«Grilo realista»

Imagem tirada daqui

Realmente

      «Para que pudesse render, efectivamente, os cinco centavos, o bicho tinha de apresentar dois rabos e uma lista dourada junto à cabeça, sendo estes os indicadores de que se tratava de um “realista”. Designação dada aos melhores cantores — os machos de grilo silvestre» («Já não se ouve o cantar dos grilos no campo», Roberto Dores, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 58).
      Claro que os dicionários mais modernos já não registam a acepção do vocábulo. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado regista-o: «Realista, adj. Prov. alent. Diz-se em Portel e noutros pontos do Alentejo do grilo muito cantador, a que também chamam cantarrista.» De qualquer maneira, não tarda nem os próprios grilos existirão. «Aliás, nos anos 40 e 50 do século 20, o grilo conquistou a simpatia entre os maiores centros urbanos portugueses, passando mesmo a ser moda colocar uma pequena gaiola com este insecto nas janelas do centro de Lisboa. Não faltavam clientes que corriam à Praça da Figueira ou à Rua do Arsenal para garantirem a compra de um insecto por cinco tostões, acabadinho de chegar dos campos do Alentejo, via autocarro da carreira. O serviço era gratuito, viajando os grilos no interior de canas, até às mãos dos vendedores, que os aguardavam na capital» (idem, ibidem). 
      Viajavam em canas ou em gaiolas feitas de cana (como a da imagem)? É que é diferente. (E repararam no «século 20»? Pensava que só se escrevia assim no Record e no Brasil.)

[Post 4558]

Topónimos

Do Japão

      «A explosão do edifício onde se encontra o reactor n.º 1 da central de Fucoxima-Daiichi veio adicionar o factor de um possível desastre nuclear de grandes proporções no Japão, 24 horas após o sismo de 8,9 de magnitude que atingiu sexta-feira a principal ilha do arquipélago, Honxu» («Japão vive pior acidente desde Chernobil», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 44).
      Podem ser questões menores, estas da ortografia, mas apenas se relativas a lapsos temporais longos. No Público, lê-se Fukushima e Honshu.  Mas também pergunto: porquê Fucoxima e não Fucuxima? Por outro lado, Diário de Notícias e Público grafaram Chernobil.

[Post 4557]

Tradução: «chiller»

Frio, frio

      «A trigeração é um processo em que se faz o aproveitamento total da energia produzida pelos motores. Como o nome indica, esta é usada em três vertentes: energia eléctrica, aquecimento e arrefecimento. “Os três motores a gás natural que vão ser instalados terão uma capacidade total de produção de energia de 7,3 megawatts, algo que dá para alimentar o equivalente a 15 mil habitações”, referiu João Oliveira. Parte desta energia será vendida à Rede Eléctrica Nacional e a outra parte será usada para aquecimento dos edifícios e de águas. Vão ser ainda instalados dois chillers de absorção, com uma potência total de 4,3 MW e um chiller eléctrico de 3 MW, para arrefecimento do edifício durante o tempo quente» («Nova central no Hospital de São João evita lançar 3700 toneladas de CO2 para a atmosfera», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 13.03.2011, p. 42).
      E não se podia — o que acha, caro Fernando Ferreira? — traduzir por «arrefecedor»? O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa — oh vergonha — não regista «co-geração», quanto mais «trigeração». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por sua vez, acolhe somente «cogeração», assim, sem hífen.

[Post 4556]

«Sumô/sumo»

相撲 

      Ainda Jacques Chirac: «É um bon vivant, que aprecia a boa comida, o desporto (é conhecida a sua paixão pela modalidade do sumô), foi um feroz consumidor de cigarros e não se amedronta em dizer em público frases pouco simpáticas para países ou líderes políticos, como sucedeu durante o período da segunda guerra do Golfo» («Um presidente francês sem vergonha nem glória», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 12.03.2011, p. 44).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista «sumo», a grafia mais habitual. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa por esse nome só conhece o líquido orgânico extraído ou libertado de uma matéria vegetal ou animal ou o cume, o cimo. É grafia preferencialmente brasileira, como judô, metrô, puré, bebê, canapê, bidê... Está registado com esta grafia no Dicionário Houaiss.


