«Enfarte, enfarto, infarto»...

Ficamos doentes

      «Oscar Hijuelos, que morreu no último sábado ao sofrer um infarto enquanto jogava tênis em Manhattan, crava seu lugar na literatura como um autor que soube tratar temas difíceis com leveza» («Obra densa, mas divertida é o legado de Oscar Hijuelos», Thales de Menezes, Folha de S. Paulo, 15.10.2013, p. E4).
      Em Portugal, em relação a esta supina questão nunca nos atrapalhamos: é sempre «enfarte» que usamos. No Brasil, andam embrulhados com três variantes, enfarte, enfarto e infarto. Variantes é como quem diz: para alguns estudiosos brasileiros, só uma delas mata (não sei agora qual). Para outros, as formas «enfarte» e «enfarto» são populares, e «infarto» provavelmente adaptação do inglês infarct. Para outros ainda... Ah, chega.
[Texto 3397]

Léxico: «força-tarefa»

Destacamento especial

      «O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), anunciou ontem a criação de uma força-tarefa para investigar ações da facção criminosa PCC e o envolvimento de policiais civis e militares com a quadrilha» («Alckmin anuncia força-tarefa para investigar facção criminosa», Folha de S. Paulo, 15.10.2013, p. C6).
      Em Portugal, para que todos pudessem compreender — tinha de estar inteiramente em inglês, task force.
[Texto 3396]

Léxico: «retrato falado»

Mas é expressivo

      «A Scotland Yard, polícia metropolitana de Londres, divulgou ontem à noite duas imagens do retrato falado de um suspeito de ligação com o sumiço da menina britânica Madeleine McCann» («Retrato falado de suspeito no caso Madeleine é divulgado em Londres», Folha de S. Paulo, 15.10.2013, p. A16).
      Já tínhamos visto, no léxico contrastivo do Assim Mesmo, este «retrato falado», que nós significamos através do termo «retrato-robô» (e depois não sabemos fazer o plural...). O meu Galaxy S4 também faz retratos falados.
[Texto 3395]

Léxico: «pistolagem»

Lá para Pernambuco

      «Um promotor de Justiça foi morto após ser [sic] alvo de atentado na manhã de ontem no interior de Pernambuco. [...] Itaíba é conhecida por crimes de pistolagem» («Promotor é assassinado no interior de Pernambuco», Daniel Carvalho, Folha de S. Paulo, 15.10.2013, p. A10).
      Pistolagem, registam os dicionários publicados no Brasil, é o assassínio encomendado. Em Portugal, também temos muita bandidagem, mas não usamos nem conhecemos o termo «pistolagem». Curioso: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem «bandidagem» regista.
[Texto 3394]

Sobre «tuitar»

Quase certo

      «“Hoje revi, no @canalarte1, o filme de Luchino Visconti ‘Rocco e seus irmãos’. O cinema italiano produziu obras-primas. Valeu a pena rever”, tuitou no domingo. O porta-voz da Presidência, Thomas Traumann, disse que todos os tuítes publicados na conta oficial são de Dilma» («Presidente tuíta até durante entrevista ao vivo a rádios», Tai Nalon, Folha de S. Paulo, 15.10.2013, p. A5).
      Apesar de até já estar dicionarizado, nem sempre os autores (ou nas editoras) aceitam este aportuguesamento, mais do que natural, legítimo e compreensível. Está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que, todavia, não regista o substantivo. Só que, cara Tai Nalon, nem no substantivo nem no verbo, incluindo as formas conjugadas, é necessário o acento no i.
[Texto 3393]

«Bangaló»

E fez bem

      No Amok, Alice Ogando usou bungalow; Cabral do Nascimento usou o termo aportuguesado: «Ainda há dez anos era pouco frequentado, depois da debandada da clientela inglesa, mas há pouco tempo tornou-se ponto de reunião de banhistas ilustres e elegantes, e já o rodeiam inúmeros bangalós» (Terna É a Noite, F. Scott Fitzgerald. Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Portugália Editora, 1966, 2.ª ed., p. 9)

[Texto 3392]

Léxico: «goticismo»

Qualidade de gótico

      Acabei de ver, creio que pela segunda vez na vida, a palavra «goticismo». Não está em muitos dicionários; não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E, no entanto, encontramo-la nas notas finais de Alexandre Herculano a Eurico, o Presbítero: «O goticismo espanhol, ao primeiro aspecto, parece mover-se.»
[Texto 3391]

Feminino de «xeque»

Temos medo

      «Segundo o New York Times, tudo terá começado com uma visita da xeque Al Mayassa Hamad bin al-Thani, de 30 anos, presidente da Autoridade dos Museus do Qatar e irmã do novo emir, ao estúdio de Damien Hirst em 2009» («Damien Hirst dá à luz novos trabalhos no Qatar», Vítor Belanciano, Público, 15.10.2013, p. 33).
      Pois, é isso que se diz, que a forma masculina «xeque» pode «ser utilizada no feminino com adaptação do artigo ou pronome que acompanha a forma feminina». A imprensa internacional, e mesmo, ocasionalmente, a portuguesa, uso o termo «sheikha», o que, aportuguesado, seria «xeica». Mas não se usa. Ou não usamos nós, pois no Brasil não têm problemas em aportuguesá-lo desta forma.
[Texto 3390]

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