Tradução: «penny»

Um penny ou um péni?
O digno membro

      De facto, não me parece judicioso traduzir penny por «péni», em especial se no mesmo texto também ocorre o plural da palavra, pence. Se temos, e temos, de escrever «pence», não escrevamos ao lado «péni». E se, para agravar, no mesmo texto, se insinuar a designação para o membro viril — pénis —, os leitores não julgarão que estamos a ser ridiculamente puristas, mas só pela metade? Pence, péni e pénis? Poderá ser uma conjunção fatal.

Léxico contrastivo: «laranja»

Laranjas amargas

      «Uma nova lista com números de celulares e contas bancárias foi apreendida ontem em poder dos detentos do Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), em Aquiraz, Região Metropolitana. Segundo o supervisor do sistema penal, coronel Taumaturgo Granjeiro, que acompanhou a vistoria, o material seria usado para a prática de golpes como “seqüestro-virtual” e “número premiado”. Segundo ainda o supervisor, a lista será entregue ao Departamento de Inteligência da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) para rastreamento das contas bancárias e dos números telefônicos. A suspeita é que as contas estejam em nomes de “laranjas” e sejam usadas para os depósitos das vítimas dos golpes virtuais» («Lista para a prática de golpes é apreendida no IPPS», Nicolau Araújo, O Povo, 28.12.2007, p. 6). Na definição do Aulete Digital, «laranja» é a «pessoa que serve de intermediária em transacções financeiras fraudulentas, usando o próprio nome para ocultar a identidade de quem a contrata». É uma espécie de testa-de-ferro. Na primeira página, O Povo titula: «Polícia rastreia contas-laranja».
 

Selecção lexical

Erros e exageros

      «O 24horas apurou que foram encontradas no vestuário algumas impressões digitais que podem vir a ser importantes para esclarecer o mistério da identidade do grupo que bateu no jovem prelado de 38 anos, o deixou ao abandono no meio do monte e lhe destruiu o Mercedes» («‘Estava abatido, com o corpo todo dorido’», Pedro Emanuel Santos, 24 Horas, apud Global, 28.12.2007, p. 8). «Prelado»? Mas não é um mero pároco? O Livro de Estilo do Público bem previne: «[…] pode utilizar-se a palavra “prelado” para designar um bispo, nunca para referir um padre». Recorro à definição da Enciclopédia Católica Popular: «(Do lat. = superior). Nome da­do, na antiga sociedade romana, às auto­ri­dades civis. O seu uso entrou na gíria eclesiástica como título dado a quem na Igreja goza de maior autoridade no foro externo: Papa, cardeais, bispos e demais ordinários de lugar e mesmo superiores maiores de institutos, especialmente aba­des e abadessas (preladas). O anterior Código de Direito Canónico redu­ziu o uso deste título aos clérigos com jurisdição ordinária no foro externo e a quan­tos a Santa Sé o tenha concedido como título honorífico. O actual CDC reduz o título de prelado ao ordinário duma prelatura pessoal ou duma pre­la­tura territorial. Na linguagem corren­te, porém, continua a dar-se o nome de p. aos membros do chamado “alto cle­ro”, especialmente cardeais, patriarcas e bispos. Prelazia é a dignidade ou o ofício do p[relado].»
      Por outro lado, não será hiperbólico escrever que o automóvel foi destruído? É que ontem o mesmíssimo Global trazia um artigo do Jornal de Notícias em que se podia ler a legenda à imagem do automóvel do padre: «Uma janela do Mercedes do pároco António Aires foi partida pelos agressores».       
      Em que ficamos?
      E o curso de Português básico para jornalistas do Instituto Camões, já começou?

Regência de emboscar

Gramática e lógica

      «Continuam envoltas em mistério as razões da agressão de que foi vítima o pároco de Alijó, na noite de consoada, supostamente levada a cabo por um grupo de indivíduos que o emboscou, por volta da meia-noite, na estrada de montanha que liga Sanfins do Douro à vila de Alijó» («Padre agredido em silêncio com medo de represálias», Global, 26.12.2007, p. 8). Um grupo de indivíduos que «o emboscou»? Está certa, esta regência? No contexto, está completamente errada. Tal como foi redigida, a frase significa que os indivíduos embrenharam a vítima, o padre, numa zona de boiças, por exemplo. Ou então que o puseram de emboscada. Ora, o que o texto nos afiança é que apenas o deixaram amarrado a uma árvore. A frase saiu semanticamente embostelada, foi o que foi. Por outro lado, se o agredido não fala, como é que se pode afirmar que o silêncio se deve a medo de represálias? Se não fala, o que se diga sobre as razões é mera especulação.

Comunicação

Imagem: http://www.novabiotics.co.uk/
País de p(o)etas

      Prevendo porventura o adiamento da aprovação do Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico, e celebrando o facto, os Portugueses desunharam-se a enviar SMS. Bateram-se todos os recordes: perto de mil milhões de mensagens! É obra. Vão aparecer mais escritores, pela certa. Os CTT também já se apressaram a reclamar um recorde impossível de bater pela concorrência: distribuíram 8,5 milhões de cartas e encomendas só na véspera de Natal. Como uma me chegou precisamente nessa data, tendo a acreditar na estatística.

