Ortografia: «sem-papéis» II

De certeza que não

      «O Presidente Nicolas Sarkozy rejeitou ontem a regularização maciça de imigrantes ilegais — que podem ser 400 mil em França. O debate foi relançado pela greve dos “sem-papéis” que trabalham em empresas francesas, que decorre desde 12 de Outubro, e pelo anúncio do ministro da Imigração, Eric Besson, de que iria preparar uma lei que previa o encerramento das firmas que empregassem imigrantes ilegais» («Governo quer punir patrões que empregam “sem-papéis”», Clara Barata, Público, 25.11.2009, p. 17). Será mesmo preciso copiarem-se no pior?

[Post 2843]

Tradução: «francité»


Que é isso?

      Éric Besson, o ministro da Imigração e da Identidade Nacional francês, quer agora saber o que é ser francês. «O ambiente nos media, percebe-se bem, não é favorável a este debate, que é recusado pela esquerda. Mas muitos intelectuais e académicos têm oferecido um contributo que passa mais por arrasar os motivos do debate do que por oferecer ideias para definir a “francidade” (“francité”, como se diz em vários textos publicados, num tom mais ou menos jocoso)» («Definir o que é ser francês servirá apenas para cortar na imigração?», Clara Barata, Público, 25.11.2009, p. 16).

[Post 2842]

Aportuguesamento: «paparaço»

Em 2019

      Lá para os lados de Sintra, nasceu uma nova palavra: melhor, foi aportuguesada uma palavra que lemos todos os dias: «Nessas revistas tenho descoberto o ritmo iô-iô. Para aparecer, a pessoa engorda e é apanhada por um paparaço. Depois, aparece e jura que vai emagrecer. Emagrece e aparece, pela 3.ª vez. Emagrece de mais e reaparece, como anorética, pela 4.ª» («Um pânico feliz», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.11.2009, p. 43). De paparazzo, paparaço. Assim, já podemos ter um plural regular — paparaços —, e não a estupidez *paparazzis. Vai pegar? Falamos daqui a dez anos. (Mas é anoréctica ou anoréxica, como já aqui vimos.)

[Post 2841]

Semântica: «fenómeno»

Veja bem

      Uma leitora, professora de Português reformada, diz-se indignada por ter ouvido na Antena 1 que o PSD quer constituir uma comissão parlamentar eventual para acompanhar o fenómeno da corrupção. «Fenómeno, tanto quanto sei», argumenta, «só se aplica à Natureza; a corrupção é um acto voluntário do Homem.» Lamento contrariá-la, mas uma das acepções do vocábulo «fénomeno» aplica-se inteiramente no contexto: «tudo o que a nossa consciência ou os nossos sentidos podem apreender».

[Post 2840]

Léxico: «mobilete»

Mais uma

      «Um homem de 56 anos apresentou na última semana uma queixa relativamente a outro homem (que só conhece pela alcunha) que alegadamente terá caído da sua mobilete» («Agredido por homem que tinha tentado ajudar», Jornal do Fundão, 19.11.2009, p. 9). Mobilete começou por ser uma marca de um ciclomotor que existiu no Brasil. Tinha 49,9 cc, e por isso não exigia habilitação nem placa de matrícula. À semelhança de outras marcas, vimo-lo aqui recentemente a propósito de chiclete, tornou-se nome comum, fenómeno designado derivação imprópria.

[Post 2839]

Infinitivo: qual deles?

Podes crer

      «Markie, tu estás aqui para ser um estudante e para estudar o Supremo Tribunal e para estudar o Thomas Jefferson e para te preparar para entrar na faculdade de Direito» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez e revisão de Clara Joana Vitorino. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 132). Se for regido de preposição (neste caso, «para»), o infinitivo pode ser flexionado ou não. Logo, o tradutor poderia ter optado por escrever: «Markie, tu estás aqui para seres um estudante e para estudares o Supremo Tribunal e para estudares o Thomas Jefferson e para te preparares para entrar na faculdade de Direito.» E seria mesmo desta forma que eu poria a falar a mulher de um talhante, kosher ou não.

[Post 2838]

Léxico: «grafitar»

Picha-me aí essa parede

      «As latas de spray no chão, junto à mochila, despertam olhares curiosos em alguns clientes do supermercado. Nomen vai preenchendo com tinta os espaços entre as linhas desenhadas na parede de betão que separa o parque de estacionamento da zona comercial do IC19. Desta vez não tem que se preocupar com a polícia, uma vez que está a graffitar muros do itinerário que liga Lisboa a Sintra por conta da Estradas de Portugal» («IC19 vai ter muros decorados com graffiti», Luís Filipe Sebastião, Público, 24.11.2009, p. 25). «Graffitar»? Se para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora grafitar é somente «revestir de grafite (a superfície de um objecto) para o tornar condutor eléctrico» ou «lubrificar com pasta de grafite», para o Dicionário Houaiss também é «executar grafites em; riscar, rabiscar, pichar». Mais um erro do Departamento de Dicionários da Porto Editora, tanto mais que regista, por exemplo, «grafiteiro», o «autor de grafitos». Erro, sim. Leiam o que escrevem Maria Helena Mira Mateus e Alina Villalva na obra O Essencial sobre Linguística (Lisboa: Editorial Caminho, 2006) sobre os dicionários: «A ausência de uma palavra num determinado dicionário não deve, pois, ser interpretada ligeiramente como indiciadora da sua inexistência: pode tratar-se de uma palavra que cai fora do escopo do dicionário; que, por erro, não foi incluída; ou, ainda, que não precisa de estar dicionarizada por ser um produto previsível dos recursos morfológicos disponíveis (como sucede com a maioria dos advérbios em –mente, como necessariamente, ou com diminutivos em –inho, como livrinho)» (pp. 85-86).

[Post 2837]


Actualização em 28.11.2009

      «Convidaram alguns bons grafitters (eu cá preferia grafitistas ou grafitógrafos) para pintar (e não decorar) alguns muros. Acho bem. Acho que a única maneira de impedir os taggings mais feios (a que chamaria rubricas murais) é apelar ao gosto dos rubricadores e assinantes» («Em algo bonito», Miguel Esteves Cardoso, Público, 28.11.2009, p. 51).

Ortografia: «lipoaspiração»

Mas não é

      «Isto para pseudo-embelezar idiotas de ambos os sexos que provavelmente gastam fortunas para que lhes seja extraída a gordura, por lipo-aspiração, sem ter sequer o cuidado de pedir que a ponham num garrafãozinho, para levar para casa» («Da gordura humana», Miguel Esteves Cardoso, Público, 24.11.2009, p. 39). Talvez tenha sido culpa do revisor, mas está errado: é lipoaspiração. Nunca o antepositivo lipo- é separado por hífen do segundo elemento. A propósito: já viram a diferença entre lipoaspiração e lipoescultura? Esta é uma espécie de transfusão autóloga.

[Post 2836]

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