[Post 4555]

Uso do latim

De pé atrás

      Abel Coelho de Morais traçou hoje, no Diário de Notícias, o perfil (mais um termo com uma definição deficiente no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa) de Jacques Chirac. Eis um excerto: «Noutra ocasião, menosprezou a gastronomia britânica ao dizer que um povo que cozinha assim “não é de confiar”. O que, cum grano salis, não deixa de ter algum fundo de verdade» («Um presidente francês sem vergonha nem glória», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 12.03.2011, p. 44).
      Posso estar a avaliar mal, mas creio que o jornalista apenas quis alardear que conhece uma expressão latina, mas saiu-se mal. Cum grano salis traduz-se, literalmente, por «com um grão de sal». Dito por outras palavras, significa que se deve temperar o que alguém disse ou escreveu, porque revela um exagero de qualquer natureza. Ou seja, sem ser falso, é conveniente que seja visto com algumas reticências. Aderir, da forma que o jornalista o fez — «não deixa de ter algum fundo de verdade» — mesmo que com tais arrevesadas cautelas, à afirmação de Chirac é inconcebível. 

[Post 4554]

Sobre «intergeracional»

Para rever

      Mário Rui Cardoso, no noticiário da 5 da tarde na Antena 1: «Prossegue o protesto da Geração à Rasca, um protesto que junta gerações. Tem sido assim na manifestação em Lisboa, Olívia Santos, um protesto intergeracional.»
      O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o único que regista o adjectivo «intergeracional», define-o como o que é «relativo às relações entre gerações (ex.: conflito intergeracional)». Mas será uma definição correcta? Pensemos noutro adjectivo semelhante: «intergovernamental». A definição daquele dicionário é a seguinte: «Realizado entre dois ou mais governos.» É o uso mais frequente a condicionar a definição. A clarividência louca de um Dr. William Chester Minor atinaria com (a) melhor definição.

[Post 4553]


Sobre «camuflado»

Escondido, disfarçado

      Sempre dissemos, como Montexto, «dicionários, por melhores que sejam, nenhum suficiente, todos necessários». Por estes dias, a surpresa foi não ver registado em nenhum dicionário — com excepção, mais uma vez, do Dicionário Houaiss — o substantivo «camuflado». Nem sequer nesses dicionários que há por aí que acolhem acriticamente tudo, quais albergues espanhóis. «Roupa, geralmente de carácter militar, com cores e padrões que permitem fácil camuflagem.» O galicismo camouflage, «disfarce», entrou na língua portuguesa durante a Grande Guerra. No século XVI, pelo contrário, é que, como já aqui vimos, os soldados, que não eram obrigados a um modelo uniforme, usavam trajes vistosos, garridos.


[Post 4552]

Sobre «charuto»

Etimólogo/tarólogo Dr. Caos

      Está aqui uma crioula imensa e velha e nua a fumar charuto. Está, salvo seja, é literatura. E a propósito, trago aqui Agostinho de Campos: «A primeira conclusão [de que em Portugal se chamou algum tempo cigarro ao charuto, como nas mais línguas europeias] deve estar certa e confirma-a a expressão castelhana puro, que neste caso é a abreviatura de cigarro puro (todo de tabaco), por oposição a cigarro de papel (enrolado em papel, e não em tabaco)» («Os belos charutos e as míseras “ilhas” do Pôrto», in Língua e Má Língua. Lisboa: Livraria Bertrand, 1944, pp. 31—32). Pois é, charuto parece que veio do tâmil através do inglês cheroot, e apenas no início do século XIX. Isto dizemos nós, que os Ingleses afirmam, numa humildade rara neles, que receberam a palavra do tâmil através do português no fim do século XVIII.

[Post 4551]


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