Como se escreve nos jornais

Isto nunca mais acaba

      «Como se põe um americano a pronunciar Aníbal Cavaco Silva? “Ah-nee-bal Ca-va-coo Seel-vuh”, escrevia ontem a agência Associated Press, uma onomatopeia para iniciados anglo-saxónicos» («Cavaco promete que Portugal cumprirá programa financeiro», Kathleen Gomes, Público, 10.11.2011, p. 8).
     Mas qual onomatopeia, valha-a Deus, Kathleen Gomes? Por quem é, reveja-me o conceito de onomatopeia.
[Texto 665]

Pontuação

Ao menos diz que é precisa

      «E a passagem da monarquia para a república não melhorou a vida da população, que se sentiu defraudada.» Lembram-se da frase? Estou a ver (agradeço ao leitor A. S. por me ter chamado a atenção) que foi agora lançada para o mundo. Nas respostas publicadas hoje no Ciberdúvidas, está: «Na frase apresentada pela consulente, a virgula [sic] é necessária para separar a frase principal (oração subordinante) da frase secundária (oração subordinada consecutiva), de modo a clarificar o sentido enunciado.
      No caso em questão, a conjunção que é usada com um sentido idêntico a “de forma que” ou “de modo que”, introduzindo a oração consecutiva. Se não colocarmos a vírgula, ficamos com uma estrutura semelhante à das orações subordinadas relativas restritivas e poderemos ser levados a interpretar “que se sentiu defraudada” como acrescentando informação apenas sobre o antecedente, ou seja, que “a população que já se sentia defraudada (por razões anteriores não especificadas) não viu a sua vida ser melhorada pela passagem da monarquia para a república”. No caso de usarmos a vírgula, a interpretação é que “a população sentiu-se defraudada porque a passagem da monarquia para a república não melhorou a sua vida», o que parece ser o sentido pretendido pela consulente.» Consecutiva, diz o consultor, Miguel Moiteiro Marques.
[Texto 664]

Como se escreve nos jornais

Quase Dupond e Dupont

      No Público de hoje também se noticia o caso em que está envolvido o genro do rei de Espanha. O jornalista, A. G. F., contudo, patina um pouco: as provas tornam inevitável «que Urdangarin se torne arguido no processo». Mais: «tornou-se “inevitável” que o duque de Palma se torne réu no julgamento do caso». Arguido, réu... Enfim, qualquer coisa por aí.
[Texto 663]

Língua e política

O peso da língua

      Carlos Magno, o novo presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), afirmou que o regulador quer fazer da língua portuguesa um tema obrigatório do seu trabalho. E citou o estudo do ISCTE que aponta que a língua tem um peso de 17,5 % do PIB. Só retórica? Depois falamos.
[Texto 662]

Como se fala na televisão

Realmente

      O duque de Palma, Iñaki Urdangarín, ouvi ontem no Telejornal, «poderá ser acusado realmente de falsidade documental». Um juiz mandou mesmo «apreender abundante documentação» na sede do Instituto Nóos, do qual o duque é presidente. O juiz está agora a ponderar se «convoca o genro do rei a prestar declarações».
[Texto 661]

Verbo «haver»

Ai o coração

      Aconteceu, Montexto, aconteceu: «Se houver restrições à autonomia que estão no Orçamento de Estado e houver em 2013 cortes equivalentes àqueles que hão para 2012, a maior parte do sistema de ensino superior português fecha.» Quem falou assim? O magnífico reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva. Magnífico.
[Texto 660]

Tradução: «ejaculation»

Falsos amigos à vista

      Um dos companheiros de viagem, cientista, acordou outro, que estava semiadormecido, com uma­ — preparem-se — ejaculação! Como em inglês ejaculation também é exclamação, o tradutor foi alegremente atrás. Certo é que ejaculação, em português, também é, em sentido figurado, abundância de palavras, arrazoado, mas o homem disse somente uma palavra.
[Texto 659]

Tradução

Na miséria é assim

      São João Baptista, podemos ler no evangelho de S. Mateus, alimentou-se no deserto com gafanhotos e mel silvestre, e afirma-se que S. João Evangelista usou o mesmo regime em Patmos. Mel silvestre... não mel selvagem. Wild honey. Os sinónimos... E sabiam que os gafanhotos foram, por uma dispensa rabínica especial, considerados kosher? Bem, mas também as simpáticas capivaras foram consideradas (sabia, Paulo Araujo?), por um decreto papal, também especial, peixe para poderem ser comidas no jejum quaresmal.
[Texto 658]

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