Tradução: «decisione interlocutoria»

Para quem é

      «Assim, tendo em conta a atual controvérsia na Alemanha, foi uma decisão moderada», disse o jornalista italiano Iacopo Scaramuzzi a propósito da suspensão do bispo de Limburgo, Franz-Peter Tebartz-van Elst, que gastou 31 milhões de euros em obras na residência episcopal. Quer dizer, não disse exactamente aquilo, até porque não há-de saber falar português. Era o que se lia nas legendas do Telejornal de ontem, numa peça de Rita Marrafa de Carvalho. «È una decisione interlocutoria», é o que Scaramuzzi disse, o que é diferente. No ordenamento jurídico português também temos decisões interlocutórias, que são os actos processuais praticados pelo juiz, quando decide uma questão incidental sem dar solução final à lide proposta em juízo. Se o tradutor não tinha de se ater aos estritos termos jurídicos (não nos podemos esquecer que mais de 10 % dos portugueses são analfabetos, e são estes que vêem televisão, até porque não podem andar a perder tempo com o Facebook), também não podia desviar-se assim tanto. Há alternativas.
[Texto 3429]

90 mil livros por dia

Impressionante

      Viram o Sexta às 9 de ontem? Foram visitar a gráfica da Porto Editora. «É um dos maiores grupos editoriais nacionais. Da gráfica da Porto Editora saem, em média, 90 mil livros por dia, 12 milhões por ano.» Boa parte escolares, podemos supor. Nunca se publicou tanto, nunca se leu tão pouco.
[Texto 3428]

«Preferir ... a/antes querer»

Como sai

      Sobre Rui Moreira, recém-eleito presidente da Câmara Municipal do Porto, no «Sobe e desce» de hoje no Público: «Não apresentou uma agenda de projectos em carteira, como muitos autarcas fazem, preferiu antes afirmar o seu desejo de voltar a puxar pelo poder local» (p. 56).
      Eles sabem vagamente como é, é inegável, mas nem sempre acertam. E por isso misturam, confundem, enganam-se, atrapalham-se.
[Texto 3427]

Léxico: «salvado»

E há muito

      «Depois de uma queda, alguns dos seus espigões agudos ficaram dobrados e um dos dois aros que envolvem esses espigões amolgou-se de forma considerada irrecuperável tanto pelo artista como pela seguradora da obra, a Hiscox, que acabou por pagar a peça [Perfume (vertiginoso e obscuro) IV, de Rui Chafes] e entrar na sua posse como salvado» («Sabe o que fica de uma obra à qual o artista retira a autoria? “Nada”», Vanessa Rato, Público, 23.10.2013, p. 32).
      O nosso espanto não tem fim: o vocábulo «salvado» ainda não está nos dicionários. «Forma do verbo salvar», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Também, mas é comummente usado como substantivo no ramo dos seguros: salvados são as peças, partes substituídas ou o próprio veículo sinistrado, que passam para a propriedade da seguradora. Por extensão de sentido, será qualquer objecto.

[Texto 3426]

«Um Picasso, dois Monets»

Está mesmo

      «A cada sessão no tribunal, uma novidade. É um filme sem fim, este do roubo de sete pinturas, entre elas um Picasso e dois Monets, há um ano do centro de arte Kunsthal em Roterdão, Holanda» («Ladrões de Picasso e Monet admitem roubo mas acusam galeria de negligência», Cláudia Carvalho, Público, 23.10.2013, p. 34).
      Um Picasso, dois Monets, três Goyas, quatro Kandinskys... E por aí fora. Prova que, afinal, ainda há jornalistas que sabem que a marca do plural é necessária. É o básico, bem sei, mas temos de nos contentar com pouco. E, tal como, obra a obra, Lisboa melhora, os jornais, letra a letra, podem deixar de ser aquela treta.
[Texto 3425]

E não a nefanda

Está a entrar nos eixos

      «“Podemos, claramente, falar de uma negligência com graves consequências”, disse aos jornalistas Catalin Dancu, advogado de Radu Dogaru (o cabecilha do grupo), à saída do tribunal, sobre a sua argumentação no julgamento, com base num relatório da polícia holandesa. [...] Dogaru, Bitu e Darie declararam-se ontem culpados, admitindo o roubo e a tentativa de venda no mercado negro — quando foram detidos e deixaram as obras com a mãe do cabecilha» («Ladrões de Picasso e Monet admitem roubo mas acusam galeria de negligência», Cláudia Carvalho, Público, 23.10.2013, p. 34).
[Texto 3424]

«Doing what one is told»

Quão diferentes

      «However, there is still a strong tradition in England, particularly in the lower status occupations, of the key virtue being that of ‘doing what one is told’.» O que é pena é ser uma tradição apenas inglesa. Em troca do chá, bem nos podiam ter dado isto. E a propósito de inglês, acabei de ser convidado para a inauguração (isto tem um nome inglês), no Hotel Farol (Farol Hotel, leio no convite), em Cascais, da exposição do artista plástico João Feijó, intitulada, pois claro, «Color Field». Raquel Rocheta é a relações públicas. Depois conto.
[Texto 3423]

«Set up»

Entre França e Inglaterra

      «The X follows previous attempts by CEDEFOP (the European Centre for the Development of Vocational Training set up under the Council of Ministers)…» E na tradução: ah, tinha de se imiscuir outra língua que não apenas o português, mesmo filtrada por décadas: «O X segue as tentativas anteriores do CEDEFOP (Centro Europeu para o Desenvolvimento da Formação Profissional, criado ao abrigo do Conselho de Ministros)...»
[Texto 3422]

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