Prefixo re- no novo acordo

Mal pensado


      «Pode também re-endereçar mensagens entre duas contas» («Cem pessoas presas no caso das ‘passwords’», Pedro Fonseca, Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 50). Temos de tudo: jornais que adoptaram (mais ou menos, como vimos) as regras do Acordo Ortográfico de 1990, jornais que respeitam estas regras apenas numa (!) coluna e jornais que, de vez em quando, escrevem certos vocábulos em conformidade com o acordo.
      É verdade que a alínea b), n.º 1, da Base XVI do Acordo Ortográfico de 1990 não exemplifica com o prefixo re- (e parece que os redactores do texto se esqueceram dele), mas, por analogia com os que ali são referidos, se o segundo elemento começar por e, deverá ser seguido de hífen. É o caso de re-endereçar. O que sucede é que o VOLP não seguiu a regra. Só verbos, vejam quantos sofreriam esta alteração: reedificar, reeditar, reeducar, reeleger, reembolsar, reencarnar, reencontrar, reentrar, reenviar, reerguer, reescalonar, reescrever, reestruturar, reestudar, reexaminar... Mas como regras são regras, o programa FLIP 7, que os computadores da redacção do Record têm instalado, mandam separar por hífen o prefixo re- quando o segundo elemento se inicia com a vogal e.

Ortografia: «açafrão-da-índia»

Isso era dantes


      «São precisas 100 mil flores da espécie Crocus sativus para obter 500 gramas de açafrão. Não admira que esta seja a especiaria mais cara do mundo e que muitos optem por usar um substituto: o açafrão das índias, extraído da raiz de uma planta da família do gengibre» («Especiaria de luxo», Teresa Resende, Expresso/Única, 18.07.2009, p. 92). Em termos de ortografia, o Expresso e as publicações que o acompanham estão actualmente muito longe dos cuidados de outrora. Ignorando a Crocus sativus, que dizer deste açafrão das índias? Que percebia, neste caso, que grafassem com maiúscula inicial o topónimo. Correcto, contudo, é açafrão-da-índia, tal como açafrão-agreste, açafrão-bastardo, açafrão-bastardo, açafrão-bravo, açafrão-primavera, açafrão da terra, açafrão-de-outono, açafrão-do-campo, açafrão-do-mato, açafrão-palhinha, açafrão-vermelho.

Léxico: «metroviário»

Nova

      «Entrou no sector ferroviário, com a operação da Fertagus, que liga Setúbal a Lisboa, e iniciou-se também no metroviário, com o Metro do Sul do Tejo» («O rei do garrafão», João Palma Ferreira, Expresso/Única, 18.07.2009, p. 40). Não é palavra que apareça todos os dias. Vem assim fazer companhia a ferroviário, rodoviário e rodoferroviário. O Dicionário Houaiss regista-o: «adj.s.m. (c1985) B relativo a ou o funcionário, agente, empregado do metropolitano (‘sistema de transporte’)».

Nado-morto/nado-vivo

Explicação

      Todos os dias deparamos com incoerências e lacunas nos dicionários. O que explica que nem todos os dicionários registem nado-vivo — se todos registam nado-morto? Há-de ser a explicação para, ao lado de nado-morto, sobretudo em estudos estatísticos, aparecer nado vivo.

«Dreadlocks» e «rastas»

Um ano antes


      «Gosto do cabelo dele, que é escuro e espesso e com dreadlocks, chegando-lhe quase aos ombros» (Um Aniversário Inesquecível, de Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2008, p. 58). Nesta tradução, a tradutora preferiu dreadlocks a «rastas», ao contrário do que vimos aqui.

«Bundle of straw»?

Imagem: http://www.hit-vietnam.com/


Um estágio no campo


      «Saltamos um portão de quinta e avançamos por um caminho íngreme e escorregadio. O lavrador tinha acabado de cortar o feno e tinha-o atado em medas. Cheirava maravilhosamente» (Um Aniversário Inesquecível, de Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2008, p. 185). Aos meninos das cidades, os pais levam-nos a casa dos avós para verem donde vêm os ovos. Quem leva os tradutores ao campo (já que eles não querem ir aos dicionários) para estes verem o que é uma meda? Acredito que cheirasse maravilhosamente, mas o lavrador não tinha atado o feno em medas.

Tradução: «right»

«Certo»? Errado


      «— A Mãe franze a testa.
      — Piza não — diz ela. — Agora sou vegan, não te tinha dito? Nada de queijo, leite, ovos ou mel.
      — Certo — diz o Pai, parecendo novamente perdido» (Um Aniversário Inesquecível, de Cathy Cassidy. Tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2008, p. 24).
      Há muito tempo que ando a ler e a ouvir isto na televisão, dos desenhos animados a filmes. Desde quando é que em português assentimos desta forma, cara Cristina Queiroz? Por certo que nunca. É a má tradução do advérbio right.

Grafia dos topónimos

Salem é capital

      Ora aqui estão dois extremos: acabei de rever um texto em que se referia a localidade norte-americana de Beavercreek — Oregão, escrevera o autor, jornalista. Pouco faltava para ser a deliciosa planta herbácea, fortemente aromática, da família das Labiadas, espontânea em Portugal, muito utilizada como tempero na culinária. Por outro lado, na obra Um Aniversário Inesquecível, de Cathy Cassidy (tradução de Cristina Queiroz. Lisboa: Livraria Civilização Editora, 2008), leio o seguinte: «No meu oitavo aniversário, veio um postal de Marrakech, em Marrocos, uma fotografia de uma rapariga árabe sorridente com os braços cobertos de pulseiras douradas» (p. 8). Estamos mais habituados ao contrário: ver Oregon e Marraquexe.

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