Faixa piritosa

Menos respeitinho

      O Governo prepara-se para lançar no mercado internacional três concessões para prospecção de minério na Faixa Piritosa, localizada na região Sul de Portugal, onde se concentram os mais importantes jazigos nacionais de minério de cobre, zinco, chumbo, mas também de ouro e prata. Este concurso, a lançar muito brevemente pela Direcção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), é uma iniciativa inédita no país e é um exemplo da atitude proactiva do Governo face ao relançamento da exploração mineira em Portugal» («Portugal agarra-se à sua riqueza mineira e procura mais investidores», Luís Francisco e Rosa Soares, Público, 6.11.2011, p. 8).
      Vão lá ler, por exemplo, os boletins da Sociedade Geológica de Portugal: nada de letra grelada.

[Texto 641]

Milhões e biliões

1 000 000 000

      Disse-se na RTP, e escreveu-se em várias publicações, que o antigo presidente líbio Muammar Kadhafi tinha vários investimentos imobiliários de luxo no Reino Unido no valor de mais de — ora vejam — 1,1 milhões de euros. E citava-se o Sunday Times, em que se lê «Gadaffi’s £1bn properties». Os números... Esse valor, 1,1 milhões de euros, era o que os rebeldes davam (e deram?) pela cabeça de Kadhafi. A imprensa espanhola, por sua vez, noticiava que Kadhafi «tenía un imperio inmobiliario por valor de 1.000 millones de libras (unos 1.160 millones de euros)» (El Mundo).
[Texto 640]

«Enxugar/enxaguar»

Parecido

      «O electrodoméstico mais novo é o desumidificador (240W, dois anos de vida), o qual necessita de muitas horas diárias para conseguir enxaguar a humidade do ar de 80% para 79%» («Idade das coisas», Ricardo Garcia, «Pública»/Público, 6.11.2011, p. 55).
      Em ambos os casos está em causa água, sim senhor, ou pelo menos humidade: enxugar e enxaguar. Na oralidade, já tinha ouvido a confusão. Claro, o texto não foi revisto, mas a confusão é do jornalista.

[Texto 639]

Léxico: «bateia»

Cinco vezes

      «Manuel Ribeiro Gonçalves avança pelas pedras com a segurança de quem já as pisa sem ver. “Aqui não se apanha nada, se fosse lá mais abaixo...”, avisa, como que para arrefecer os ânimos. Mas não vale a pena ir mais para baixo, onde as margens do rio se tornam escarpadas e complicam o acesso à água. Serve mesmo aqui, mostre lá então como se faz. E ele mostra. Cava o areão, lava-o vigorosa mas meticulosamente na sua velha bateira. No meio do resíduo final, há alguns pontinhos que soltam lampejos amarelos à luz do sol. Ouro!» («O último garimpeiro da Foz do Cobrão», Luís Francisco, Público, 6.11.2011, p. 13).
      Talvez o jornalista ouvisse mal: para a gamela em que se lavam os minérios, nunca vi que lhe dessem outro nome que não bateia. Parecido, sim. Em castelhano é batea, de onde provém o nosso vocábulo. O jornalista descreve bem o objecto: «Agita suavemente a bateira, bacia côncava escavada numa peça única de um tronco de árvore, fazendo rodar o conteúdo em círculos que de vez em quando ganham balanço para se juntarem à corrente.» «Bateira», tanto quanto sei, é a designação dada a uma embarcação sem quilha.
[Texto 638]

Léxico: «hidroponia»

Ainda não viram

      «A 3 de Junho, um grupo de seis homens de várias nacionalidades entrou para um módulo subterrâneo, onde não entrava luz do Sol. Só consumiram comida de astronauta (com alguns alimentos frescos cultivados sem solo, através de técnicas de hidroponia, como tomates e rabanetes)» («Astronautas que simularam missão a Marte saíram da toca», Clara Barata, Público, 5.11.2011, p. 22).
      Temos de consultar um dicionário de espanhol, o DRAE, para saber o que é a hidroponia»: «Cultivo de plantas en soluciones acuosas, por lo general con algún soporte de arena, grava, etc.»
[Texto 637]

Salonica, de novo

Então veja bem

      «Amato Lusitano era judeu. Não admira, por isso, que tenha saído do país em 1534, nunca tendo regressado. Depois de ter estado em Antuérpia, obteve um lugar de professor de Medicina na Universidade de Ferrara, em Itália, onde, no exercício da dissecação de cadáveres, descobriu as válvulas venosas, uma observação que haveria de conduzir passadas algumas décadas à identificação do papel do coração no sistema circulatório. Tratou o Papa. Morreu, vítima de peste, em Salónica, então no Império Turco e hoje na Grécia, depois de ter passado em errância por várias cidades, como Ancona, em Itália, e Dubrovnick, hoje na Croácia» («Amato Lusitano, um cérebro em fuga no século XVI», Carlos Fiolhais, Público, 4.11.2011, p. 41).
      Ai que o Senhor Professor não sabe... Vá lá à biblioteca e pegue no Vocabulário da Língua Portuguesa do Prof. F. Rebelo Gonçalves. Exactamente: não é um vocábulo esdrúxulo.
[Texto 636]

«Era/é/seria melhor»

Valha-o Deus!...

      «Anda tudo a fazer contas acerca de quanto dinheiro é preciso para safar a “eurozona”, que é o nome que se arranjou para juntar ricos e pobres, credores e devedores, como se tivessem os mesmos recursos e interesses.
      Todos acham, com razão, que o trilião de euros actualmente posto à disposição dos aflitos é pouco. Uns aventam dois triliões. Outros, mais circunspectos, sussurram que seriam melhores três ou cinco» («Basta um quatrilião», Miguel Esteves Cardoso, Público, 4.11.2011, p. 41).
     «Três horas, três horas... é melhor três horas... Valha-o Deus!... Ó Cecília, eu não posso levar ao fim este caldo... Tira para lá, filha...» (Uma Família Inglesa, Júlio Dinis).
[Texto 635]

«Falésia/faleja/arriba»

Pois saiba que

      Faleja — diz-lhe alguma coisa? Pois saiba que é o termo há muito proposto para verter o francês falaise. Pouquíssimo usado, e creio que apenas no Brasil. Cá, preferimos-lhe a adaptação «falésia», embora arriba ou riba signifiquem precisamente o mesmo.
[Texto 634]

Arquivo do blogue