Léxico: «fundo soberano»

Agora é que é


      «O primeiro-ministro anunciou a constituição de um fundo soberano para juntar e investir em empresas e sectores estratégicos, concentrando aquelas que estão dispersas actualmente por diversas entidades e integrando outras que sejam “estratégicas” e dêem retorno» («Fundo soberano avança quando Estado está a sair de empresas», Diogo Cavaleiro e Luís Villalobos, Público, 23.06.2026, p. 22). 
      Agora é que temos de explicar o que é um fundo soberano, não no futuro. Assim, proponho ➠ fundo soberano ECONOMIA fundo de investimento pertencente a um Estado, constituído por receitas públicas provenientes, nomeadamente, da exploração de recursos naturais, de excedentes orçamentais ou de privatizações, destinado a preservar e valorizar a riqueza pública mediante a aplicação de capitais em activos financeiros ou participações empresariais.

[Texto 23 209]

Como se escreve por aí

Faltam dois dias


      «A instituição ultra conservadora da Igreja Católica que ameaça desobedecer ao Papa e causar um cisma já na próxima quarta-feira está a crescer em Portugal e acaba de inaugurar uma nova igreja em Lisboa. No passado dia 10 junho, a Fraternidade Sacerdotal Pio X – é assim que se chama a instituição – abriu as portas de uma nova capela em Marvila, onde todos os dias há missas em latim e se reúnem os seguidores de Marcel Lefebvre, o arcebispo francês que se tornou no símbolo da versão mais tradicionalista da Igreja e que se opõe às reformas do Concílio do Vaticano II» («Igreja Católica. Tradicionalistas abrem cisma», Catarina Guerreiro, Nascer do Sol, 26.06.2026, 7h00). 
      Que maravilha, missas em latim. Agora é que vamos passar a ter católicos fervorosos e cultos. A jornalista também podia passar a frequentá-las, mas entretanto fica já a saber que se escreve «ultraconservador».

[Texto 23 208]

Léxico: «refervedouro»

É nossa, passem-na para cá


      «Era ali, de sol-nado a sol-pôr, o refervedouro das pretensões, enquanto a milícia de D. Miguel engrossava ou fazia semblante de engrossar» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 273). 
      Decerto, «de sol-nado a sol-pôr» — locução sinónima da muito mais comum «de sol a sol» — é muito interessante, e devemos fazê-la revivescer, sobretudo os tradutores, mas a que falta no dicionário da Porto Editora é «refervedouro», isto quando não está ausente do VOLP da Academia Brasileira de Letras. É o acto ou efeito de referver («o refervedoiro das águas em cachão»), diz a infalível Grande Enciclopédia Brasileira e Brasileira.

[Texto 23 207]

Léxico: «tropeçante»

É hoje


      «Depois a chinfrineira verbal a propósito de tudo e de nada, saias e pateadas no S. João, cavalos e bizarrias, versos e cacetadas, só acabava quando os carros da couve desciam tropeçantes, eixos a gemer um doce chi-hu-heru, das Carmelitas para o Bolhão» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 31).

[Texto 23 206]

Definição: «tubarão-branco»

Nada de alarmismos


      «Um grupo de mergulhadores voluntários deu de caras com um tubarão-branco, enquanto recolhiam redes de pesca no mar Mediterrâneo, e conseguiram captar imagens do encontro. [...] O tubarão-branco rondou os mergulhadores, antes de perder o interesse e afastar-se por completo. Ao contrário da imagem hollywoodesca que ganharam, estes animais não costumam ser particularmente agressivos com seres humanos, se não forem provocados» («Mergulhadores voluntários dão de caras com tubarão-branco no Mediterrâneo», João Malheiro, Rádio Renascença, 8.06.2026, 12h30). 
      Imagem hollywoodesca que é também a da Porto Editora: «ZOOLOGIA (Carcharodon carcharias) tubarão da família dos Lamnídeos, de grande porte, com corpo fusiforme, cinzento-claro, nadadeira caudal semilunar e dentes triangulares serrilhados, considerado o mais perigoso dos tubarões; anequim Brasil». 
      O mais perigoso dos tubarões... Quando os especialistas discutem o risco para os seres humanos, porque é disso que estamos a falar, costumam referir conjuntamente o tubarão-branco, o tubarão-tigre e o tubarão-touro como as três espécies mais associadas a ataques graves. Não há uma medida objectiva única que permita coroar uma delas como «a mais perigosa». O que há é informação mais objectiva e útil sobre esta espécie, isso sim, pelo que proponho ➠ tubarão-branco ZOOLOGIA (Carcharodon carcharias) espécie de tubarão da família dos Lamnídeos, distribuída por mares temperados e subtropicais de todo o mundo, de grande porte, com corpo fusiforme, dorso cinzento e ventre esbranquiçado, nadadeira caudal semilunar e dentes triangulares serrilhados; é um dos maiores peixes predadores actuais e uma das espécies de tubarão mais frequentemente associadas a ataques a seres humanos; anequim, Brasil.

