Elemento «eco-»

In Diário de Notícias, 28.1.2009, p. 15

Antipedagógico



      Há alguns casos de designações de entidades e programas que não respeitam a ortografia. Pouco se pode fazer contra isso, excepto protestar, chamar a atenção dos responsáveis e não escrever da mesma maneira. Um exemplo é o do Programa Eco-Escolas, de que já aqui falei. Os jornais, como o Diário de Notícias, é que não deviam grafar assim, pois o elemento de composição eco- não se liga com hífen ao elemento seguinte. Logo, ecoescola. Como não deveriam escrever, por exemplo, Rede Europeia Anti-Pobreza.


Sobre «comercial»


Palavras cruzadas


      «Participa em todos os fóruns da TSF e da Antena 1 (pl.).» Com dez letras? Hum… Uma ajudinha: a acepção nem sequer está registada nos dicionários… Desistem? Comerciais. «E o António o que faz?» «Como?» «A sua profissão.» «Sou comercial.»
      É como afirmei: tanto quanto sei, nenhum dicionário regista esta acepção da palavra «comercial». E há centenas e centenas de profissionais que se dizem «comerciais». Será redução do inglês commercial traveler? Ou será por se deslocarem num comercial: automóvel ligeiro destinado ao transporte de mercadorias, também designado utilitário? Embora comercial tenha vindo substituir vendedor, categoria a que pertence caixeiro-viajante, e um comercial pode estar confortavelmente instalado num gabinete de uma empresa e não andar a percorrer o País.

Registos de língua

Uma ideia de ênfase


      A comentar o caso Freeport, ontem à noite na Sic Notícias, Luís Delgado estava tão bem instalado, tão relaxado, que já lhe saíam coisas como estas: o Serious Fraud Office «funciona à séria, funciona muita bem». Que terão a dizer, neste caso, os guardiões da lei ortográfica? Há infracção?

«O que ele é é…»

Agora que o diz…


      A questão da repetição do verbo fez-me lembrar de outra. Quem é que ainda nunca leu uma frase com a estrutura «O que ele é é…»? Por exemplo: «O que ele é é arrogante.» Quantas vezes é que tiveram a sorte de não verem ali uma virgulazinha entre as duas formas verbais, digam lá? Contar-se-ão pelos dedos. É mais um erro abundantíssimo. Vejo-o em livros, jornais e blogues.



Destacar prefixos

In-coerente?


      Caro C. T.: se é recorrente, tem de manter. Há-de ser, concorde ou discorde, estilo do autor. De contrário, deverá sugerir alteração. No século XVIII é que Filinto Elísio escrevia, para acentuar mais a ideia de negação, in-consolado, separando com hífen o prefixo da palavra, a fim de lhe dar mais relevo.

Acordo Ortográfico


Sem mais tardança


      Espero que não andem distraídos a ponto de não terem visto que o desportivo Record adoptou as regras (todas?) do Acordo Ortográfico de 1990. Fica uma amostra: a capa revela que já não temos selecção, mas seleção. É caso para dizer que vai correr menos tinta a propósito do futebol. E mais: «Em direto na Sport TV.» E ainda: o leitor ganha um cupão para um «filme de ação».

Verbos repetidos


Que estude


      Santo Deus! Mas onde é que essa gente aprendeu português? Pergunte-lhe, cara Luísa Pinto, se quer corrigir Camões: «Este [o dinheiro] a mais nobres faz fazer vilezas» (Os Lusíadas, Canto VIII, 98). Quando se tornam editores, pessoas assim são bem capazes de expurgar obras cimeiras destes «erros».

Uso de estrangeirismos


Assim não vamos lá
     


      «Em 2007, o GPIAA [Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves] recebeu 126 notificações de casos de bird strikes registados nos aeroportos portugueses. Só na Portela foram 51» («Pombais na Portela são ‘bateria antiaérea’», Global, 26.1.2009, p. 4). Por qualquer razão insondável, o jornalista achou que ficava bem usar aquela locução inglesa — sem a traduzir nem explicar. E para quê? Ainda que se designem daquela forma os incidentes de colisão de aves com aeronaves, não há motivo para usar a expressão inglesa, pois não se trata de um relatório científico, mas de uma notícia de um jornal lido maioritariamente por pessoas semianalfabetas que, tirando estes jornais gratuitos, só lêem os talões do Multibanco.

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