Ortografia: «terra de ninguém»

Vai isto mal


      «O local onde isto aconteceu é uma terra de ninguém, longe de zonas habitadas ou mesmo de qualquer monte. A sorte da vítima é que, na mesma altura, numa outra estrada que liga Moura a Barrancos, aparece uma viatura da GNR» («Gang tentou sequestrar uma professora em Barrancos», Carlos Dias, Público, 4.2.2010, p. 22). «Contudo, a paisagem cinzenta e estéril à volta de Tikrit é uma terra-de-ninguém, de vigilantismo e vingança, onde qualquer veículo que se aproxime pode ser o último que se vê e nas vilas disparam rotineiramente sobre estranhos, considerando todos os forasteiros como inimigos» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 146).
      A locução, originalmente militar, escreve-se sem hífenes: terra de ninguém. Designa a área situada entre dois exércitos, sobre a qual nenhum dos dois oponentes estabeleceu controlo. É triste ver que até nos jornais se escreve, por vezes, melhor do que nos livros.

[Post 3098]

Verbo «pôr»

Escorraçado


      Um leitor chama-me a atenção para um título da edição de hoje do Público: «Derrotas, goleada e eliminação da Taça voltam a colocar gestão do clube de Alvalade em xeque». O título talvez nem seja da responsabilidade do jornalista que assina a peça, Filipe Escobar de Lima, mas de alguém há-de ser. Do editor, por exemplo. Não saberá este que pôr em xeque é uma locução consagrada, fixa, imutável? Que não queiram adoptar as regras do Acordo Ortográfico de 1990, como já afirmaram em editorial, não é censurável, tanto mais que estamos no período de transição e nem sequer o Diário da República o está a fazer, mas desvirtuar a língua desta maneira não merece louvores.

[Post 3097]

Imprecisões

Gatilhos por rastilhos


      «Em Xá dos Xás, o meu livro preferido, ele narra o desabamento do Xá do Irão e a chegada da ditadura religiosa do ayatollah Khomeini. Ora, qualquer revolução, qualquer fim de regime decorre de um conjunto de causas» («O país dos indiferentes», Pedro Lomba, Público, 4.2.2010, p. 32).
      É muito mais comum lermos ditadura teocrática, que considero mais correcto. (Veja, caro F. A.: aqui, «Xá», mas umas linhas atrás, isto: «Sócrates tem direito às suas opiniões sobre a sanidade de Crespo, assim como Crespo pode replicar que os complexos de perseguição do primeiro-ministro também merecem diagnóstico clínico.») É muito raro não encontrarmos imprecisões nas crónicas de Pedro Lomba. Não raro também, é traído pela ambição de desmontar chavões e frases feitas, o que acarreta sempre o risco de um fragmento lhe saltar para os olhos. «Mas o mais admirável do livro é o facto de Kapuscinski nos brindar com uma descrição psicológica de como as pessoas se fartam. Aí está: os detalhes. Qual é o gatilho que atiça a revolta?» Desde quando é que os gatilhos atiçam seja o que for?

[Post 3096]

Sobre «bosque»

Frutos e bosques


      O meu interlocutor, apesar de ter lido na ementa «crepe de frutos do bosque», o que pediu foi um «crepe de frutos silvestres». E o facto trouxe-me à memória ter ouvido em Dezembro, no programa Jorge Afonso, na Antena 1, Ângelo Correia dizer que vivia num bosque lá para Colares (será vizinho de Miguel Esteves Cardoso). Ora, «bosque» é um termo que não se ouve muito. Pessoalmente, sim, desde tenra idade ouvia falar num bosque, bem real que não de fábula, que mais tarde conheci. É com surpresa que vejo que os modernos lexicógrafos (não nos calhou nenhum James Murray) não sabem explicar muito bem o que é um bosque. Para Rafael Bluteau, bosque «é um sítio povoado de árvores e mata que serve para caça». Estamos mais familiarizados com o apelido Bosco, que vem do italiano e significa «bosque».

[Post 3095]

«Mestrados e doutorados»?

Coincidências


      À tarde, o meu interlocutor, com um crepe de frutos do bosque à frente, contou um episódio sobre Luís Filipe Pereira. À noite, este ex-ministro da Saúde, e agora presidente da EFACEC, era um dos convidados (o outro era Luís Portela, presidente da BIAL) do programa Negócios da Semana, na Sic Notícias. A determinada altura, disse Luís Filipe Pereira: «Nós [na EFACEC] temos também uma percentagem relativamente muito alta de doutorados e de mestrados.» A língua é feita pelos falantes, mas não exageremos na invenção. Se doutorado é, como substantivo, aquele que obteve o grau de doutor, mestrado não é aquele que obteve o grau de mestre. Temos licenciando, mestrando e doutorando, mas não temos licenciado, mestrado e doutorado, antes licenciado, mestre e doutorado. Como não temos licenciar-se, mestrar-se e doutorar-se. Temos o que temos. Temos paciência.

[Post 3094]

Selecção vocabular

Competição, concorrência...


      «Outras falam da competitividade das mulheres, que assistem a ocasiões sociais para avaliar a riqueza e posição dos anfitriões e dos seus convidados» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 72).
      Ó senhora tradutora, então agora confundimos termos técnicos com a intemporal rivalidade entre as pessoas? Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, competitividade é a «capacidade de um produto, de uma empresa ou economia para manter ou aumentar as suas quotas de mercado».

[Post 3093]

Tradução: «Hippocratic oath»

Juras e pragas


      «Os serviços de saúde de Mossul — em tempos dos melhores do país, assentes em pessoas como Ali, que tinham estudado no estrangeiro e nutriam um profundo respeito pela sua jura hipocrática — praticamente desapareceram» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 133).
      A tradutora deve ter jurado a si mesma que não usaria mais letras do que na expressão inglesa, Hippocratic oath, e conseguiu, mas com batota. Em português diz-se juramento hipocrático e não jura hipocrática.

[Post 3092]

Léxico: «doca»

Docas secas


      «Um rádio/despertador com doca para iPod é uma das mais recentes propostas da Memorex para o mercado português» («Tenha um acordar diferente», Metro, 2.2.2010, p. 21).
      Só agora dou conta como é vulgar designar por «doca» a base em que encaixam os Ipods. Provém da designação inglesa, dock. É um sentido figurado de uma acepção («a usually artificial basin or enclosure for the reception of ships that is equipped with means for controlling the water height» ou «a place (as a wharf or platform) for the loading or unloading of materials») deste vocábulo polissémico.
    «Rádio/despertador»? Que forma de grafar a palavra é esta, cara Catarina Poderoso, senhora revisora do jornal Metro? Escreva rádio-despertador.

[Post 3091]

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