Léxico: «cadeirante»

Vem do Brasil?

      O trânsito e o estacionamento foram reordenados na Aldeia do Meco, Sesimbra. Comerciantes e moradores descontentes. O programa Portugal em Directo, da Antena 1, mandou lá a repórter Lídia Cristo. O maior motivo de queixas são os passeios: Fala Maria Adelina Costa, proprietária de um bar: «De qualquer maneira, os pilaretes que eles fizeram não servem nem como passeio, não serve para passar um carro de bebé, não dá para um cadeirante […].» Cá está um neologismo que ainda não marca presença nos jornais e revistas. Cadeirante é o termo utilizado para designar a «pessoa que, por deficiência física, ou por estar provisoriamente impossibilitada de andar, locomove-se em cadeira de rodas», na definição do Dicionário Aulete Digital, único que conheço que regista o vocábulo. Apresenta vantagens inequívocas: numa só palavra, inclui tanto deficientes como não deficientes que se locomovem em cadeira de rodas. Está bem formado (vamos esquecer que não há nenhum verbo cadeirar, porque há muitos outros nas mesmas circunstâncias) e vem preencher uma lacuna.
[Post 3941]

Tradução: «a la ligera»

Sem ligeireza


      Duas personagens de Cervantes, dois jovens nobres, «puestos, pues, a la ligera, se pusieron en camino». Podemos temer traduzir a locução a la ligera por à ligeira, mas decerto que por coincidir com outra, essa castelhana até ao tutano, intransmissivelmente idiomática: a la ligera, «sem reflexão». Mesmo esta traduz-se, sem surpresa, por uma locução que tem um vocábulo da mesma família: com ligeireza. A que cito acima, porém, significa «sem aparato, com menos comodidade e companhia da que corresponde». Ora, em português, à ligeira é o mesmo que «sem aparato, com simplicidade, rapidamente». No verbete de rorário, por exemplo, José Pedro Machado regista que «era o soldado romano armado à ligeira».

[Post 3940]

Léxico: «neotenia»

Nascem por fazer


      «Os seres humanos são constitutivamente abertos à questão ética, porque nascem por fazer, devido à neotenia, e devem fazer-se bem moralmente, porque a sua lei é a lei da liberdade e da dignidade. Devemos habitar o mundo eticamente (o étimo de ética é êthos, morada)» («Quem guardará o guarda?», Anselmo Borges, Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 62).
      Tanto o Dicionário Houaiss como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam o vocábulo; o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa perdeu o verbete ou considerou, erradamente, que nunca se usa. A neotenia é, na definição do segundo dicionário referido, o «atraso no desenvolvimento morfológico do indivíduo, o que ocasiona, por vezes, o aparecimento de maturidade sexual na forma larvar, ou, pelo menos, numa forma atrasada». Para o Dicionário Houaiss, é a «pedomorfose produzida pelo retardamento do desenvolvimento somático, de maneira que a maturidade sexual é atingida em um organismo que retém características juvenis». Pois é: má técnica lexicográfica: para conhecermos um conceito, temos de consultar dois verbetes. Pedomorfose (vocábulo ignorado pelos outros dois dicionários) é a «presença de caracteres primitivamente juvenis, larvais ou embrionários em um organismo adulto».

[Post 3939]

«Pontos de espantação»

Já têm nome


      «O blogue Arrastão é dos melhores, opinião assertiva e escrita inteligente. Esta semana, Bruno Sena Martins, um dos autores do blogue, escreveu: “Otamendi, curioso nome, soa como que vindo da América do Sul, mas afinal vem da Argentina.” Houve um leitor na caixa de comentários que escreveu: “Otamendi, curioso nome, soa como que vindo da América do Sul, mas afinal vem da Argentina??????????” Reparem, a contribuição do leitor foram dez pontos de espantação» («Cala a boca, Magda!», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 64).
      Pronto, Ferreira Fernandes já lhe deu nome: ponto de espantação. Claro que só com mais de um percebemos que os comentadores, anónimos ou não, ficaram espantados.

