Léxico: «pressuração»

Venha de lá ela


      «A Relação não se teria vendido, que nesta terra pataqueira nem os trinta dinheiros são necessários para que se cometa toda a sorte de falcatruas e preponderâncias. Bem certo que era notória a cumplicidade de Camilo. A prova judicial é porém outra coisa. Havia que deduzi-la. É fora de dúvida que houve de parte dos juízes uma pressuração mais que suspeita» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 371).

[Texto 23 201]

Definição: «biocarvão»

Mais actual que nunca


      «Biochar adds highly porous and contributes to aggregating soil particles, holding water, and creating a suitable environment for microorganisms» («Biochar offers a way to turn India’s farm smoke into ‘black gold’», Vinaya Kumar H. M. e Vikram Patil, The Hindu, 22.06.2026, p. II). 
      A definição actual da Porto Editora não reflecte características essenciais do biocarvão amplamente reconhecidas na literatura especializada, nomeadamente a sua elevada porosidade, a capacidade de aumentar a retenção de água e de favorecer a actividade microbiana do solo, bem como o seu papel no sequestro de carbono. E o artigo de divulgação científica é da autoria de Vinaya Kumar H. M., professor assistente da Keladi Shivappa Nayaka University of Agricultural and Horticultural Sciences, e de Vikram Patil, cientista do International Rice Research Institute, não de dois jornalistas. Assim, proponho ➠ biocarvão AGRONOMIA material carbonáceo poroso, rico em carbono, obtido por pirólise lenta de biomassa vegetal em ambiente com fraca ou nula presença de oxigénio, utilizado sobretudo como melhorador de solos, por aumentar a retenção de água e nutrientes e favorecer a actividade microbiana; contribui igualmente para o sequestro de carbono e pode ser usado como fonte de energia.

[Texto 23 200]

Léxico: «piraputanga»

Só o género é indiscutível


      «Escusais de perguntar ao activista ambiental Diego Saldanha se o rio desgraçado da sua infância, o asfixiado Atuba, dá piraputanga, o peixe bravo, difícil de pescar que havia no rio da infância de Manoel. Não dá. Hei-de perguntar ao senhor Miranda, o empregado de mesa brasileiro da Courense que tanto sabe de peixes, que coisas maravilhosas sabe do peixe vermelho cujo nome vem do tupi, do difícil que é pescá-lo. Talvez a conversa nos leve a um outro rio, o da sua infância» («O piraputanga do Atuba», Fernando Alves, TSF, 23.06.2026, 8h54). 
      Como já o tens na calha, Porto Editora, aqui vai ele, o piraputanga ZOOLOGIA designação comum de diversos peixes teleósteos do género Brycon, de corpo alongado e coloração geralmente prateada ou dourada com barbatanas avermelhadas, que habitam rios sul-americanos e se alimentam de frutos, sementes, flores e pequenos animais; algumas espécies distinguem-se pela capacidade de saltar para fora da água para capturar alimento na vegetação ribeirinha e pela resistência que oferecem à pesca.

[Texto 23 199]

Léxico: «retranca»

Muito usada no Brasil


      «O jornal reconheceu o problema com “Erramos” neste sábado (6): “Por uma falha técnica, o texto (...) foi publicado incorretamente. Em seu lugar, saiu um texto ‘Lorem Ipsum’, recurso do mercado editorial com palavras em latim para reservar espaço numa página que receberá o conteúdo de fato. O erro foi corrigido na versão digital da edição impressa”. O “lorem ipsum”, aliás, seria um pedaço de “dolorem ipsum”, “a própria dor”, em um texto de Cícero (106 a.C-43 a.C.). Pedi mais detalhes à Secretaria de Redação a respeito do episódio. “Depois que a chamada já estava finalizada e revisada, o sistema que usamos para fechar o jornal travou e ‘perdeu a retranca’, no jargão que usamos. Quando isso ocorreu, o que estava ali foi substituído por uma versão antiga, com um texto genérico (o ‘lorem ipsum’). É o tipo de texto que preenche uma chamada antes de ela ser editada pelo jornalista. Quando os profissionais no fechamento perceberam o erro, o jornal já estava rodando”» («‘Lorem ipsum’ e as dores do jornalismo», Alexandra Moraes [provedora do leitor], Folha de S. Paulo, 7.06.2026, p. A12). 
      Quanto ao famoso latinório, que nós também usamos, só parcialmente é latim, já que o «lorem» é, ao que se julga, a palavra «dolorem» truncada do trecho do tratado filosófico De finibus bonorum et malorum, de Marco Túlio Cícero, onde se lia: «Neque porro quisquam est qui dolorem ipsum quia dolor sit amet...» («Nem há ninguém que ame a própria dor só porque é dor...»). O que mais nos interessa é levar para o dicionário ➠ retranca Brasil JORNALISMO designação, palavra, expressão ou código usado internamente para identificar uma matéria jornalística ou outro conteúdo editorial durante o processo de produção e edição.

