Plural: «ravióis/raviolos»

Como graffiti


      Era a mulher mais bonita que eu vi nos últimos anos. Quis comprovar que falava, e o facto de ela estar num hipermercado a promover certos produtos possibilitou o desiderato. Não precisei de lhe perguntar nada, pois duas senhoras idosas anteciparam-se. «São raviolis da Buitoni.» Contudo, o plural é ravióis ou raviolos. Ravioli, o étimo italiano, já é um plural, o singular é raviolo.

[Post 3929]

Ortografia: «farmacoeconomia»

Já basta a estranheza


      «Afecta milhares de portugueses — um em cada cinco —, mata 1200 por ano e custa 118 mil milhões de euros à Europa. Ontem falou-se da depressão, uma doença que, segundo Jorge Félix, especialista em fármaco-economia, “é o principal factor de risco para o suicídio”» («Depressão mata mais de mil portugueses todos os anos», Carla Marina Mendes, Destak, 1.10.2010, p. 7).
      Não devia escrever-se farmacoeconomia? Claro que sim. Não vejo, porém, o vocábulo registado em nenhum dicionário. O revisor antibrasileiro tem uma teoria em relação a estas lacunas: quando é difícil, os dicionários evitam tomar posição. Nós, não. Juntem este: farmacoepidemiologia.

[Post 3928]

Ortografia: «desatarraxar»

Pobre diabo


      «O socialista Paulo Barradas acaba de inventar uma nova profissão liberal: “deputado”. É assim, pelo menos, que ele se apregoa na tabuleta que mandou pendurar à porta do seu escritório, em Lamego. O pior vai ser quando tiver de desatarrachá-la da parede...» («Profissão», O Diabo, 28.09.2010, p. 24).
      Será a irreverência incompatível com a ortografia? Não existe nenhum verbo *desatarrachar, mas sim desatarraxar. E, pelo que vejo em alguns dicionários, ignora-se que a tarraxa também é uma ferramenta usada pelos canalizadores para fazer roscas machas nos tubos. Neste caso, o pior é o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que precisa mesmo de redigir urgentemente um novo verbete. No trecho do artigo de O Diabo, desatarraxar é sinónimo de desaparafusar.

[Post 3927]

Regência: «desfrutar»

Camilo diz como é


      «Deixava uma avultada esmola a uma criada, por nome Eugénia, com a condição de recolher-se a um convento, como criada, onde desfrutaria, e só aí, os rendimentos dessa esmola, que por sua morte seria aplicada em missas por alma dela» (Mistérios de Lisboa, Camilo Castelo Branco. Fixação de texto por Laura Arminda Bandeira Ferreira. Nota preliminar de Alexandre Cabral. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 10.ª ed., conforme a 5.ª, última revista pelo autor e em confronto com a 1.ª, 1969, p. 302).
      Embora modernamente se aceite a preposição, tratando-se de um verbo transitivo directo, também prefiro usá-lo sem preposição.

[Post 3926]

Ortografia: «terra natal»

Pecha hodierna


      «Jesus faleceu poucas horas depois de orientar o clube da terra-natal, o Sporting de Espinho, num jogo da Zona Centro da II Divisão, contra o Boavista (1-1)» («O guardião que fica na história do V. Guimarães e da selecção», R. M. S., Diário de Notícias, 28.09.2010, p. 47).
      O revisor antibrasileiro iria grunhir de espanto e dor: ele não admite (!) hífen nem sequer em casa-mãe ou em factor-chave. Engana-se, contudo, em relação a estes últimos.

[Post 3925]

Abdalá e aiatola

Assim é que é


      «“A Rainha passará duas noites no hospital e deverá regressar à Jordânia ainda no decorrer desta semana”, indica o texto. A Rainha da Jordânia acompanhou o Rei Abdalá II na sua visita a Nova Iorque, onde efectuou uma intervenção nas Nações Unidas» («Rainha Rania da Jordânia foi operada», Diário de Notícias, 28.09.2010, p. 55).
      Deve ser dos poucos jornais portugueses que dão este ar aportuguesado ao nome do rei Abdullah II ibn Al Hussein. Muito mais ridículo era (ou faziam crer que era) aportuguesar ayatollah, e eis que actualmente já se vai vendo por todo o lado aiatola (que, ó descuido!, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa reconhece mas não regista). Tempos ominosos esses, em que se acreditava que o título era nome próprio.

[Post 3924]

Júri/jurado

Não vá alguém pensar


      «Outra coisa é alguém do alto de um poder, como ser júri dos Ídolos, na Sic, se permitir humilhar publicamente (é na tevê) gente cuja culpa é só estar iludida sobre os seus dotes» («Um supor para explicar os ‘Ídolos’», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 27.09.2010, p. 60). Na mesma crónica, mais adiante, o jornalista mostra, sem nunca usar a palavra «jurado», conhecer o conceito de «júri» (cujo verbete no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa precisa de uma nova e melhor redacção), mas, na frase citada, há erro. O pronome alguém (de resto muito especial, dado o seu uso como substantivo) não designa uma pessoa ou alguma pessoa cuja identidade não é especificada ou definida? Singular. Logo, não há um alguém que possa ser júri, apenas integrar um júri.

[Post 3923]

Como se escreve nos jornais

Bem e mal


      «No aniversário do golpe e contra-golpe conhecidos, no PREC, por “maioria silenciosa”, a Lusa difundiu novas e emocionantes declarações do “doutorado em Sociologia pela Universidade de Genebra” António Barreto, que integra, pela Direita (pela Esquerda ataca Boaventura Sousa Santos), a minoria barulhenta de tudólogos que jornais e TVs ouvem a propósito de tudo e de nada, principalmente de nada. A preferência dos media pela tudologia de tipo oracular praticada por Barreto e congéneres explica-se pela sua inesgotável capacidade para produzir manchetes capazes de “épater les bourgeois”» («Depois dele, o Dilúvio», Manuel António Pina, Jornal de Notícias, 29.09.2010, p. 56).
      Tudólogo e tudologia são achados, sem dúvida, mas não compensam os erros e más opções. Desde logo, é contragolpe que se escreve. Entre TV’s e TVs, venha o Diabo e leve as duas mais os media. Quanto ao antipoético ódio (e inveja?) que ressuma cada sílaba, não cabe tratar neste blogue, pois não é matéria linguística.

[Post 3922]

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