Tradução: «permanent»

Encore faut-il savoir écouter


      Terceiro episódio de Na Sombra. Ça commence à chauffer. Já na posse das imagens não editadas (os tais brutos...), César Casalonga e Marylin vêem que Le Major, alguns minutos antes de o sistema informático vir abaixo, segredou qualquer coisa a um dos informáticos. Qualquer coisa não, César leu inequivocamente nos lábios: «Vai agora.» E que informático era esse? O indivíduo que lhes tentara vender os discos rígidos com a prova da fraude. Caligny, que assistia à projecção a um canto da sala, também reconheceu o indivíduo do incidente na ponte. César e Marylin decidem então marcar um jantar com Le Major para o confrontarem. Quando César lhe mostra, no telemóvel, o fotograma em que Le Major aparece a segredar ao ouvido do informático, Le Major deixa-se rir e diz: «Conheço esse tipo de vista. Estava sempre lá, um militante.» «Permanente ou militante?», pergunta Marylin. Isto, claro, nas legendas, mas a tradução está errada e compromete seriamente a compreensão. 
      Ao traduzir desta forma a fala de Marylin, tinham de soar todos os alarmes e levar o tradutor a pensar bem, a voltar atrás. Vamos ao original. Le Major: «Ce type, je le connais sans le connaître. Il était là comme un permanent, un militant.» Ao que Marylin, e com razão, dispara logo: «Un permanent ou un militant?» Ou seja: «Esse tipo, conheço-o de vista. Era funcionário do partido, um militante.» A própria hesitação da personagem autorizava o tradutor a verter assim: «Esse tipo, conheço-o de vista. Era, sei lá, funcionário do partido, militante.» E, claro, a pergunta de Marylin só podia traduzir-se assim: «Funcionário ou militante?» Tudo isto, Karim Vieira Mesmoudi, porque permanent, no contexto, é clarissimamente o «membre d’un parti, d’un syndicat, etc., rémunéré pour se consacrer entièrement à son organisation», como se lê no Larousse ou em qualquer dicionário de francês.
[Texto 22 793]

Definição: «mostrador»

Não só «objectos», Porto Editora


      «Importou alguma vez aos juristas, aos mandões, aos donos desta terra escravizada que órfãos, como este mocinho que, para irrisão do seu olho mirmidónico, havia de representar um dos próceres da casa lusitana, olhassem alguma vez para o mostrador dos padeiros, sem vintém para comprar um pão?» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 212-13).

[Texto 22 792]

Léxico: «criptógrafo»

E o aparelho?


      Na quarta-feira, na RTP2, vi um magnífico programa (As Cartas Secretas de Maria, Rainha dos Escoceses) sobre três criptoanalistas, especialistas em descodificação que conseguiram finalmente, em 2023, decifrar a correspondência secreta de Maria Stuart, rainha da Escócia (1542-1587). Eram George Lasry, um cientista francês da computação, que coordenou a equipa, o músico neerlandês Norbert Biermann e o astrofísico japonês Satoshi Tomokiyo. É, contudo, o termo mais geral, «criptógrafo», que abrange o que trabalha em criptografia, incluindo concepção, aplicação e análise, que queremos definir melhor, tanto mais que nos nossos dicionários anda amputado de uma acepção, o que fazemos propondo ➜ criptógrafo 1. pessoa especializada em criptografia, que concebe, aplica ou analisa métodos de cifra e de protecção da informação sensível, assegurando a sua confidencialidade, integridade ou autenticidade; 2. aparelho ou sistema que cifra ou decifra mensagens, historicamente mecânico e hoje predominantemente informático.

[Texto 22 791]

Definição: «cisura de Sílvio»

Grande, enorme, imperdoável


      «Tenho uma dúvida: cisura ou cissura?», escreve-me um leitor. E prossegue: «Vou à Infopédia e fico perdido... Num sítio, no Dicionário de Termos Médicos, diz que “cisura” é uma fenda, fissura ou sulco. Mostra mesmo vários exemplos, mas não a de Sílvio. Encontro depois a “cissura” e diz que é uma fenda, mas, ó céus, diz que a de Sílvio também é chamada aqueduto do mesmo! Indo a “aqueduto”, encontro o de Sílvio corretamente definido, embora nos Termos Médicos o Sílvio passe a Sylvius.» 