Léxico contrastivo: «cossoco»

Cossoco é naifa

      «Na madrugada de ontem, mais um preso foi morto no Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS), em Aquiraz. O preso Francisco Bibiano da Silva foi morto a golpes de cossoco (faca artesanal) e golpes de barra de ferro» («Preso é morto a golpes de cossoco», Marcos Cavalcante e Landry Pedrosa, O Povo, 26.12.2007, p. 9). Sim, cossoco, termo da gíria prisional brasileira, é uma arma branca artesanal, feita pelos próprios reclusos.

Tradução: «tannerie»

Curtumes

      Se queremos traduzir a palavra inglesa tannerie, recorrendo a uma riqueza vocabular que estamos habituados a ver elogiada na língua inglesa e ignorada ou desprezada na nossa própria língua, talvez seja melhor esquecer a solução fácil de verter como «oficina ou fábrica de curtumes» e usar, corajosamente, «tanaria» (cujo étimo é o francês tannerie: «établissement où l’on tanne les peaux»). Ou charola. Afinal, ainda que antigo, o termo existe na língua portuguesa. Em relação a curtumes, conheço mais alguns.

Baqueta f. Couro de bezerro ou vitela para calçado.
Barquino m. Pele de cabrito, preparada para conter e transportar água potável.
Cabrim m. Pele de cabra preparada, curtida.
Chagrém m. Couro granuloso, que se prepara ordinariamente com peles de jumento ou de macho.
Charola f. Pequena fábrica de curtumes.
Charoleiro m. Dono de fábrica de curtumes.
Cordovão m. Couro de cabra, curtido e preparado especialmente para calçado.
Correol m. Prov. alent. Fio, corda resistente, formado de finíssimas tiras de couro, cortadas e tecidas em fresco.
Cortim m. Substância extraída das cascas das árvores, que curte o couro; tanino.
Crónico m. Couro cru.
Enfuste m. Preparação com que se entumecem as peles.
Enoque m. Fábrica de curtumes.
Escabela f. Acto de arrancar os pêlos ao couro antes da curtimenta.
Escabelar, escabeleirar ou escabelizar v. Tirar, arrancar os pêlos aos couros durante a curtimenta.
Escarna f. Tecnol. Operação que consiste em escamar as peles dos animais antes do curtimento.
Escouçar v. Tirar às peles a água de cal que se lhes juntou para a escabela.
Espichadeira f. Mulher que, nas fábricas de peles, espicha os couros para secarem.
Fijola f. Tira de cabedal ponteada e que forma bolso em volta de duas peças de couro.
Garra f. Sola ou cabedal ruim, com pêlo.│2. Retalho de couro.
Grosa f. Faca de fio embotado, para descamar peles.
Grosador m. Ferro com que se raspam os couros na surragem.
Humada f. Prov. minh. Aguada de lixo de pombos, empregada na preparação de couros.
Lombeiro m. Couro do lombo de certos animais.
Lonca f. Bras. do S. Couro de que se raspou o pêlo.│m. pl. Tiras fininhas que se tiram do couro pelado e raspado, para fazer trançados.
Magis m. Espécie de couro empregado em sapataria.
Palissão m. Instrumento com que os cortadores abrem e amaciam as peles, depois de cortadas e secas.
Parruá m. Grande bastidor, em que os curtidores colocam as peles para se alisar o carnaz.
Romanadeira f. Instrumento constituído por um pedaço de madeira cuja face inferior é munida de caneluras ou revestida de cortiça e a superior revestida de uma tira de couro, por baixo da qual passa a mão do operário, para dar aos couros aspecto uniforme e agradável, depois de serem surrados.
Sura f. Nome dado a certas peles, ratadas ou incompletas, na indústria de curtumes.
Tafilete m. Marroquino fino que se fabricava em Marrocos.
Tagra f. Cada um dos bocados em que se divide um couro para curtir.
Tanado adj. Que tem aspecto de curtida.
Tanagem f. Acto de curtir, modo de curtir.│2. Curtimenta pelo tanino.
Tanante adj. Próprio para curtir.
Tanar v. O m. q. curtir.
Tanaria f. Ant. Fábrica de curtumes.
Tanoada f. Porção de tinta ou de peles preparada de uma só vez para curtimenta.
Tranquete m. Term. de Alcanena. Tanque pequeno para curtimento.
Vaqueta f. Couro delgado e macio, empregado principalmente em forros.

[Glossário em construção: 39 entradas]

Léxico contrastivo: «pleito»

Aqui é eleição

      «O último pleito estava marcado para o dia 22 de novembro, mas foi cancelado depois dos protestos maoístas exigindo que a monarquia fosse abolida imediatamente e que o sistema eleitoral fosse trocado para um sistema de representação plena» («Regime monárquico chega ao fim», Jornal do Brasil, 25.12.2007, p. A18). Os nossos pleitos são todos resolvidos em tribunal. Neste texto, é outra acepção de «pleito» que é usada: escolha de candidato para ocupar cargos públicos, postos ou desempenhar determinadas funções por meio de votação, ou seja, eleição. Pleito tem como étimo o particípio passado do verbo placere, placitum. Placere, de que provém igualmente o nosso «prazer», significa «agradar», «merecer a aprovação». Assim, placitum mantém a acepção de «o que foi aprovado», «o que foi determinado». Dies placitus, em latim, significa «o dia combinado». De placitum temos ainda «plácido» e «prazo».

Arquivo do blogue