«Corta-fogo»

Antifogo


      «A existência de muretes (pequenos muros) corta-fogo pombalinos no topo do número 24 da Rua Nova do Almada, em cuja cobertura deflagrou na madrugada passada o incêndio que fez uma vítima mortal e deixou duas pessoas desalojadas, terá sido determinante para evitar a propagação das chamas aos edifícios contíguos» («Construção pombalina pode ter evitado nova tragédia no Chiado», Inês Boaventura, Público, 12.2.2010, p. 27).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista como invariável este adjectivo. O Dicionário Houaiss, por sua vez, sem o registar como tal, no exemplo que dá usa-o como invariável. No sítio do Colégio Santo Américo, em São Paulo, no Brasil, fundado por monges beneditinos húngaros, lê-se que correcta é a frase «Comprei duas portas corta-fogos». Já agora, em inglês diz-se fire-rated walls.

[Post 3133]

Actualização em 19.4.2010

      Por vezes, também se lê corta-incêndios: «Subi no elevador para o segundo andar, passei por duas portas corta-incêndios e percorri o longo corredor, cujo soalho polido rangia de forma familiar» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 409).



Intimidar/intimar

Fazer entrar no espírito


      Enquanto Mário Crespo estava no Grémio Literário no lançamento do seu livro A Última Crónica, a sua cadeira na Sic Notícias era ocupada pelo jornalista Miguel Ribeiro. Quando entrevistou João Palmeiro, presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, perguntou: «Acha que fazem bem os jornalistas não cederem a estas intimidações judiciais?» Referia-se, é claro, à providência cautelar interposta por Rui Pedro Soares, administrador da PT. Um jornalista confundir intimar com intimidar é lamentável. Intimar é tornar ciente com autoridade oficial; notificar. Intimidar é inspirar receio, medo ou temor a; amedrontar. Não há dúvida de que, com uma intimação, se consegue intimidar uma pessoa. Em latim, intĭmo,as,āvi,ātum,are é fazer algo penetrar. Só em sentido figurado é que significa fazer algo (uma ordem) penetrar no espírito de outrem; interpelar; notificar. É disso que estes jornalistas precisam: que alguém lhes faça penetrar na mente a diferença.

[Post 3132]

Sobre Wrens

Às ordens


      «[…] quando, um ano depois do início da Segunda Guerra Mundial, ingressou nas Wrens […]».
      Popularmente, e até oficialmente, conhecido como Wrens, sim, mas a partir do acrónimo de Women’s Royal Naval Service. Era o ramo feminino da Marinha Real britânica. Se designa uma entidade, um organismo, não tem de ser grafado em itálico.

[Post 3131]

«Irrecomendável» e «sobreendividamento»

Outros fretes


      «Noticiou a edição de ontem do Diário Económico que o acrónimo “PIGS”, composto pelas iniciais de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha e utilizado pelos mercados internacionais para designar os países com tradições irrecomendáveis de défices elevados, sobrendividamento e altos índices de desemprego, viu nascer um irmão gémeo» («Porcos e estúpidos», José Luís Seixas, Destak, 10.2.2010, p. 19).
      Embora ainda não conste dos dicionários (mas a edição Primavera-Verão, perdão, de 2011, do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora parece que vai incluí-lo), é sobreendividamento a grafia correcta, com dois ee. (Claro que a revisora não pode mexer numa vírgula do texto do Sr. Dr., que pode ofender-se.) Irrecomendável também não consta dos dicionários, nem é preciso para ser usado.

[Post 3130]

Como se escreve nos jornais

Fretes


      Como todos os empregados e funcionários, os jornalistas têm de cumprir as tarefas de que os incumbem. Por vezes, escrevem sobre temas que não dominam nem apreciam. Na edição de ontem do Destak, Margarida Caetano escreveu, a propósito do Dia dos Namorados, um texto com o título «Descubra os seis melhores afrodisíacos do mundo». Xarope de sangue de cobra, espetadas de baiacu, crocantes de formiga culona... Quando chegou ao suco da mosca espanhola (Cantharis vesicatoria, cantárida), já celebrado por Júlio César e pelo marquês de Sade, afirmou que só se recomendam as «versões» destiladas e que se podia encontrar na «Europa, em qualquer bom boticário». Dito assim, acho que é mais fácil encontrarmos uma mosca espanhola do que um boticário...

[Post 3129]

Pleonasmo

Cuidado


      Claro que há pleonasmos e pleonasmos. «Apenas uma coisa foi alterada: viu-se obrigado a deixar escapar uma “fuga” de informação sobre a sua corrida à liderança do partido. “Eu disse a toda a comunicação social que só falaria sobre esta matéria na sexta-feira e eu tenho esse terrível hábito: eu cumpro sempre o que digo, eu cumpro a minha palavra”, declarou [José Pedro Aguiar-Branco], à saída do Parlamento, numa crítica, indirecta e azeda, ao avanço de Rangel» («Aguiar-Branco não recua mas altera estratégia de candidatura ao PSD», Filomena Fontes, Luciano Alvarez e Nuno Simas, Público, 11.2.2010, p. 9).
      Não bastava terem escrito «deixar escapar informação»?

[Post 3128]

«Solução de continuidade»

Críticos mas justos


      Na emissão de ontem do programa Directo ao Assunto, na RTPN, Emídio Rangel, que defende o Governo e Sócrates como ninguém (nem os socialistas) no País, ainda teve tempo de elogiar o discurso em que Paulo Rangel anunciou a candidatura à liderança do PSD. Pois a mim não me pareceu nada de memorável, bem pelo contrário. Com os adjectivos, previsíveis e bem-comportadinhos, a ampararem, simples ou aos pares, os substantivos, parecia uma composição das alunas da minha mulher — que têm 10 anos!
      Para ser justo, porém, ilibo-o da acusação de ontem: afinal, caro Francisco, o homem conhecerá a definição de solução de continuidade, que, de resto, nem sequer usou. Veja-se: «Só há um candidato no terreno e eu já tinha dito que não o apoiava. A solução que ele [Pedro Passos Coelho] apresenta é de continuidade, apesar de ter usado no seu livro o título “mudar”» («“A ruptura de que o país precisa é libertar o futuro”», Leonete Botelho, Público, 11.2.2010, p. 8).

[Post 3127]

Verbo «reaver»

Vergonha


      Não, cara Maria Luísa, não estamos de acordo: veja por aí se não encontra, em vez da correcta forma reouve, a errada *reaveu. Em acórdãos do Supremo Tribunal de Justiça, em jornais, em páginas da Internet de organismos oficiais, em blogues... A terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo reaver é reouve. O verbo reaver é formado de haver (re + haver). Reaver, nunca é inútil lembrá-lo, é um verbo defectivo, só se conjuga nas formas que conservam o v do radical. E pensar que quem escreve assim pode andar por aí a debitar opiniões sobre o Acordo Ortográfico de 1990...

[Post 3126]

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