Como se escreve nos jornais

Outra vez não!


      A Fundação José Saramago realizou ontem na Biblioteca Municipal do Palácio Galveias uma sessão comemorativa dos 12 anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago. Até aqui, tudo normal. E quem esteve presente? O Diário de Notícias conta: «A iniciativa da Fundação José Saramago contará com a presença da mulher do escritor e presidenta da instituição, bem como de vários amigos que o autor convidou então para estarem presentes na entrega do Nobel em Estocolmo. A sessão terá início pelas 18.30, na Biblioteca Municipal do Palácio Galveias» («Fundação evoca prémio a Saramago», Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 45).
      Um escritor quer que lhe escrevam o nome com minúsculas, e a imprensa escreve. O presidente de uma fundação, por acaso mulher, quer que a designem por «presidenta», e a imprensa, genuflecta, obedece. Aonde é que isto vai parar? Onde estão o discernimento, o critério, a independência?

[Post 4185]

Como se escreve nos jornais

Falta de sensibilidade


      As trufas voltaram ao Diário de Notícias. (São notícias repetidas, mas só para os leitores regulares...) Desta vez, a jornalista (não sabemos se a mesma, mas Nysse Arruda já a conhecemos de outros balanços) acertou no topónimo: «Apreciada desde os tempos dos sumérios, em torno de 1700-1600 a.C., a trufa branca tem sido considerada um fruto precioso e raro e motivado lendas e tendências em todas as épocas — para os gregos era um fruto tão valioso que os cozinheiros que inventassem novas receitas mereciam a cidadania; durante a Idade Média chegou a ser considerado um alimento do Diabo ou dos bruxos e feiticeiros, porque não se conseguia perceber se a trufa era um animal ou vegetal; mais tarde, os nobres e a realeza europeia consideravam-na como o melhor produto gourmet, especialmente na região do Piemonte, Norte de Itália» («Trufa-branca, a iguaria mais rara», Nysse Arruda, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 48). Mas depois, sai isto: «O requintado jantar começa com um quase etéreo prato de topinambour (uma espécie de alcachofra conhecida como alcachofra-de-Jerusalém) e girolles (um delicado cogumelo) com trufa-branca”, seguido por um ravioli de pecorino e parmesão com caldo de trufa-branca”» (idem, ibidem).
      Como brasileira que é, a jornalista devia estar alerta: há ali uma palavra do tupi disfarçada de francesa. Topinambour, exactamente. Em português diz-se topinambo, topinambor, tupinamba, tupinambo. Chega? Quero lá saber como dizem os chefes. Eu também não lhes digo como devem preparar as trufas. E mais: é alcachofra-de-jerusalém.

[Post 4184]

Tradução: «back-office»

Fala cristão


      «“Com um grande número de trabalhadores sazonais a trabalhar nas lojas, nos armazéns, em centros de distribuição e no back-office do retalho virtual, os gestores das lojas devem estar cientes do aumento do potencial de furto durante este período”, alerta o estudo, patrocinado pela empresa de gestão Checkpoint Systems» («Roubos no período de Natal valem 68 milhões», Rute Coelho, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 18).
      É um excerto de um estudo britânico chamado «Shoplifting for Christmas 2010». A dificuldade de traduzir o termo back-office (que eu só ouço aos empregados da Worten) não empancou o fluxo tradutológico da jornalista — ou não fosse jornalista. Vê-se que desconhece o exame Vieira (de Joaquim Vieira, ex-provedor do jornal Público): «Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?» «Rute, fala cristão», recomendar-lhe-iam.

[Post 4183]

Cultura

Tem pilhas de graça


      «O candidato presidencial apoiado pelo PS e BE, Manuel Alegre, revelou ontem que está “muito mais bem preparado que Cavaco Silva”. Razões: “Conheço a História e sei há muito tempo, desde pequeno, quantos cantos têm Os Lusíadas”, destacou» («Alegre é melhor por “saber quantos cantos têm ‘Os Lusíadas’», Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 12).
      Este é um segredo mau de suster, por isso, lá vai: o revisor antibrasileiro julgava que se podia ser candidato a presidente da República com 18 anos. Ora, com adversários desta idade, Manuel Alegre não podia bazofiar, pois conhecem-se mesmo resumos do poema épico e nem é raro saber-se o número de estrofes. O estudante mais cerebrino nem ignora que as últimas duas palavras d’Os Lusíadas são «ter enveja».

