«Amicus curiae»

Conhecíamos os da onça

      «O Procure Saber [grupo composto por Roberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, entre outros] deve entrar no processo como “amicus curiae” (parte interessada). O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a ONG Artigo 19 já atuam na ação por meio do mesmo dispositivo» («Direito à privacidade divide advogados», Juliana Gragnani, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E3).
      No glossário jurídico do sítio do Supremo Tribunal Federal (STF), lá está a definição: «Intervenção assistencial em processos de controle de constitucionalidade por parte de entidades que tenham representatividade adequada para se manifestar nos autos sobre questão de direito pertinente à controvérsia constitucional. Não são partes dos processos; atuam apenas como interessados na causa. Plural: Amici curiae (amigos da Corte).»
[Texto 3405]

Léxico: «civilizatório»

Só no Brasil

      «“As editoras já não aceitam biografias não autorizadas. A Alice Ruiz [viúva de Leminski] pediu alterações, inclusive na parte que fala sobre o problema dele com o alcoolismo. Isso transformaria o livro em chapa-branca. Decidi disponibilizar na internet como contribuição civilizatória” [disse o escritor Domingos Pellegrini]» («Livro sobre Leminski será enviado por e-mail», Wilhan Santin, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E3).
      Hum, os nossos dicionários não conhecem o vocábulo «civilizatório». Regista-o o Aulete: «Que tem atuação positiva no processo de civilização».
[Texto 3404]

«Estrato social»

Absolutamente lamentável

      «Para além da violência, índios e exotismos, mostra latino-americana exibe fotógrafos que exploram temas de seu próprio extrato social» («Autorretrato da classe média», Daigo Oliva, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. E1).
      Se pensavam que estas pérolas do jornalismo só as encontrávamos em Portugal, estavam enganados. Numa das vezes que tratei desta questão no Assim Mesmo, escrevi: «A sociedade tem, como sabemos, camadas, como os terrenos sedimentares e os bolos de noiva. Camadas — estratos. Isso mesmo, leitor arguto: diz-se estrato social e não — oh horror! — extracto social.» Como não está no corpo da notícia, não há-de ser erro do jornalista Daigo Oliva, mas, como este é editor, recai sobre ele a responsabilidade.

[Texto 3403]

E porquê esquistossomose?

Não se percebe

      «Em uma cirurgia inédita na literatura médica brasileira, o setor de ginecologia do Hospital das Clínicas de São Paulo removeu um cisto de ovário de 16 litros por um corte de 1,2 cm no umbigo. [...] “O clínico-geral disse que era “barriga d’água [esquistossomose]. Como o meu exame de Papanicolaou sempre dava negativo, disseram que eu nem precisava passar com o ginecologista”, diz Maria» («Cisto gigante é retirado pelo umbigo de paciente no HC», Cláudia Collucci, Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. C9).
      Barriga-d’água é o mesmo que ascite — designação dada em medicina à acumulação de líquido na cavidade abdominal. Pretendeu a jornalista Cláudia Collucci usar um termo técnico para explicar do que se trata? A esquistossomose é outra doença, também chamada bilharziose, causada por um parasita, a bilhárzia. Precisamos aqui de um médico.
[Texto 3402]

«Vocativo»?

Essa agora

      «As [ex-misses] acusadas de ligação com o narcotráfico – ou com chefes do negócio, apelidados ironicamente de “executivos de alto risco” – já têm alcunha usada em outros países, como Colômbia e México: narcomisses ou narcomodelos. Adaptado ao caso venezuelano, é usado o termo “narcomami”, que incorpora o vocativo local “mami”» («Ex-misses enfrentam problemas com a Justiça em diversos Estados venezuelanos», Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. A16).
[Texto 3401]

Léxico: «aerofotogrametria»

Acrescentem este

      «O piloto alemão da Segunda Guerra Mundial Martin Drewes, que vivia no Brasil desde 1949, morreu no domingo em Blumenau, Santa Catarina, aos 94 anos. [...] Com esse trabalho de aerofotogrametria, ajudou a construir Brasília» («Morre em SC piloto alemão que serviu ao nazismo», Folha de S. Paulo, 16.10.2013, p. A15).
      Sim, é o método de obtenção de dados cartográficos ou topográficos por meio de fotografias aéreas, mas não está nos principais dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o mais próximo que regista é «aerofotografia».
[Texto 3400]

Léxico: «palangreiro»

E por isso

      «A Sociedade de Pesca do Arade deverá agilizar, nas próximas horas, a trasladação do corpo do pescador marroquino morto à facada por outro tripulante a bordo do palangreiro Príncipe das Marés, a 800 quilómetros da costa de Cabo Verde, crime que começará agora a ser investigado pelas autoridades daquele país africano» («Cabo Verde investiga morte em barco português», Paulo Julião, Diário de Notícias, 16.10.2013, p. 23).
      Vimo-lo no Assim Mesmo, há mais de dois anos. Continua ausente de quase todos os dicionários. Sem pena nossa. É, também já o sabemos, alienígena. Castelhano.
[Texto 3399]

«Apelar para»

Assim é

      «Apelei para tôdas as minhas fôrças e tirei, de longe, para mim só, a máscara que cobria o seu rosto fechado, para ver se conseguia fazê-la cair durante um segundo» (Amok (O Doido da Malásia), Stefan Zweig. Tradução de Alice Ogando. Porto: Livraria Civilização, s/d, 4.ª ed., p. 64).
[Texto 3398]

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