[Texto 23 198]

Definição: «amianto | asbesto»

Contra ideias erradas


      «No imaginário colectivo, a presença do amianto está muito ligada à arquitectura escolar. E isto, para Carmen Lima, prejudica uma percepção pública mais rigorosa e responsável do problema. “O amianto não está só nas telhas, as telhas é um dos três mil materiais que se usou na construção. Há muitos outros materiais, produtos e equipamentos que podem aparecer, quer nos contentores dos resíduos urbanos, quer na própria actividade da autarquia, quer nas casas das pessoas”, afirma a presidente da SOS Amianto, defendendo que os municípios têm de perceber “a real dimensão do problema” para poderem encontrar a resposta adequada» («Governo reforça regras para resíduos com amianto sem resolver lacunas existentes», Andréia Azevedo Soares, Público, 22.06.2026, p. 14).
      Os nossos dicionários também omitem toda e qualquer menção à perigosidade do amianto, como se não passasse de especulação de meia dúzia de maluquinhos ociosos. Assim, proponho ➠ amianto MINERALOGIA nome comum ou comercial de diversos minerais silicáticos de estrutura fibrosa, também designados por asbesto, pertencentes aos grupos das serpentinas e dos anfíbolos, resistentes ao calor, ao fogo e a agentes químicos, outrora amplamente utilizados na construção civil, em materiais de isolamento e em produtos industriais; a inalação das suas fibras pode causar doenças graves, como asbestose, cancro do pulmão e mesotelioma, razão pela qual a sua utilização foi progressivamente proibida em numerosos países.

[Texto 23 197]

Léxico: «ovelha-mestra | ovelha-guia»

Como se fosse eleita pelas outras


      Ah, então pensavam que só as ovelhas da Grã-Bretanha é que precisavam de guia... E as portuguesas? Não vamos agora pôr-nos a falar de bellwether ewes. Há muito que a nossa língua conhece as ovelhas-mestras, ou, se preferirem, as ovelhas-guias. Miguel Torga usa mais de uma vez o primeiro termo na sua obra. Está na hora de ambas entrarem no ovil do dicionário. Assim, proponho ➠ ovelha-mestra / ovelha-guia ZOOTECNIA ovelha que conduz e orienta o rebanho, geralmente distinguida por usar um chocalho ao pescoço e seguida pelas restantes. 

[Texto 23 196]

Léxico: «proto-eurasiático»

Plenamente operacional


      «Uma notícia de há poucos dias resume a investigação realizada por linguistas de uma universidade inglesa: Eles concluíram que as 23 palavras mais antigas, partilhadas por sete línguas “protoeurasiáticas”, têm 15.000 anos» («Convescote», Fernando Alves, TSF, 19.06.2026, 8h56). 
      Lá porque é hipotético, Fernando Alvez acha que tem de embrulhar a palavra com aspas. É assim como que um estágio até à afirmação final. Um desnudamento. Bem, avancemos propondo ➠ proto-eurasiático LINGUÍSTICA HISTÓRICA língua ancestral hipotética, proposta por alguns linguistas como origem comum de várias famílias linguísticas da Eurásia; a sua existência não é consensualmente aceite e é inferida a partir da comparação histórica de línguas modernas e antigas.

[Texto 23 195]

Léxico: «dapsona»

Mais completo


      «“Quando em 1958 foram inventadas as dapsonas, e começámos a utilizar a combinação de antibióticos para combater a lepra, tudo mudou”, explica [o médico] Paulo Margalho. Nessa altura já não havia muito a fazer para o jovem Gil, pois que perdera parte dos dedos das mãos. O mesmo aconteceu a muitos milhares de portugueses, que foram perdendo extremidades do corpo, na sequência da infecção de pele que começava com manchas (avermelhadas ou escuras) e degenerava em nódulos, úlceras ou bolhas, insensibilidade ao frio ou calor. Ao mesmo tempo, muitos casos da doença de Hansen manifestavam-se para lá da infecção de pele, afectando os nervos periféricos, os olhos e o trato [sic] respiratório» («Os dois últimos leprosos que nunca saíram do Hospital Rovisco Pais», Paula Sofia Luz, Público, 22.06.2026, p. 16). 
      Pelo que vi, foi muito antes de 1958. Mas não o vamos chumbar já, temos outras prioridades. Assim, sem mais delongas, proponho dapsona FARMACOLOGIA composto sulfónico (C₁₂H₁₂NOS) com actividade antibacteriana, utilizado como medicamento no tratamento da lepra e de determinadas doenças dermatológicas e infecções oportunistas. 
      Quanto à etimologia, provém do inglês dapsone, denominação farmacológica criada a partir da designação química diaminodiphenyl sulfone («diaminodifenil-sulfona»).

[Texto 23 194]

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