     Vamos com calma, afinal só temos aqui três erros, ou, vá, dois erros e uma má opção. É verdade que estamos perante dois dicionários, mas da mesma editora, na mesma plataforma. A primeira harmonização devia ser ortográfica: eu esqueceria «Sylvius». (Já basta termos uma Rua Sylvio Ribeiro, de que não guardo boas memórias.) No dicionário geral, redigiria assim a definição ➜ cisura de Sílvio ANATOMIA sulco profundo da superfície lateral de cada hemisfério cerebral que separa o lobo temporal dos lobos frontal e parietal; também designada fissura lateral. 

      Com isto, optaria pela variante «cisura», hoje em dia predominante; corrigia o erro de afirmar que se situa no hemisfério esquerdo, quando é nos dois, e eliminava o grande, enorme, imperdoável erro de a dar como sinónimo de «aqueduto de Sílvio».

[Texto 22 790]

Léxico: «culinarista»

Na calha das prometidas


      «A Mercearia Gadanha entrou para os recomendados do Guia Michelin, ganhou dois sóis da Repsol no ano passado e há três anos, a chef recebeu o prêmio de Cozinha Tradicional Portuguesa Maria de Lurdes Modesto, dado pela Academia Portuguesa de Gastronomia. “Foi muito importante, por todo o respeito que existe em torno desta mulher, que tanto fez pela cozinha portuguesa”, diz [Michele Marques], referindo-se à culinarista, escritora e pesquisadora falecida em 2021» («Chefs brasileiras reforçam festival protagonizado por mulheres da gastronomia», Gisele Rech, Público, 10.04.2026, 8h16).

[Texto 22 789]

Definição: «anti-semitismo»

Uma reformulação necessária


      Honestamente, não vislumbro um só argumento ponderoso para se manterem, como faz a Porto Editora, duas acepções na definição de «anti-semitismo»: «1. ódio, antipatia ou aversão aos Judeus enquanto grupo étnico e religioso; 2. doutrina ou prática que promove hostilidade, perseguição, discriminação, preconceito e/ou violência contra judeus, em virtude da sua identidade étnica e/ou religiosa». Poderia porventura afirmar-se que procede a uma distinção entre plano psicológico e plano ideológico-prático, defendendo-se que «ódio/aversão» (acepção 1) pertence ao domínio das atitudes individuais, ao passo que «doutrina ou prática» (acepção 2) pertence ao domínio das construções colectivas e institucionais. O problema é que essa distinção não é semântica no sentido forte (não são dois significados diferentes), mas apenas duas manifestações do mesmo conceito, e a própria acepção 2 já pressupõe a 1 (não há doutrina anti-semita sem a atitude subjacente). Assim, proponho uma só acepção, como vejo em muitos dicionários, que diga ➜ anti-semitismo SOCIOLOGIA, HISTÓRIA atitude, doutrina ou prática de hostilidade, preconceito, discriminação ou perseguição contra os judeus enquanto grupo étnico e/ou religioso, expressa de forma explícita ou implícita em manifestações discursivas ou materiais, com expressão histórica em diferentes contextos sociais e políticos.

[Texto 22 788]

Léxico: «neurossonologia | neurossonologista»

Bem pagos, mas fora do dicionário


      «A monitorização com o doppler transcraniano permite detectar micro-êmbolos em circulação em tempo real, funcionando como “o radar de um submarino”, e o “médico neurossonologista torna-se um detective de ouvido apurado para detecção dos sons característicos destas partículas circulantes sobre o normal barulho do fluxo sanguíneo”. Destacando que esta foi a primeira vez que a neurossonologia foi utilizada para identificar estes sinais com o objectivo de prever défices cognitivos em doentes internados na fase aguda do AVC, a equipa de investigadores realçou que em causa está um exame não invasivo, fácil, portátil, porque pode ser feito à cabeceira do doente, pouco dispendioso e considerado seguro (sem radiação)» («Portugueses desenvolvem método para identificar risco de défice cognitivo após AVC», Público, 30.03.2026, p. 15).

[Texto 22 787]

Léxico: «microembolismo | microembólico»

Aponta aí


      «“Concluímos que os défices cognitivos podem não ser determinados apenas pela lesão cerebral ocorrida no AVC ou por problemas degenerativos, mas pela continuidade do microembolismo cerebral capaz de causar danos cerebrais adicionais, apesar de subtis”, afirmou o professor da FMUP e investigador principal do estudo, Pedro Castro, citado num resumo enviado à Lusa. [...] Os doentes foram submetidos a um exame específico de monitorização com doppler transcraniano para pesquisa de sinais microembólicos cerebrais durante as primeiras 72 horas após o evento» («Portugueses desenvolvem método para identificar risco de défice cognitivo após AVC», Público, 30.03.2026, p. 15).

[Texto 22 786]

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