[Post 4182]

Anglicismos

Para acabar


      «Facto é que, mesmo reduzindo o prize money, de 150 mil para 100 mil euros, a prova portuense bateu recordes em termos de pedidos de inscrição, tendo listas de espera em vários países» («Dezoito milhões de euros em cavalos», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 36).
      Para terminar, o jornalista tinha de usar a expressão inglesa prize money. Deve ser na esperança de Athina Onassis ler o artigo... Se tivesse escrito prémio monetário, o marido dela, o cavaleiro Álvaro Miranda, que é brasileiro, traduzia para ela entender, e o jornalista não nos mandava para cima com mais inglesias desnecessárias. Vamos lá ver, agora mais a sério: se é mais ou menos compreensível que a organização use esses termos, mesmo em programas escritos em português, já não se passa o mesmo com o jornalista. São públicos diferentes.

[Post 4181]

Anglicismos

Olha, olha


      «Nos últimos dias, os pavilhões do salão de exposições nortenho ganharam a forma de um hipódromo em grande escala de modo a acolherem a maior prova hípica indoor que se realiza em Portugal: ao todo, foram transportados 60 camiões TIR de areia, 12 toneladas de palha e feno e 300 boxes para receberem os mais de 250 cavalos, avaliados em 18 milhões de euros, que vão participar na prova portuense, que este ano desceu um patamar em termos de prestígio competitivo como resultado da crise» («Dezoito milhões de euros em cavalos», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 36).
      Eu sei que se costuma dizer e escrever — mas usar o termo indoor parece-me subserviência no último grau, e até apetece dizer umas vernaculidades aliviadoras acerca disso. Então agora imaginem que eu traduzia «indoor training ring» por «picadeiro indoor». Qual é que era o homem sério que não deixaria escapar, pelo menos, um frouxo de riso? Boxes também já é um caso perdido. Os Ingleses, desimaginativos, têm caixas para os cavalos. Nós só cavalos de brincar enfiamos em caixas, quanto aos outros, é, e há muito tempo, em baias.

[Post 4180]

Léxico: «culote(s)»

Athina com os números


      «O equipamento para o cavalo, com sela, cabeçada e protecção dos cascos ronda um investimento na ordem dos dois mil euros. Já o equipamento do cavaleiro custará sensivelmente o mesmo e é composto por casaco, colete, culotte (calças), botas, capacete e chicote» («Dezoito milhões de euros em cavalos», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 36).
      É como se escreve sempre — mas a palavra está aportuguesada há bastante tempo: culote(s). Claro que parece mais fino, sobretudo porque no artigo principal e num de apoio se refere a multimilionária Athina Onassis e os seus milhões. É «herdeira de uma fortuna estimada entre 750 milhões e 1,5 mil milhões de euros», lê-se no artigo. Pode ser e pode não ser: num artigo mais à frente, «Em lágrimas Oprah Winfrey nega ser lésbica» (p. 53), lê-se que a apresentadora «tem uma fortuna avaliada em cerca de dois milhões de euros». Bah.

[Post 4179]

Acordo Ortográfico

O acordo é um fato... roto


      «Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação dos Professores de Português (APP), lembra que “estamos já numa fase de transição” e que a convivência com as duas grafias — a actual e a nova — levará muito tempo. Sobre o impacto que essa situação poderá ter na avaliação dos alunos, o responsável referiu que a APP sugeriu que “durante o período de transição as duas grafias sejam aceites”. Ou seja, escrever facto ou fato será aceite, sem ser considerado um erro. Medida que foi aplicada pelo Ministério da Educação nos exames nacionais» («Editoras prontas a aplicar o Acordo Ortográfico», Ana Maia, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 16).
      Se até uma jornalista, cujo trabalho anda todo à volta da língua, escreve este disparate, imagine-se o cidadão comum. Sabe Deus quem lhe disse que era assim...

[Post 4178]

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