente, blogue, como desde o primeiro momento preferi, usei e se vai impondo. Apraz-me ver que até um anglófilo como Miguel Esteves Cardoso usa o aportuguesamento «blogue»: «O que é desconcertante não é a devassa do sigilo bancário — se eles pudessem, transformavam todas as nossas contas em blogues que pudessem consultar quando quisessem —, mas a distinção entre indivíduos e empresas» («O bloco Vienneta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 22.04.2009, p. 31). O aportuguesamento, não tenho dúvidas, é o caminho para integrarmos vocábulos estrangeiros, habitualmente neologismos, na língua portuguesa.

Arquivo do blogue