[Texto 23 205]

Léxico: «ouriço-do-mar»

Mas esta é a mais conhecida!


      «É dentro da carapaça espinhosa do Paracentrotus lividus (a espécie dominante na costa portuguesa) que se encontra a sua parte comestível. Referimo-nos às gónadas, cinco “línguas” cor de laranja delicadas, com um sabor intenso a mar, que não são mais do que os seus órgãos reprodutores» («Ericeira. A picar», Visão, 30.04.2026, p. 86). 
      A Porto Editora apenas regista o termo genérico. Ora, quando uma espécie é simultaneamente a mais comum, a mais explorada gastronomicamente e a mais reconhecida pelo público, justifica-se plenamente a sua entrada no verbete principal. Assim, proponho ➠ ouriço-do-mar ZOOLOGIA (Paracentrotus lividus) espécie de equinoderme da família dos Equinídeos, comum na costa portuguesa, de corpo globoso, com diâmetro geralmente até cerca de 7-8 cm, coberto por espinhos curtos, densos e relativamente finos, de coloração variável (do arroxeado ao castanho ou esverdeado); vive em zonas rochosas pouco profundas, onde se fixa ao substrato e se alimenta sobretudo de algas; é valorizada gastronomicamente pelas gónadas comestíveis.

[Texto 23 204]

Léxico: «hiperdistensão | coloproctologista»

Importadas do sítio habitual


      «Acumular xixi pode causar uma hiperdistensão da bexiga, diz Riccetto. Segurar a vontade também aumenta o risco de infecção urinária. Em casos extremos, pode até causar danos aos rins, devido ao retorno da urina para o órgão. No caso do cocô, segurar a vontade pode aumentar as chances de doenças no ânus, como hemorroida. Pode ainda causar fissura, abscesso e até fístulas anais, explica a coloproctologista. “Tem que fazer cocô na hora que ele pede para sair”, reforça Segantini» («Não se deve segurar a vontade de fazer xixi e cocô», Nathalia Durval, Folha de S. Paulo, 27.05.2026, p. B16).

[Texto 23 203]

Definição: «neutrino»

Não está tudo bem


      «Os neutrinos são fantasmagóricos: têm uma massa ínfima, carga eléctrica nula e a sua interacção com a matéria é extremamente ténue (a gravidade, por exemplo, interage com mais vivacidade e nota-se). Mesmo sendo tremendamente abundantes, estas características tornam os neutrinos difíceis de detectar» («Mark Chen anda há uma vida atrás dos neutrinos para saber o que lhes dá massa», Tiago Ramalho, Público, 8.06.2026, p. 26). 
      Está mais que estabelecido, Porto Editora, que o neutrino tem massa, pequeníssima que seja, o que nos obriga a corrigir a definição. Assim, proponho ➠ neutrino FÍSICA partícula elementar, sem carga eléctrica, de spin 1/2, com massa ínfima e momento magnético quase nulo, cuja interacção com a matéria é muito fraca, que foi inicialmente postulada para explicar a deficiência de energia nas desintegrações beta, tendo hoje existência confirmada experimentalmente (tal como a sua antipartícula, o antineutrino) e de que existem três tipos distintos: de electrão, de muão e de tau.

[Texto 23 202]

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