Avaliação dos professores

Zeros na composição

      «Aquela é também a posição do presidente da Associação Nacional dos Professores Contratados (ANVPC), César Israel Paulo. Diz que é uma prova que consta de “rasteiras”, “baseada numa lógica matemática que não é dominada por excelentes professores”. Também teme que a obrigatoriedade de respeitar o novo acordo ortográfico resulte em zeros na composição» («Modelo da prova de avaliação para professores causa indignação», Bárbara Wong e Graça Barbosa Ribeiro, Público, 23.11.2013, p. 7).
      É também a minha previsão. Mas Paulo Guinote tem uma estratégia: «“Um conselho: na composição não usem palavras difíceis, nada que levante dúvidas em relação à forma como se escreve segundo o Acordo”, oferece Paulo Guinote, autor do blogue Educação do Meu Umbigo e professor de História. Diz que aquela é a única dificuldade que a prova, “completamente apatetada”, pode levantar. Sobre o exemplo da composição, garante que já pediu “coisas mais difíceis aos alunos do 9.º ano”; em relação a algumas questões de escolha múltipla afirma que está em causa “um nível de literacia funcional exigível a crianças do 6.º ano”.» Não usar palavras difíceis... Isso é se os professores soubessem quais são essas palavras difíceis. Aquela professora, com vinte anos de ensino, que numa acção de formação sobre o novo acordo ortográfico escreveu, segura de si, «adatando-os», não superaria essa prova elementar.
[Texto 3573]

«Decisão sobre a sorte»

Cá está

      O Presidente da República sobre a demissão do director nacional da PSP: «Já hoje de manhã tive ocasião de falar sobre esse assunto. É uma competência exclusiva do Governo a decisão sobre a sorte do Sr. director nacional da PSP.» Cá está um claro sinal dos tempos de pré-ditadura denunciada ontem. É como se pertencesse ao Governo o poder discricionário de degredar o director nacional da PSP para as Berlengas (coitadas das lagartixas-de-bocage) ou pendurá-lo pelos pés do Arco da Rua Augusta.
[Texto 3572]

Auto-retrato de Chateaubriand

Ainda para lá dos Pirenéus

      «Propre à tout pour les autres; bon à rien pour moi: me voilà.» Não é um enigma, é antes o auto-retrato de Chateaubriand. Parece uma frase muito simples, compreensível. Será igualmente fácil de traduzir? É o desafio que lanço aos bons leitores do Linguagista.
[Texto 3571]

Sobre «vernissage»

Mais francês

      Este caso faz lembrar o que aconteceu com a expressão «a partir de». Trata-se da inauguração de uma livraria. No original, é a vernissage, extensão de sentido de um sentido figurado. O tradutor optou por não encontrar uma equivalência em português. Se formos consultar o Dicionário de Francês-Português da Porto Editora, não regista esta extensão de sentido, limitando-se ao sentido figurado: «dia de abertura de uma exposição; inauguração de uma exposição».
[Texto 3570]

Tradução: «plat à emporter»

Pois é

      Estava tudo emporcalhado, com «les boîtes de plats à emporter» a juncar o chão. E agora, como traduzir? Para muitos tradutores, o melhor é traduzir para inglês, até porque quase ninguém reclama nem acha inconcebível. «Comida comprada no takeaway»! No entanto, vou até à Estrada de Benfica e encontro meia dúzia (fecharam muitos, ultimamente) de restaurantezinhos com um letreiro na montra em que se lê «Comida para fora». E os donos serão, tenho a certeza, semianalfabetos.
[Texto 3569]

Tradução: «plat surgelé»

Tudo simples, mas depois...

      Se fosse a tradução para inglês, havia mais gente a saber. Talvez «frozen ready meal», não? Mas em português, qual será a melhor tradução? «Refeição pré-cozinhada»?
[Texto 3568]

«Massachusetts», só com um esse

Miudezas

      «“Kennedy foi o primeiro a usar, de uma forma brilhante e inédita, os meios de comunicação social e de propaganda para criar uma imagem que não correspondia à verdade”, diz o historiador Tiago Moreira de Sá, professor na Universidade Nova de Lisboa e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais. Kennedy mostrava-se como homem novo, bonito e dinâmico, que ficava bem de fato escuro e gravata, mas também de pólo e caquis a jogar futebol com os irmãos ou a velejar nas águas do Massachussetts» («JFK, o príncipe imperfeito», Ana Gomes Ferreira, Público, 22.11.2013, p. 24).
      Porquê o plural «caquis» e o itálico? Já muita gente errou a ortografia do nome do Estado norte-americano. São muitos ss. É Massachusetts, só com um s.
[Texto 3567]

Léxico: «tocaia»

Mais uma do Brasil

      «Foi assim que os dois jovens se viram envolvidos numa perseguição pelas ruas de Paris em Outubro de 1994, em que acabaram por matar quatro pessoas, entre as quais três agentes da polícia, explica o Le Monde. Maupin acabou por morrer de ferimentos sofridos na perseguição. Rey foi condenada a 20 anos de prisão, dos quais cumpriu 15. Só anos depois revelou Dekhar como cúmplice, a pessoa que comprou armas e ficou de tocaia na noite do assalto. Por isso ele só foi julgado em 1998 — e negou conhecer Rey ou Maupin» («Atirador de Paris denunciou em cartas “manipulação das massas pelos media”», Clara Barata, Público, 22.11.2013, p. 21).
     Não aparece muitas vezes na escrita, talvez mais na oralidade. Veio, creio que os dicionários são unânimes, do Brasil. Tocaia é a emboscada para matar alguém ou caçar, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Texto 3566]

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