«Oxalá que...»

Tira, tira

      «— Oxalá que não seja um trabalho que o ocupe durante todo o tempo em que estamos em casa a passar as férias da Páscoa — resmungou Maria da Luz. — Ele tem sempre uma missão secreta a cumprir quando menos convinha que a tivesse!» (A Aventura no Circo, Enid Blyton. Tradução de Vítor Alves. Lisboa: Editora Meridiano, Limitada, 1969, p. 8).
      Na locução adverbial «oxalá que», apesar de seleccionar uma oração completiva, pode omitir-se a conjunção, e, a meu ver, até se ganha em expressividade. Aliás, até se compreende mal que se use, neste caso, a conjunção.
      A propósito desta palavrinha, Fr. Francisco de S. Luiz, no seu Glossario das Palavras e Frases da Lingua Franceza, que por descuido, ignorancia, ou necessidade se tem introduzido na Locução Portugueza moderna; com o juizo critico das que são adoptáveis nella, afirma que no princípio das proposições optativas, imprecativas, etc., o que é construção francesa: «Que saiba todo o mundo os nossos amores! Que eu morra, se isto assim não é!»

[Post 4614]

Como se escreve nos jornais

Má escolha

      «As portas da sala de audiências fecharam-se aos mirones e à imprensa, uma vez que a juíza presidente, Flávia Macedo, considerou ser necessário proteger a identidade das 16 jovens que terão sido abusadas, sequestradas ou roubadas pelo suspeito. Das 16 vítimas, duas ainda são menores de idade» («“Violador de Telheiras” confessa crimes e diz-se arrependido», José Bento Amaro, Público, 25.03.2011, p. 16).
      Se consultarmos um dicionário, vemos que «mirone» tem como sinónimos «espectador» e «observador», «aquele que vê». Mas não é um qualquer espectador: é alguém que vê e, mais particularmente, alguém que olha demasiado ou com curiosidade. Tem sempre — e talvez nenhum dicionário transmita exactamente a ideia — um certo sentido depreciativo. Ora, o público que assiste às audiências dos tribunais (que são sempre públicas, salvo quando a lei ou o tribunal determinar que se façam sem publicidade), independentemente de quem se trate, estão, no fundo, a velar pela justiça e pela democracia, pelo que não me parece bem que se diga que são mirones.

[Post 4613]

Léxico: «buliço»

Vai aparecendo

      «Longe do buliço habitual, quando as salas de audiências estão repletas, assumiu ser o autor dos delitos cometidos. E não terá sido apenas na zona de Telheiras (bairro que acabou por lhe ficar associado à alcunha), mas ainda noutros locais, como Alfragide, Linda-a-Velha ou Olivais, onde supostamente cometeu crimes idênticos, que só não vão a julgamento por não existirem participações» («“Violador de Telheiras” confessa crimes e diz-se arrependido», José Bento Amaro, Público, 25.03.2011, p. 16).
      Buliço é variante de bulício pouco usada. Nos últimos tempos, só num texto da autoria de Sofia Lorena (a jornalista da «cidade-berço») no Fugas, numa tradução e hoje neste texto. E quanto a dicionários? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a regista. Em contrapartida, tanto o Dicionário Houaiss como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa acolhem-na, registando tratar-se de termo antigo. Sim, mas subsiste. Ademais, percebe-se melhor a ortografia de «buliçoso» através desta variante.

[Post 4612]

«Dição», de novo

Que já nos ocupou

      Vasco Botelho de Amaral, acabei de o descobrir agora, explicou porque usava «dição» e não «dicção»: «Em reforço do que escrevi no vol. I dos Estudos Críticos (em análise às Bases da Ortografia Luso-brasileira), ao responder em A Voz (n.º de 22-III-47) ao Prof. Sá Nunes, fiz observar: “Note-se que as outras línguas mantêm o c tanto no termo primitivo como no derivado: diction, dictionnaire; diction, dictionary; diccion, diccionario. O italiano e o português, porém: dizione, dizionario; dição, dicionário.” Portanto, cientificamente, a “dicção” do Acordo é inaceitável como forma obrigatória» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português (Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 175).
      Não nos leva esta argumentação a pensar no caso da queda do p em Egipto, porque mudo, e a sua manutenção nas derivadas?

 [Post 4611]

«Khadafi/Kadhafi»

Se forem coerentes

      «Depois de terem atacado posições de Khadafi na estrada que liga Ajdabiya a Bengasi — cidade-berço da revolta que estava sob cerco quando a operação internacional começou, sábado —, assim como bases militares ao longo da costa, os aviões estrangeiros concentraram-se nos últimos dias em Misurata, tentando impedir o coronel de ali fazer chegar reforços» («França abate avião de Khadafi em Misurata», Sofia Lorena, Público, 25.03.2011, p. 19).
      Não, não vou tecer mais comentários em relação a «cidade-berço». Que se enxerguem. Sobre o nome do ditador líbio, sim. No Público, é Khadafi. No Diário de Notícias, é Kadhafi. Está tudo bem, desde que escrevam sempre da mesma forma. Também pode escrever-se Cadáfi, Kadafi, Gadhafi, al-Khaddafi, al-Qadhafial-Khadafi...
      Multímodo, multifário, como o próprio homem.
[Post 4610]


