Léxico: «mondioring»

O pior é o português

      «Mais de mil cães e gatos passaram este fim de semana pelo Parque de Exposições de Braga. Só na exposição canina, estiveram representados mais de 900 animais, que participaram nos concursos e nas demonstrações de obediência, ordem pública, busca e salvamento e de mondioring – um tipo de desporto que testa a capacidade do cão proteger a sua integridade e a do dono» («Mais de mil cães e gatos em exposição», Diário de Notícias, 12.11.2012, p. 23).
      Como? «A capacidade do cão proteger»?! Bem, esqueçam, está na hora de aprendermos mais inglês.

[Texto 2312]

É «titubeação» que se diz

Quando não se sabe...

      Carlos Abreu Amorim, vice-presidente do grupo parlamentar do PSD: «Aquilo que se passa é que... Estamos numa hora tremenda, e... Não é uma hora para hesitações, para titubeâncias, nem para talvezes, nem para nins. O País precisa de respostas afirmativas.»
      Até pode ser um sufixo produtivo na língua portuguesa, mas não vale a pena inventar: já temos titubeação. «D. Luiz olhou d’esta vez para o filho mais seriamente, porque lhe causára impressão a firmeza e promptidão da resposta, em vez das titubeações que esperava» (Os Fidalgos da Casa Mourisca, Júlio Diniz. Porto: Tipografia do Jornal do Porto, 1871, p. 66).
[Texto 2311]

Ortografia: «faz-de-conta»

Mais uma acha

      «A enciclopédia online escreve que o romance ‘A Mancha Humana’ é “alegadamente inspirado na vida do escritor Anatole Broyard”. Considerado [sic] esta informação incorreta, Roth escreveu à Wikipédia, mas a sua correção não foi aceite. Não foi considerado “uma fonte credível”. “Escrever um romance é um jogo de faz de conta”, alegou Roth» («Carta à Wikipédia», Diário de Notícias, 11.11.2012, p. 49).
      Pelo menos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora afiança — e eu acredito — que faz-de-conta continua, depois do acordo, com hífenes. Tudo é possível. No sítio da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, entre os casos em que se mantém o hífen nos compostos consagrados pelo uso (conceito indeterminado — e mais um erro dos autores do acordo), encontra-se «água-de-colónia», que para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem dupla grafia. Este dicionário também regista o termo «dia a dia» assim grafado, sem hífenes. No sítio da INCM, é outro composto consagrado pelo uso...

[Texto 2310]

Brasileirismo: «garrancho»

Temos, mas não iguais

      A personagem, enfermeiro louco entre loucos, acabou por desistir de ler os garranchos negros que se viam no caderno. Nesta acepção — letra mal traçada, pouco legível — é brasileirismo, e poucos leitores portugueses o conhecerão. Também temos o vocábulo, mas com outros sentidos. Garranchos são garatujas, rabiscos, gatafunhos.
[Texto 2309]

Verbo «importar»

Têm importância — importam

       «Não importa aqui traços culturais como, etc.», escreve o nosso autor — mas mal. O verbo já não concorda com o sujeito? No sentido de «ter importância, ter interesse», como intransitivo, o verbo «importar» é frequentemente sujeito a este erro. Qual a dificuldade? Não está o núcleo do sujeito no plural? Então...
      «Muito zombeteiro estulto, muito praguento sem alma, há-de fechar o livro neste passo; mas como Vossa Majestade o leia, e há-de lê-lo, pouco importam aqueles desdéns» (O Outono, António Feliciano de Castilho. Lisboa: Imprensa Nacional, 1863, p. XIII [actualização ortográfica minha]).
[Texto 2308]

E o primeiro nome?

Maldita macaqueação

      Já o escrevi há anos no Assim Mesmo. Infelizmente, a tendência é para se usar cada vez mais. «Há, em seguida, uma pequena interrupção no deleite (que maçada, não?): “No domingo, Botella regressou a Espanha, para assistir ao velório de uma das jovens falecidas no Madrid Arena.”
      (Outro estrangeirismo cultural, este anglo-saxónico, que assassina a elegância e gentileza latinas: tratar uma senhora pelo apelido. Botella! Alguma mulher pode ser chamada de Botella? Garrafa, para mais? Em português, a minha língua, a língua de que me orgulho porque sabe ter tonalidades de ternura e de requinte, uma senhora nunca é só o seu apelido: é o seu nome – e depois o apelido. Malvada hora em que se escreveu Ferreira Leite sem antepor Manuela, Nogueira Pinto sem preceder de Maria José. Que eu saiba, só as enfermeiras é que trazem – ou traziam – a placa só com o apelido: “Enfermeira Marques, faça isto, se não se importa. Enfermeira Rodrigues, traga-me aquilo, por favor.” Sempre achei que era uma deselegância para com elas. Aqui garanto que jamais tratarei uma senhora – da mulher da praça à de um Presidente – por Senhora Dona Fonseca! Muito feliz ficaria se isto fizesse escola, por exemplo no Livro de Estilo do DN, que anda a ser elaborado a querosene, de tão lento que avança...)» («Tem de haver limites ao direito de o público escrutinar os políticos», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 10.11.2012, p. 47).
[Texto 2307]

Deixem-se de «detalhes»

Pois é

      «(Que pena esta ocupação francesista da nossa língua que nos obriga a ver “detalhes” onde mais bem ficam “pormenores”. Qualquer dia, ainda germanizamos a língua, de tão colonizados que nos resignamos! Achtung!, compatriotas!)» («Tem de haver limites ao direito de o público escrutinar os políticos», Oscar Mascarenhas, Diário de Notícias, 10.11.2012, p. 47).
[Texto 2306]

«A partir de»

Economia e elegância

      «Tudo começou num beijo e não devia passar daí», escreveu Nelson Rodrigues em Meu Destino É Pecar (Rio de Janeiro: Editora Agir, 2007, p. 162). Podemos então corrigir esta frase: «Discute-se como tudo pode ter começado a partir de um sonho.» Mais breve e incisivo: «Discute-se como tudo pode ter começado num sonho.»
[Texto 2305]

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