[Post 3938]

Sobre «romanche» e «rético»

Vai dar uma volta à Récia


      «Constituída por quatro comunidades linguísticas — alemão, francês, italiano e romanche —, a Suíça baseia a sua unidade enquanto nação no passado comum e na partilha de princípios como o federalismo, a democracia directa e a tal neutralidade que sempre a caracterizou» («A excepção de ser República na Europa de 1910», Helena Tecedeiro, Notícias Sábado, 2.10.2010, p. 13).
      Munido somente de um exemplar do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o leitor não vai muito longe: o verbete «romanche» remete para «rético», e este regista que, como adjectivo, é o referente à Récia, região oriental da antiga Gália» e, como substantivo, é a língua novilatina também chamada romanche. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, por seu lado, que regista romanche, é no verbete rético que fornece mais informação: «Língua românica, também chamada romanche, falada em três pequenas regiões distintas: nos Grisões (Suíça), no Tirol (Áustria) e no Friul (Nordeste de Itália).» O Flip 7 não reconhece nenhuma das duas palavras.

[Post 3937]

«Implementação da República»

Impudica, como a representação


      Quando estava a ouvir na Antena 1 a cobertura das comemorações do centenário da implantação da República, com a repórter Maria Flor Pedroso a falar das «quatro pontas da Praça do Município» e, graças ao forçado convívio com políticos, a falar dos «cidadãs e cidadãos» que ali se encontram, eis que um leitor me mandou esta hiperligação para um texto de José Medeiros Ferreira que denuncia o uso da ignorante expressão «implementação da República». Que absoluta miséria intelectual. E anda esta gente a discursar na ilusão de grande orador...

[Post 3936]

«Conscientização/consciencialização»

Que pobreza


      «O rinoceronte é um narrador, sou eu [escritora e filósofa francesa Catherine Clément]. Foi um animal que existiu, sei tudo sobre ele, o ano em que nasceu e como viveu em Portugal e em Praga. Era um tipo de prenda habitual trocada entre chefes de Estado, e, em França, foi Mitterrand o último presidente a receber animais vivos. Foi-lhe oferecido um elefante com seis meses numa cerimónia peculiar, no primeiro andar da Torre Eiffel, e foi o cabo dos trabalhos para o fazer subir no elevador. A conscientização das questões ecológicas acabaram [sic] com essas trocas de presentes» («Afinal D. Sebastião não morreu», João Céu e Silva, «DN Gente»/Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 16).
      No Ciberdúvidas, um leitor queria conhecer a posição dos consultores sobre os termos conscientização e consciencialização, mas a resposta da consultora está quase inteiramente centrada na própria: «não há dúvida de que não conhecia o termo», «é mais uma palavra para acrescentar ao meu vocabulário». Francamente, isto até o dono do quiosque onde compro o jornal me saberia dizer. Posição, opinião. O termo parece ter sido criado pelo pedagogo brasileiro Paulo Freire (1921―1997), e é um conceito central na filosofia da educação daquele pedagogo. «Conscientização» está tão bem formado como «consciencialização», mas este último é quase exclusivamente o único que se usa e conhece em Portugal.

[Post 3935]

Hífen em apelidos

Rejeitado pelo hífen


      «Em privado, o nome do ex-reitor da Universidade de Lisboa circulava como sendo o provável candidato dos comunistas às próximas eleições para Belém. O partido, no entanto, terá preterido o intelectual em favor do proletário. José Barata-Moura, que sempre a manteve o hífen no nome, não é o candidato. Mas está na luta, no papel de mandatário nacional de Francisco Lopes à Presidência da República, candidatura apoiada pelo PCP» («O filósofo que ajudava os meninos a comer a papa», Francisco Mangas, «DN Gente»/Diário de Notícias, 2.10.2010, p. 2).
      Dito assim, até parece que o hífen, e o que significa, é o argumento oculto do PCP para não o ter escolhido para candidato. E quanto a manter o hífen, parece ser uma determinação dele, pois na imprensa o nome aparece quase sempre sem hífen. Por outro lado, e, na verdade, o único aspecto (para além, obviamente, do sociolinguístico) que interessa, tem o ex-reitor da Universidade de Lisboa direito a usar o hífen no nome? Herdou-o ou acrescentou-o? Todos conhecemos casos de pura pretensão. Imaginem uma mulher portuguesa de apelido Maria Silva que casou com um Sr. Adlersflügel. Pode assinar Maria Silva-Adlersflügel? É claro que sim. Pode exigir que os outros o façam? É claro que não.


[Post 3934]

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