«Dignar(-se)»

Resta indignarmo-nos

      Nas «Cartas à Directora» do Público de hoje, podemos ler uma resposta do Centro de Estudos do Curso de Relações Internacionais, da Universidade do Minho («na qualidade de representante dos alunos de Relações Internacionais desta instituição») a um artigo de 13 do corrente de Maria Filomena Mónica. Eis um excerto dessa carta: «A segunda pergunta é, no mínimo, irónica. E nós respondemos-lhe com outra pergunta: será que a doutora Maria Filomena Mónica se deu ao trabalho de olhar para o conteúdo e para o plano curricular das licenciaturas em Relações Internacionais? Quanto à qualidade dos docentes nem dignamos essa pergunta com uma resposta, por considerarmos que é demasiado desrespeitosa, ainda para mais vinda de alguém que também é docente.»
      Tiveram quase duas semanas para escrever a resposta, mas saiu isto. Nem dignar nem dignificar. Dignar-se é um verbo pronominal, regular, da 1.ª conjugação. Há verbos que guardam a forma reflexa facultativa, como ir-se ou ir, rir-se ou rir, sorrir-se ou sorrir, mas não este. Dignar-se, à semelhança de muitos outros, como abster-se, arrepender-se, ater-se, atrever-se, esforçar-se, queixar-se, etc., trazem preso a si, como disse o gramático Rocha Lima, um pronome reflexivo fossilizado. São, como alguns autores os classificam, verbos pronominais essenciais, por oposição a verbos pronominais acidentais. Terão já reparado que a forma pronominal é utilizada na maior parte dos verbos que indicam sentimentos.
      Esta é também a oportunidade para dizer que antigamente a gutural g não era articulada neste verbo e em vozes como benigno, maligno, etc. (E, por vezes, surgiu mesmo uma variante sem essa consoante, como «malino», ainda hoje usada e dicionarizada.)
      Já agora, as perguntas de Maria Filomena Mónica eram estas: «Os promotores da manifestação de ontem são todos licenciados em Relações Internacionais. Isto habilita-os a quê? Alguém se deu ao trabalho de olhar o conteúdo destes cursos? Os docentes que os regem sabem do que falam? Duvido» («Os mitras, os boys e os betos», Público, 13.03.2011, p. 3).

[Post 4609]


Léxico: «acantonar»

Quem se queima que assopre

      Garrett usou assossegar; Herculano, Camilo, Antero de Figueiredo e outros usaram também assossegar e asserenar, lançando mão de um recurso, a próstese, de origem claramente popular. No adagiário não faltam estes verbos, e sobretudo assoprar. Jorge Mourinha, na sua crónica de hoje no Público, no que me parece uma espécie de hipercorrecção (outros virão atrás de mim increpar-me a complacência), usou o verbo «cantonar»: «E falar dele [Artur Agostinho] como “homem da rádio”, como alguns noticiários fizeram, equivale a cantoná-lo num papel que, se foi o mais importante da sua carreira, foi apenas uma parte dele — e, ironicamente, a parte que menos dirá a muitos daqueles que hoje se recordam dele das novelas ou dos talk-shows onde era convidado regular» («Artur Agostinho», «P2»/Público, 24.03.2011, p. 10). (Quanto à substância da crónica, se é que pode descortinar algo remotamente parecido, pode ser resumida no último parágrafo: «Mas é significativo que tanto Júlia Pinheiro como Jorge Gabriel estivessem verdadeiramente emocionados ao encerrarem as suas emissões da manhã de terça-feira: isso diz mais sobre Artur Agostinho do que dezenas de obituários.»)
      Em espanhol, sim, existe o verbo cantonar, que significa o mesmo que o nosso «acantonar» (e acantoar, variante). Quanto às formas prostéticas, não faltam, mormente na oralidade: alevantar, amostrar, alimpar, abaixar... E, imorredoiro, aquase.
[Texto 4608]

«Pago/pagado»

Sua Excelência o Gosto

      Tem muita razão no que escreve, caro M. L., mas veja o que já Vasco Botelho de Amaral escreveu sobre o assunto: «Devemos fugir às extravagâncias da expressão, ainda que tenhamos por nós a licença da veneranda Gramática.
      Esta ensina que pagado é um particípio regular com legítimo emprego, principalmente com os verbos ter e haver. No entanto, a linguagem tem os maiores imprevistos. E assim é que se está a assistir à preferência por antigas formas participiais, como pago, tinto, escrito, etc., e ao desprezo das regulares, como pagado, tingido, escrevido, etc.
      Tenho aqui a Lírica, de Camões. Abro-a, à pág. 40 (ed. de 1932), e leio: “Um amor tão mal pagado.”
      Hoje, porém, o nosso gosto o que levaria a dizer seria — um amor tão mal pago.
      É que Sua Excelência o Gosto é muito despótico, e, por isso mesmo, inconstante, contraditório.
      E as línguas obedecem-lhe cegamente, no que ele tem de bom e no que tem de mau.
      Camões gostou do pagado. Mas nós agora não gostamos; preferimos pago.
      Não vai nisso nenhum mal ao Mundo nem à língua» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português (Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, p. 292).


[Post 4607]

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